'A única preocupação é em mandar paciente para a Santa Casa', diz diretor do hospital

Augusto Capodicasa lamenta a falta de interesse por parte dos municípios da Baixada Santista em debater a questão dos repasses para a Santa Casa de Santos; unidade pode deixar de atender procedimentos da alta complexidade via SUS

Por: Bruno Gutierrez & Com informações de A Tribuna &  -  19/02/19  -  15:45
Após troca de tiros com policiais no último domingo (9), menor foi internado na Santa Casa de Santos
Após troca de tiros com policiais no último domingo (9), menor foi internado na Santa Casa de Santos   Foto: Alexsander Ferraz/AT

A falta de repasses por parte da União e do Governo do Estado de São Paulo tem preocupado a direção da Santa Casa de Misericórdia de Santos. Com despesas que superam as receitas em aproximadamente R$ 60 milhões e a negativa de ampliação do teto de repasses públicos, o hospital corre o risco de colapso financeiro. 


Segundo publicado por A Tribuna, na edição desta terça-feira (19), a instituição cogita reduzir o número de atendimentos à Rede de Urgência e Emergência (RUE) e deixar de lado procedimentos de alta complexidade – ambos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e considerados de referência na região.


A possível diminuição consta em um relatório do setor financeiro do hospital, com base no faturamento pelo SUS. As conclusões serão analisadas pelo provedor, Ariovaldo Feliciano, a quem caberá uma decisão. Caso a medida seja aprovada, estima-se uma retração média mensal de 200 internações e de até 450 atendimentos pelo RUE. O levantamento, a que A Tribuna teve acesso com exclusividade, cita que o volume de serviços naquelas áreas cresceu, mas o valor pelos serviços está congelado desde 2008.


"Estamos preocupados com a continuidade do atendimento de alta-complexidade. No ano passado, tivemos um prejuízo de R$ 40 milhões. Esse prejuízo não é da instituição. É prejuízo de atendimento SUS. Estamos buscando receitas em outros atendimentos, mas está começando a ficar inviável. Precisamos investir em equipamento, capacitação de colaboradores, no imóvel, e acabamos deixando de fazer esses investimentos necessários para cobrir rombo do SUS", diz o diretor administrativo e financeiro da Santa Casa, Augusto Capodicasa, em conversa com A Tribuna On-Line.


O diretor do hospital lamentou a falta de interesse dos municípios da Baixada Santista em debater a questão dos repasses necessários para a matuenção dos serviços na unidade.


"Nos municípios da região, nós não vemos preocupação em discutir esse assunto. A única preocupação é em mandar paciente para a Santa Casa. Então, o provedor pediu um relatório, nós fizemos, apresentamos para ele e esse relatório demonstra que, da maneira que o Estado e a União tem tratado a Santa Casa, só nos resta parar de atender o SUS", comenta Capodicasa.


Técnicos do hospital desenham dois cenários: o primeiro, prevê o fim do contrato com o Ministério da Saúde para alta complexidade (que demanda tecnologia de ponta e custos elevados). Já o segundo, seria limitar o atendimento a urgências e emergências ao modelo de porta fechada. 


Pedalada do Estado e desfalque da União


Capodicasa explica que a Santa Casa de Santos possui um contrato com o Governo do Estado de São Paulo, chamado Santa Casa Sustentável. Por esse convênio, a unidade deveria receber R$ 1,7 milhão por mês para minimizar o prejuízo da tabela do SUS. No entanto, o Estado costuma realizar "pedaladas" nos pagamentos.


"Em outros anos, já tínhamos problemas de pedaladas. Eles pularem um mês o pagamento. Esse ano, em janeiro, nós não recebemos o repasse. O que dá um impacto grande na instituição. É quase R$ 1,7 milhão por mês. Em janeiro, eles não nos repassaram", fala o diretor, que disse desconhecer a informação, dada pela Secretaria Estadual da Saúde à A Tribuna, de que o pagamento seria realizado até o fim do mês.


"Essa informação que eles disseram que pagariam até o fim do mês, até ontem (segunda-feira, 18) não existia. Nós entramos em contato e não tinha previsão nem da parcela de janeiro e nem de fevereiro. Por isso, nós começamos a ficar preocupados", destaca o diretor.


Augsto Capodicasa também falou sobre o compromisso da União, firmado em 2018, em apliar o repasse de Teto MAC (média a alta complexidade). Através de uma interlocução do então deputado federal Beto Mansur (MDB-SP) com o Ministério da Saúde, a Santa Casa de Santos iria receber R$ 500 mil a mais dos R$ 950 mil pagos atualmente.


"Ficou acordado que esse aumento seria repassado a partir de janeiro. Fomos informados que não há nem previsão de aumento desse teto. Diferente do que a gente lê nos jornais, que outras unidades hospitalares precisam de milhões para manter aberta, nós estamos tendo uma diminuição de repasses. Isso está impactando diretamente", comenta Capodicasa. 


O diretor administrativo e financeiro da unidade também ressalta que o valor repassado a Santa Casa de Santos, em comparação com a transferência de recursos federais aos principais hospitais estruturantes do País, é muito grande.


"A gente atende muito mais, chega a atender R$ 4 milhões por mês, faturamos R$ 4 milhões, mas só recebemos R$ 950 mil. Temos um prejuízo de quase R$ 3 milhões por mês na alta complexidade", analisa Capodicasa, que emenda. "Não estamos recebendo o recurso devido pelo volume de atendimentos da complexidade do atendimento que nós fazemos", finaliza.


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