Gisele Vicente começou na profissão em 2023 (Nicole Chris / AT) Com traços realistas e aparência de recém-nascidos, os bebês reborn têm viralizado nas redes sociais e gerado polêmica ao serem tratados como filhos de verdade por algumas pessoas. Para a cegonha e artista Gisele Vicente do Nascimento Feitosa, de 40 anos, de Guarujá, a criação das bonecas vai além da renda extra: é também uma forma de enfrentar a depressão. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! A funcionária pública relata que começou na profissão em 2023, depois de comprar uma boneca pela internet para a filha. O anúncio dizia que era um bebê reborn, mas, ao receber o produto, se decepcionou — a boneca não tinha pintura, cabelo ou qualquer semelhança com um recém-nascido. Após a situação inesperada, ela começou a pesquisar sobre o assunto, se interessou e decidiu investir na área. Para isso, fez cursos, comprou os materiais e deu início às próprias criações. Atualmente, o preço de suas bonecas varia e algumas podem passar de R\$ 2 mil. “Para mim, é uma forma de terapia que eu vi como uma fonte de renda. (...) Ela me ajuda a não lembrar das coisas ruins que você pensa quando está com depressão. Quando está lá fazendo bebezinho, você está concentrada”, esclarece. Entenda a polêmica O universo reborn tem dominado as redes sociais nas últimas semanas, com vídeos de mulheres que se dizem ‘mães’ das bonecas, levando-as a consultas médicas, passeios no parque e até simulando partos. Gisele afirma que não conhece ninguém que trate a boneca como um bebê de verdade e acredita que, quando isso acontece, pode se tratar de um transtorno. “Como eu sou da área da saúde, acho que é meio inviável alguém ter coragem de entrar num pronto-socorro levando uma boneca, mas, caso isso ocorra, a gente tem que barrar, né?”, destaca. Toda a polêmica acabou desencadeando uma crise de ansiedade em Gisele, principalmente após ler comentários que, segundo ela, desrespeitavam tanto as colecionadoras quanto as cegonhas (pessoas que produzem as bonecas). A técnica em enfermagem conta que viu diversas pessoas dizendo que quem gostava de bebês reborn precisava ir para o Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Para ela, que faz acompanhamento psiquiátrico por ter um transtorno mental, estão banalizando a saúde mental. “Eu consigo ter uma vida em sociedade normal, trabalhar, fazer minhas coisas, mas e quem está lá que não consegue é motivo de chacota? Essas pessoas que estão falando isso, elas estão agredindo duas vezes: agridem a gente e agridem quem é paciente de uma instituição do Caps”. Gisele afirma que nunca tratou a boneca como um recém-nascido de verdade e acredita que algumas situações mostradas nas redes sociais, como simulações de parto e amamentação, são exageradas. Para ela, muitas pessoas recorrem a esse tipo de conteúdo em busca de curtidas e monetização. "E, no fim, os comentários negativos acabam atingindo toda a comunidade reborn". “Eu não trato nenhuma boneca igual neném e muita gente não trata, inclusive as colecionadoras. Elas colocam o saco na cabeça porque não bagunça o cabelo e põem o neném dentro do guarda-roupa. Não é uma criança. Então, é uma ilusão aquilo que a gente vê na internet, elas fazem para criar conteúdo”. Como é feito um bebê reborn? A produção de um bebê reborn pode levar até uma semana para ser finalizada. Tudo começa com a encomenda dos ‘kits’, que incluem cabeça, braços e pernas, além da parte do corpo separadamente. O processo envolve pintura, aplicação de detalhes realistas, implantação fio a fio de cabelo e cílios. Gisele, que trabalha com tinta a óleo, utiliza um forno especial para selar a pintura. “A gente assa o neném”, brinca. Ela faz bonecas que vão desde recém-nascidos até crianças de 5 anos. O que os especialistas dizem? A especialista em comportamento e psicanalista Fabiana Guntovitch explica que, embora à primeira vista a prática possa parecer apenas um hobby exótico ou uma excentricidade, o fenômeno carrega dimensões psíquicas profundas e que merecem atenção. “A relação com um bebê reborn é, muitas vezes, uma forma simbólica de cuidar de si mesma — de partes frágeis, feridas ou não elaboradas da própria história emocional”. Segundo a especialista, a prática pode estar relacionada a questões como luto perinatal, infertilidade, solidão afetiva ou mesmo uma forma inconsciente de evitar os desafios reais da maternidade. “O reborn representa uma maternidade idealizada: um filho que não chora, não exige limites, não adoece, não cresce. É uma figura de amor total, mas sem os riscos, frustrações e renúncias da maternidade real”, explica ela. Pelo olhar da psicanálise, o uso de bebês reborn pode acionar mecanismos como projeção, identificação e esforços inconscientes para lidar com vivências de perda ou abandono. Em certos casos, a boneca funciona como um reflexo de desejos, angústias ou traumas ainda não elaborados. "O problema aparece quando o vínculo com o bebê reborn passa a substituir as relações humanas”, alerta Fabiana. “Quando há um apego excessivo, pode ser sinal de sofrimento psíquico, isolamento afetivo e dificuldade de lidar com a realidade emocional”, emenda.