<p data-end="1181" data-start="570">Vencedor do Prêmio Jabuti deste ano na categoria Educação, o professor Adilson José Moreira, da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, destaca um termo ainda pouco usado na sociedade: o letramento racial. Em seu livro, <em data-end="886" data-start="812">Letramento Racial: Uma Proposta de Reconstrução da Democracia Brasileira</em>, Adilson atribui à falta desse letramento a existência de um racismo ainda consolidado em todos os ambientes, que impede a formação de uma sociedade verdadeiramente igual para todos. Hoje, Dia da Consciência Negra, a entrevista abaixo propõe uma reflexão sobre pontos importantes dessa questão.</p> <p data-end="1357" data-start="1183"><strong data-end="1357" data-start="1183">No seu livro, o senhor fala em ‘letramento racial’ como um caminho para construir a democracia no Brasil. Poderia definir o que é esse letramento e por que é tão urgente?</strong></p> <p data-end="2348" data-start="1359">O propósito do livro foi desenvolver uma reflexão sobre os motivos pelos quais nós não temos uma plena democracia no Brasil. Obviamente que há muitas razões, mas uma delas está relacionada a um requisito fundamental para a construção de uma cultura democrática, que é a ideia de solidariedade cívica. Desde os gregos há a ideia de que a democracia pressupõe o reconhecimento da igualdade moral entre os indivíduos. Quando isso não acontece, há uma dificuldade grande para se construir consenso sobre o que é o bem comum e o que é o mais relevante para todos e não para um ou outro. O racismo, que tem um aspecto estrutural na nossa sociedade, é um empecilho significativo para a construção dral da democracia, que é a solidariedade cívica. Então, letramento racial pressupõe a ideia de conhecimento dos mecanismos culturais, institucionais, políticos, jurídicos, econômicos que impedem a igualdade entre os diversos grupos raciais. Letramento racial também está relacionado com inspiração.</p> <p data-end="2365" data-start="2350"><strong data-end="2365" data-start="2350">Inspiração?</strong></p> <p data-end="2709" data-start="2367">Sim. É importante olhar para a história, para a Constituição, os objetivos que ela estabelece e quais parâmetros devemos instituir para realizar a democracia. Letramento racial também diz respeito a ação, ou seja, uma vez que há essa ausência de justiça racial, é importante que se atue para construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva.</p> <p data-end="2942" data-start="2711"><strong data-end="2942" data-start="2711">O senhor fala na necessidade de incluir esses conceitos desde a educação básica. Mas isso já não é feito por meio da história do Brasil, quando se fala da abolição, da participação do povo indígena e do negro na nossa história?</strong></p> <p data-end="3860" data-start="2944">Certos tópicos da história brasileira de fato sempre foram abordados, mas a partir da perspectiva de autores brancos e não de autores negros e indígenas. Isso faz toda diferença. Também é importante observar que essa história contada por autores brancos não foi baseada no racismo, foi muito menos dolorosa e discriminatória que a história dos Estados Unidos... os alunos que estudaram essa história a partir dessa perspectiva, acham que não tem nenhuma responsabilidade social e histórica pelo que acontece hoje com negros e indígenas. Por isso é que digo que o letramento racial deve começar na escola, porque ele é uma educação para a democracia. Devemos começar esse debate de conceitos básicos: o que é um direito? O que é igualdade, liberdade, dignidade? O que faço com os meus direitos? Construindo essa consciência política e jurídica passamos para a discussão sobre disparidades sociais, raciais, de gênero.</p> <p data-end="3877" data-start="3862"><strong data-end="3877" data-start="3862">Como assim?</strong></p> <p data-end="4302" data-start="3879">Grande parte dos nossos magistrados não tem informação sobre isso. No livro, fiz questão de incluir teorias de discriminação, porque nosso Judiciário trabalha com uma única ideia de discriminação, que é o ato intencional de prejudicar uma pessoa só porque é negra ou índia. Mas há, na verdade, uma pluralidade de teorias de discriminação. As desigualdades raciais são produzidas até mesmo quando não há ato discriminatório.</p> <p data-end="4457" data-start="4304"><strong data-end="4457" data-start="4304">Se fosse possível dar uma nota, que nota o senhor daria, de 0 a 10, para o tanto que já caminhamos para eliminar o racismo desde a abolição, em 1888?</strong></p> <p data-end="4619" data-start="4459">Eu diria que caminhou 4, muito pouco, porque pessoas negras e indígenas ainda são sistematicamente discriminadas no acesso a serviços públicos de toda natureza.</p> <p data-end="4728" data-start="4621"><strong data-end="4728" data-start="4621">Para além da educação, que políticas públicas seriam necessárias implantar para reduzir essa distância?</strong></p> <p data-end="5169" data-start="4730">Muitas. Precisamos ter um controle maior sobre práticas discriminatórias dentro das empresas, implementar incentivos fiscais para empresas que contratam negros e indígenas, garantir a representatividade de negros e indígenas nos legislativos, no Judiciário. Precisamos garantir que, após concluírem a universidade, vão conseguir emprego, porque muitas empresas ainda usam a raça como critério de seleção, não importa a qualidade da pessoa.</p> <p data-end="5351" data-start="5171"><strong data-end="5351" data-start="5171">Há duas semanas, tivemos a posse, pela primeira vez em 128 anos da Academia Brasileira de Letras, da primeira mulher negra. O senhor considera um passo importante nesse debate?</strong></p> <p data-end="5653" data-start="5353">Sem dúvida. Eu vi uma entrevista da Ana Maria Gonçalves em que dizia que ela foi a nona mulher negra no Brasil a publicar um romance. Como assim? Em 500 anos de história, só nove mulheres? Será porque não escrevem? Porque não têm trabalhos relevantes? Não, é porque os meios de acesso estão fechados.</p> <p data-end="5829" data-start="5655"><strong data-end="5829" data-start="5655">O senhor considera que a televisão brasileira tem contribuído para trazer esse debate ao público ao criar programas e até novelas em que o tema do racismo está no centro?</strong></p> <p data-end="6185" data-start="5831">Veja, um elemento importante na questão do letramento racial é a possibilidade de educar pessoas brancas para entenderem que pessoas negras podem desempenhar funções com a mesma competência. Então, quanto maior for a chance de pessoas brancas verem pessoas negras de forma não estereotipada, isso contribui para eliminação de preconceitos e estereótipos.</p>