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Sábado

15 de Agosto de 2020

Heróis da vida real: Bombeiros ficaram 15 dias em Guarujá na busca por vítimas de deslizamentos

'Temos nosso juramento, de defesa da sociedade, mesmo que com o sacrifício da própria vida, que não são apenas palavras bonitas', diz o comandante da corporação no estado, Max Mena

Eles são heróis da vida real. Mas não precisam de superpoderes para enfrentar perigos e salvar a população. Seja em incêndios, alagamentos, acidentes ou grandes tragédias, como ocorreu em Guarujá no dia 3 de março, os bombeiros estão sempre a postos, incansáveis. E têm um juramento a cumprir: dedicar a vida, se for preciso, para o próximo. Na prática, nem precisam de palavras, papel e juras para isso. 

Não é à toa que eles são os queridinhos do brasileiro. A instituição recebeu o título de mais confiável no País pela 11ª vez consecutiva, de acordo com o Índice de Confiança Social (ICS), medido pelo Ibope. 

“Algumas coisas para nós são imutáveis: bombeiros saem rápido do quartel. A pessoa que precisa tem uma resposta rápida. Na nossa formação, não se deixa ocorrência pela metade e nem ninguém para trás. Atendemos com cordialidade e muito respeito à dignidade humana”, diz o comandante do Corpo de Bombeiros no estado, Max Mena.

“Temos nosso juramento, de defesa da sociedade, mesmo que com o sacrifício da própria vida, que não são apenas palavras bonitas. O Batalha [cabo Marciel de Souza Batalha] e o Moraes [Rogério de Moraes Santos] estão aí para provar”, complementa.

Experiência

Foi esse conjunto de valores que se viu ao longo de 15 dias na região, quando mais de mil profissionais passaram pelo Guarujá se revezando na procura por vítimas soterradas durantes os deslizamentos provocados pelo forte temporal do começo do mês. Há 18 anos, a capitã Daniela Santos Oliveira decidiu deixar a carreira na Polícia Militar para ingressar no Corpo de Bombeiros. 

Desde lá, já perdeu as contas do número de ocorrências que enfrentou. Ela, inclusive, esteve entre os profissionais que atuaram em Brumadinho (MG), onde encarou um cenário hostil, com muita lama e vítimas soterradas. 

A experiência ajudou nos dias em que esteve no comando de equipes em Guarujá. Cidade de onde ela disse que só sairia quando encontrasse a última vítima. “Sempre é uma emoção diferente em cada ocorrência. No começo, quando tivemos de tirar as pessoas daqui, porque estava muita chuva, foram os mais complicados. Como você diz para o morador: não ajude a achar um familiar, um amigo, porque você está se expondo a risco? É difícil”.

Reforço

O 1º tenente Metuzael Ferreira da Silva é de Taubaté, no Interior Paulista, e veio à região pela primeira vez para reforçar o quadro do Corpo de Bombeiros após as chuvas na Baixada. 

“Já peguei outras ocorrências, mas não dessa magnitude. A gente trabalha para tentar dar uma resposta e um conforto para que os familiares possam enterrar seus entes com dignidade”.

Diante do cenário de destruição, ele sabe que o trabalho foi árduo, porém, faz parte missão de quem escolhe seguir a carreira. “Ser bombeiro é um estado de espírito. A gente não se forma bombeiro. A gente nasce bombeiro”. E conhecem os riscos ao sair todos os dias para atender ocorrências em qualquer parte do Estado ou, em algumas situações, até em outras localidades.

“Acho que é uma missão. A gente coloca a vida em risco, mas com técnica para ajudar pessoas que a gente nem conhece. Mas sempre há riscos. Perdemos dois companheiros no Morro do Macaco Molhado. Mas faz parte dessa missão, que é ir aonde ninguém quer estar”, acrescenta Daniela.

O 3º sargento Anderson Colonhesi compartilha do mesmo sentimento. Ele, que é de Marília, no Interior, diz que sonhava ser bombeiro desde a infância. “Faço o que sempre sonhei. É bem gratificante, porque trabalhamos ajudando, mesmo enfrentando as piores tragédias”.

E explica que os profissionais atendem uma gama grande de ocorrências. “Por isso, você tem que ter um controle emocional, caso contrário não consegue auxiliar ninguém”.

Capitã Daniela usou a experiência em Brumadinho durante as buscas (Foto: Carlos Nogueira/AT)


Trabalhos foram muito delicados

Em Guarujá, os bombeiros relatam que enfrentam muitas complicações no resgate às vítimas. “Muita terra desceu. A gente não sabe a profundidade que elas possam estar soterradas, então fica difícil”, diz o 1º tenente Metuzael Ferreira da Silva. 

Após as chuvas darem trégua, máquinas foram incluídas na rotina de trabalhos na Barreira do João Guarda, local no qual foi registrado o maior número de mortes. Foram 23 mortos. 

“Apesar de parecer braçal, é um trabalho bem técnico. Tivemos de ficar atentos ao maquinário e verificar se não surgia algum sinal de vítima. Daí tínhamos de parar tudo e procurar manualmente”, acrescenta o 3º sargento Anderson Colonhesi. 

Há quase 22 anos na corporação, o major Alexsandro Vieira conta que o acesso aos locais de deslizamentos também foi um dos pontos que tornou o atendimento delicado. “A operação que ocorre em área não planejada, como encosta de morro e periferias, é complicada. Porque temos preocupação com nossos homens e com as pessoas que estão ajudando. Não podemos fazer com que eles se tornem novas vítimas”.

Colonhesi diz que precisa ficar atento às máquinas na busca por vítimas (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Nem tudo é só tristeza no dia a dia

Mas os profissionais também guardam momentos felizes no coração. São histórias que trazem acalento diante das dificuldade. O tenente Metuzael fala sobre o salvamento de uma criança de 4 anos, que caiu em um poço, com profundidade de seis metros, numa obra, em 2014.

“Era bastante estreito. Não dava para abrir o buraco, porque podia soterrá-lo. A gente usou técnicas de içamento para retirá-la. Foi difícil pois tenho filhos dessa idade. Mas, graças a Deus conseguimos tirá-lo”. 

A capitã Daniela também fica emocionada ao lembrar do desabamento de uma igreja em Diadema (SP). Duas pessoas ficaram soterradas por 16 horas. No local, apenas um acesso estreito. “Como sou menor, conseguia chegar até elas e pediam para que eu as tocasse. Queriam sentir que tinha alguém perto, porque estavam bem machucados e com lajes em cima”.

Ela diz que os viu rapidamente na hora em que foram resgatados, “Depois de um ano, fizeram uma matéria sobre isso e um deles contou que lembra da voz de uma bombeira. Ficou marcado para ele isso. Acho bem legal”.

Apesar das dificuldades, Metuzael lembra de situações com final feliz (Foto: Carlos Nogueira/AT)
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