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Segunda-feira

10 de Agosto de 2020

Evasão escolar se torna ameaça na Baixada Santista devido à pandemia de Covid-19

Especialistas em Educação temem que pandemia do novo coronavírus afaste estudantes das salas de aula e piore cenário já complicado

O aumento da evasão pode ser uma das consequências mais preocupantes da pandemia da covid-19 na Educação. Segundo especialistas do setor, o tempo longe das escolas e os impactos da doença nas famílias são fatores capazes de empurrar os estudantes para fora das salas de aula. 

Além da autonomia que é exigida dos alunos neste momento em que as atividades acontecem de maneira remota, a questão do acesso - como falta de sinal de internet ou de computadores ou celulares - é outro obstáculo.

>> Infográfico explica como afastar o perigo da evasão escolar

Por outro lado, a necessidade de ajudar as famílias que tiveram a renda impactada pela pandemia pode obrigar jovens a largarem os estudos para trabalhar. Isso afeta, principalmente, o Ensino Médio, que já é uma etapa fortemente ameaçada pela evasão. 

“Mesmo em situações normais, todo longo período de suspensão das aulas - seja por greve, acidentes naturais como grandes enchentes - leva a um aumento da evasão. No caso da pandemia, em que a suspensão das atividades já ultrapassa os três meses, a evasão pode aumentar significativamente, devido também a outros vetores”, avalia Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, que atua em ações para melhoria da Educação. 

O primeiro vetor seria por conta da crise econômica. Com a queda brusca das atividades, o desemprego aumentou e, consequentemente, pioraram as condições dos estudantes e de suas famílias.

“Muitos terão que trabalhar para ajudar a complementar a renda de casa, seja devido ao desemprego ou pela situação de adoecimento de parentes. O empobrecimento das famílias tenderá a aumentar a migração de estudantes de escolas privadas para escolas públicas”, diz o especialista. 

Essa é uma situação que começa a ser observada. O número de transferências de alunos da rede particular para a rede estadual de São Paulo, por exemplo, cresceu mais de dez vezes nos meses de abril e maio de 2020, comparado com o mesmo período do ano passado. 

Este ano, escolas do Estado receberam 2.388 estudantes vindos de colégios privados, contra 219 no ano anterior. Na Baixada Santista, as 12 transferências em abril e maio de 2019 passaram para 43 no mesmo período deste ano. 

Já a rede municipal de Mongaguá registrou durante a pandemia um acréscimo de 223 matrículas em escolas municipais – todas de alunos oriundos de colégios particulares. 

Desigualdades

“A complexidade é que pode haver precarização da oferta para dar conta das novas demandas de adaptação das escolas, em função da covid-19, mas com um cenário de diminuição das receitas. Esse movimento gerará um aumento da desigualdade entre escolas privadas e públicas, entre as redes de ensino em estados mais e menos abastados e entre os estudantes de famílias mais e menos vulneráveis”, explica o representante do Instituto Unibanco.

Apesar dos esforços para mitigar os efeitos de suspensão das aulas, o problema estrutural de desigualdade fica ainda mais em evidência, afirma Henriques, ex-secretário executivo do Ministério de Assistência Social, em 2003 e 2004, quando coordenou o desenho do programa Bolsa Família e também atuou como secretário nacional de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão no Ministério da Educação. 

Insegurança e medo são tendência

Neste cenário, mesmo o retorno às atividades presenciais pode representar um problema. A insegurança e medo da volta ao ambiente escolar são uma realidade entre muitas famílias e representam mais pressão na Educação. 

O Governo de São Paulo anunciou que o retorno das aulas no Estado acontecerá a partir do dia 8 de setembro, caso todas as regiões fiquem 28 dias na fase amarela do Plano São Paulo. Porém, a notícia desagradou a muitos pais. 

Acho inadmissível o retorno das aulas, porque se as escolas não tinham um controle total das crianças antes dessa pandemia, não terão agora. Se os pais não tinham um controle de piolhos, como terão um controle de um vírus? Nossas crianças podem pegar o vírus e transmitir a todos”, diz a cabeleireira Aline Gonçalves, 36, de Santos, que garante: não mandará os filhos à escola. “A vida deles vale mais que qualquer coisa”.

Novo normal?

Assim também pensa a microempreendedora Elaine Sabino do Nascimento, 35 anos, moradora de Santos. Segundo ela, mesmo com tudo aparentemente voltando ao normal, não se sente segura. "Impossível crianças de 6 anos seguirem o distanciamento social. Esse ano, meu filho esse ano não volta mais”. 

Garantias

O subsecretário de Articulação da Secretaria de Educação do Estado, Henrique Pimentel Filho, diz ser importante frisar que a Educação está assegurada na Constituição.

“Porém, tem um ponto que estamos estudando: possibilitar ao estudante que acompanhou e teve um bom desempenho durante esse período remoto a possibilidade de continuar assim por mais um tempo”.

Apesar disso, ele acredita que essa preocupação das famílias ainda é prematura e qualquer retorno estará amparado pelas condições de Saúde. Porém, a secretaria alega estar atenta à questão da evasão.

Busca ativa deve ser a prioridade

Para evitar a evasão durante e no pós-pandemia, as redes de ensino estão fortalecendo seus programas de busca ativa. De acordo com o subsecretário de Articulação da Secretaria de Educação de São Paulo, Henrique Pimentel Filho, a rede paulista aposta na busca ativa. Um levantamento aponta que cerca de 37% dos estudantes matriculados não estão acompanhando as atividades remotas.

Pimentel explica que o trabalho das equipes escolares é encontrar esses estudantes e identificar os fatores que os levam a não participação. “Alguns evadem, mas outros têm dificuldade de acesso. Temos que entender o que acontece”.

Municípios

A estratégia também está sendo adotado por prefeituras. Na Baixada Santista, todos os municípios afirmam que essa é uma ação já em operação para identificar os alunos que não estão participando das atividades remotas.

“Nesse período, 34% dos alunos não cumpriram participação mínima das aulas. Para evitar a evasão, as unidades estão chamando os pais, com busca ativa pelo telefone. Àqueles que não atenderem, a Secretaria de Educação aciona o Conselho Tutelar, o Conselho Municipal de Defesa da Criança e do Adolescente e a Secretaria de Assistência Social para, em regime de colaboração, realizarem busca ativa in loco”, explica a Prefeitura de São Vicente, em nota.

O secretário de Educação, Esporte e Lazer de Guarujá, João José de Oliveira Pecchiore, garante que, na rede local, as escolas vêm mantendo contato intenso com as famílias.

Estamos colocando faixas nas comunidades e em breve teremos carro de som. O objetivo é trazer esses alunos para o ensino remoto, de modo que acessem ou retirem o conteúdo impresso”.

No Município, algumas escolas utilizam líderes de comunidade e ex-alunos para levar recados às famílias de jovens ausentes.

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