Pandemia transforma o trabalho de costureiras da Baixada Santista

Covid-19 modifica o foco de profissionais do segmento, que resiste ao tempo e está bem longe de ter seu ponto final

Por: Júnior Batista  -  03/01/21  -  11:54
Simone priorizou a confecção de máscaras e se surpreendeu com a alta demanda
Simone priorizou a confecção de máscaras e se surpreendeu com a alta demanda   Foto: Vanessa Rodrigues/AT

Profissionais que resistem ao tempo e à vida moderna, as costureiras também tiveram que se adaptar à pandemia da covid-19. Dos retalhos, passaram a confeccionar novos caminhos, indo além de uma mera barra de calça por fazer — até a confecção de máscaras entrou no dia a dia delas.


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Gerente da BL Confecções, de Santos, Ivete Carvalho, de 64 anos, diz que a relação dos serviços de confecção para profissionais de costura mudou radicalmente nos últimos meses, por causa da pandemia. “Até 2019, 60% dos meus serviços eram de confecção. Hoje, creio que esse índice esteja em torno de 20%, com o resto voltado a reparos”.


A loja, que funciona há 18 anos no bairro Pompeia, fechou as portas durante os meses mais duros da covid-19. Agora, o espaço, que chegava a ter mais de uma dúzia de costureiras, conta com três colaboradoras: uma de manhã e duas à tarde.


Uma delas é Ana Dias de Miranda, de 66 anos. Costureira há mais de três décadas, ela começou a trabalhar no local no ano passado. Apaixonada pela profissão, aprendeu sozinha a fazer reparos nas próprias roupas e dos familiares. Depois, entrou em cursos e hoje complementa a aposentadoria com o trabalho. “Isso mantém a cabeça ocupada. Costura envolve concentração, jeito e bom gosto”, afirma.


Desafios


Dulce Bernardes, de 64 anos, atua há três décadas e meia como costureira e faz os serviços na BL Confecções e em casa. Ex-funcionária de fábrica têxtil, ela conhece de perto a realidade dos tecidos e das roupas.


O gosto por costurar surgiu naturalmente, conta Dulce, e hoje seu maior desafio – e sua preferência – são as roupas masculinas, como ternos e calças sociais. “Acho que essas peças exigem mais detalhes e atenção. Gosto do desafio que elas trazem”.


No Centro de Santos, também é possível achar locais que fazem o serviço. Na quadra entre as ruas João Pessoa e General Câmara, está a pequena loja de Simone Maria Rodrigues, de 63 anos. Fixada no local há pouco mais de um ano, a mineira diz que trabalha, basicamente, com reparos e que o movimento não mudou.


A maior prova disso é que, enquanto conversava com a Reportagem, uma cliente chegou à loja para buscar uma peça e, em seguida, deixar outra para ajustar. A despachante Cristiane Pereira, de 48 anos, comemorou os quilinhos a menos ajustando as peças que tem em casa e gosta desse tipo de serviço. “Se as peças são boas, eu as mantenho, indo em busca só do ajuste”.


Covid-19


No primeiro semestre do ano passado, enquanto a sociedade assimilava a solavancos os impactos do coronavírus e se via obrigada a mudar hábitos da noite para o dia em nome da saúde, Simone focou na produção de máscaras e fez a alegria de clientes mais próximos. Agora, não consegue dar conta.


“Até parei de fazer por um tempo, porque não havia como dar conta de tantas máscaras. As pessoas ainda pedem muito”, diz ela, que aprendeu sozinha o ofício há mais de 40 anos.


De frente para Simone e funcionando há 53 anos, a Farrapo Aviamentos e Artesanato viu os pedidos de tecidos dispararem nos meses mais rigorosos da quarentena — a alta chegou a 80% entre março e junho, com foco na produção de máscaras. O movimento cresceu tanto que, segundo o dono da loja, Gustavo Marcondes, os pedidos de algumas costureiras atrasaram por ausência de produtos entre os fornecedores.


“Realmente, dispararam as buscas. Hoje, esse tipo de procura diminuiu, mas não terminou”, afirma Marcondes, um otimista de carteirinha quanto ao futuro da costura. “Todo mundo sempre vai ter uma peça para ajustar, né?”


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