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Quarta-feira

20 de Novembro de 2019

Segundo especialistas, culpa e medo alimentam abuso sexual

Caso do estudante Lucas Grudzien, de 22 anos, morador do bairro Morrinhos, em Guarujá, é analisado por psicólogas

Medo da reação das pessoas ao revelar o que está acontecendo, sentimento de culpa em relação aos fatos e forte sedução produzida pelo agressor. Essas são algumas das razões que podem levar uma criança ou adolescente a não denunciar um abuso sexual e continuar como vítima durante muito tempo, explicam especialistas ouvidas pela Reportagem. 

Na última terça-feira (15), A Tribuna publicou o caso do estudante Lucas Grudzien, de 22 anos, morador do bairro Morrinhos, em Guarujá. Ele afirma ter sofrido abusos por parte de um padre na Paróquia Senhor Bom Jesus, na Vila Zilda, o que acabou com o sonho de seguir carreira religiosa. A situação teria começado quando tinha 14 anos, era coroinha e trabalhava no arquivo da igreja. Segundo ele, durou mais de um ano, entre 2012 e 2013, até ele ter coragem para denunciar o agressor, padre Edson Felipe Monteiro Gonzalez. 

A psicóloga Christiane Carrijo Eckhardt Mouammar, professora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), trabalha desde 2003 com casos de violência sexual contra crianças e adolescentes. Ela afirma que todo abuso envolve um segredo, que dificulta a denúncia. 

“Existe uma dificuldade para uma criança ou adolescente contar o que está acontecendo. E temos que respeitar quem consegue quebrar esse segredo e falar. A própria revelação pode ter efeitos traumáticos. Rememorar produz efeitos físicos e psicológicos”, explica a especialista. 

Christiane afirma que, a partir da decisão, a pessoa terá que contar a história muitas vezes. “Todo mundo comenta, produz efeitos na escola. Isso pode gerar medo e paralisação profundos em quem sofre”. 

Ela lembra que estatísticas mostram que 75% das vítimas de abuso conhecem seus agressores. “É uma pessoa próxima que a criança ou adolescente confia. Isso contraria o que as famílias costumam ensinar para as crianças, que é: não deixe um estranho se aproximar. Quando é pessoa muito próxima e ainda envolve uma autoridade religiosa – e o adolescente tem desejo de se tornar essa autoridade – a culpa é mais intensa”. 

Sedução 

A psicóloga Rosemary Peres Miyahara, coordenadora do Centro de Referência às Vítimas de Violência (CNRVV) do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, afirma que na adolescência já há maturidade para entender o que acontece, porém, o agressor acaba seduzindo a vítima com um discurso. 

“É mais por sedução do que ameaça. A vítima acaba introjetando a narrativa do autor sobre o que está acontecendo. É um movimento de ser colocado em um lugar especial, é uma narrativa que vai legitimando aquele tipo de interação”, ressalta. 

Rosemary diz que a situação envolve afeto, confirmação e estima da vítima. “Fazem o adolescente se sentir especial na vida daquele adulto que ele tem admiração. Outra questão é a culpa. A vítima vai se sentindo cúmplice, conivente com a história, e tem receio muito grande que isso seja olhado como tendência homoafetiva”.

Áudio revela encontro na Diocese

A Tribuna teve acesso a trecho de uma conversa que teria sido gravada em 2014 na sede da Diocese de Santos, quando a família de Lucas foi ao local denunciar padre Felipe para a igreja. No local, o interlocutor é padre Caetano Rizzi, que conversa e orienta os familiares. 

“A justiça e a caridade devem caminhar juntas. Justiça no sentido de quem é culpado, mas quem sofreu que receba a caridade para poder levantar e olhar para a frente”, disse Rizzi à família, na gravação. 

O padre também orienta os pais de Lucas a reunir provas e a guardar a situação para eles, para “preservação” do filho.

Rizzi também pede que a família confie na igreja. “O psicólogo poderá ajudar padre Felipe naquilo que ele precisa, dar guarita. Vamos tirar ele do ar um pouco, até que o bispo possa encaminhar e ver o que deve fazer. Que as pessoas não saibam. Peço ao Lucas também. Às vezes, como menino, ele poderá ir numa festinha (...) e começam a perguntar”.

O padre

Procurado pela Reportagem, Rizzi disse que o encontro foi no mês de janeiro, o bispo estava de férias e ele respondia pela Câmara Eclesiástica, encarregada de processos matrimoniais. Disse que recebeu os pais do rapaz, “bastante tristes”, e que levaria o caso aos superiores.

“Vendo que estavam abalados, pedi se podia dar-lhes a bênção, o que acataram imediatamente. Disse que, naquela mesma noite, iria levar ao conhecimento de meu superior. Foi o que fiz. Como é nosso costume na Igreja, quando deixamos a situação nas mãos do superior, não cobramos postura, pois cabe a ele decidir”.

O padre afirma que, no encontro, apenas orientou a família e que não houve qualquer tipo de pressão. “Sabia da gravidade dos fatos e quis ajudar os pais no discernimento. Aconselhei prudência e tranquilidade”, diz o padre, afirmando que não lembra ter usado termos impróprios. “Quem me conhece, sabe que sou ponderado nas palavras, principalmente de duplo sentido”.

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