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Domingo

9 de Agosto de 2020

Estudo põe estuário de Santos e São Vicente em alerta

Dados preliminares apontam concentração de 80 mil partículas de microplástico por grama de sedimentos

Dados preliminares de um estudo comandado pelo Instituto EcoFaxina mostram uma realidade preocupante. Amostras analisadas em laboratório revelam uma concentração de 80 mil partículas por grama de sedimento no estuário de Santos e São Vicente.

Segundo o diretor-presidente do instituto, William Rodriguez Scheips, não existe concentração aceitável de microplástico, o que torna esse volume em apenas um grama “assustador”. “Estamos fazendo coletas desde o ano passado e as análises começaram agora em 2019”, explica.

O estudo é realizado em parceria com pesquisadores da Unesp e da USP e tem previsão de ser concluído no primeiro semestre de 2020. Os resultados preliminares, porém, foram apresentados no mês passado na 2ª Conferência sobre Lixo Marinho e Microplásticos, em Portugal.

Foram coletadas amostras de sedimentos do fundo do estuário em pontos como o canal de São Vicente, Largo da Pompeba, Rio Bugres, Rio Casqueiro, Canal de Piaçaguera, Ilha Barnabé e canal do Porto de Santos.

O que é? 

Para ser considerado micro, esses fragmentos precisam ter até 5 milímetros. Como o plástico demora séculos para se decompor, essas partículas vão se soltando de garrafas pet, copos, canudos que são descartados de forma incorreta, mas também de outros materiais que parecem menos óbvios para a população em geral.

Ao lavar roupas de tecido sintético ou esfoliar a pele com alguns cosméticos, por exemplo, também colabora-se com o aumento do microplástico na natureza.  

A aparência do microplástico, visto a partir de lentes de aumento (Foto: Divulgação/ Instituto Ecofaxina) 

Região 

Apesar disso, Scheips alerta para uma realidade da região que tem muito impacto sobre este cenário, que é a falta de fiscalização em áreas de preservação e o aumento de submoradias nesses locais.  

“Diminuir o microplástico da natureza requer ações em várias frentes. Pensar uma indústria que consiga substituir o plástico por produtos biodegradáveis e recolher o material já existente na natureza são alguns pontos”, diz o diretor-presidente do EcoFaxina.  

Mas, ao contrário de países desenvolvidos, na região, ainda é preciso fazer a lição de casa, garantindo a preservação do manguezal, fiscalizando o descarte irregular de materiais nestas áreas e resolvendo a questão da submoradias.

“Temos cerca de 80 mil pessoas vivendo em palafitas. Sem saneamento e políticas públicas, o esgoto e os resíduos dessas pessoas vão diretamente para o manguezal. Temos que ter projetos para garantir uma moradia digna para essa população e que preserve a natureza”.

Por isso, o trabalho do instituto é também colaborar com políticas públicas que ajudem na recuperação dos manguezais, na limpeza das águas e na discussão de ações mais sustentáveis. Mais um passo, diz Scheips, será dado com a conclusão do estudo. Isso porque, de acordo com ele, faltam dados e pesquisas sobre o assunto.

“Já temos empresas interessadas em discutir parcerias que ajudem na limpeza e preservação dos manguezais, até porque elas têm responsabilidade compartilhada dentro dessa cadeia de consumo. Ações como essas, ao lado de políticas habitacionais, poderiam ajudar muito”.

Consciência

Conforme o Instituto EcoFaxina, o plástico é um material feito para durar. Por isso, não faz sentido jogá-lo fora. Assim, é necessária uma conscientização de cidadãos, empresas e do poder público para que comecem a adotar uma nova postura, com logística adequada de coleta, destinação e beneficiamento que permita às pessoas adquirirem novos hábitos. E, por outro lado, uma fiscalização punitiva para quem descartar resíduos de maneira incorreta.

Impactos

Uma vez no ambiente, os materiais plásticos vão se fragmentando ao se degradarem em decorrência, por exemplo, da exposição ao sol ou da ação da água salgada. Os pedaços ficam tão pequenos que se inserem nas cadeias alimentares dos oceanos, chegando até os seres humanos. Estimativas da ONU sugerem que existem cerca de 51 trilhões de partículas de microplástico dispersos no oceano. O impacto delas na saúde do ser humano ainda não foi bem estudado, mas pesquisadores já descobriram que as partículas mais finas podem atingir tecidos humanos, provocando respostas imune localizadas.

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