Especialistas defendem volta às aulas presenciais o quanto antes

Com regras sanitárias e de distanciamento bem planejadas, consideram possível, e necessário, o retorno

A pandemia da covid-19 recrudesceu e, ainda sem definição sobre a vacina, 2021 começará repleto de dúvidas. A Educação, porém, trabalha com uma certeza: o tempo que os estudantes ficaram longe das salas de aula provocou grandes prejuízos. Assim, alguns especialistas defendem a retomada das aulas presenciais o quanto antes. Segundo eles, diante da flexibilização de atividades, as escolas devem ser as primeiras a abrir e, se houver necessidade de fechamentos, que sejam as últimas. 

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“Precisamos estar atentos à circulação do vírus, às taxas de internação e à possibilidade de aumentar cada vez mais a testagem da população. Mas também entender que a escola deve ser o último lugar a ser fechado”, avalia Teresa Schoen, psicóloga, pedagoga e que atua no Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente do Departamento de Pediatria da Unifesp. 

Teresa coordenou um estudo que reuniu e analisou os protocolos adotados e os impactos no retorno às aulas presenciais em diversas localidades do mundo. Ela explica que o principal ponto observado foi como o vírus se comportou no ambiente escolar. 

“A circulação do vírus não se mostrou uma grande ameaça, desde que adotados rígidos protocolos de higiene. Percebeu-se que a transmissão de criança para criança e criança para adulto foi pequena. O maior problema foi a transmissão entre adultos”, revela.

Cenário diferente 

O estudo coordenado pela psicóloga reuniu dados até julho. Agora, a situação já não é a mesma. Inclusive, com o aparecimento de uma nova variante do coronavírus que, a princípio, parece transmitir a doença de forma mais acelerada. 

“É claro que agora estamos vivendo um momento diferente, inclusive com uma cepa nova do vírus. Isso tudo tem que ser analisado e levado em conta, mas os governos precisam ter um plano de retomada presencial para ser colocado em prática”, avalia Teresa. 

Segundo ela, isso é necessário porque os casos de depressão e ansiedade entre os jovens aumentaram muito neste período. Assim como situações de violência física e emocional que acontecem dentro das casas. 

“Dos adolescentes que atendo no programa da Unifesp, 13% moram em casas em que dividem cama com outra pessoa da família. Veja, não é o quarto, é cama. São diversas realidades, até mesmo de violência. Fora o próprio prejuízo para a aprendizagem”. 

Também há uma preocupação especifica com as crianças no período de alfabetização que, conforme Teresa, precisam da presença e proximidade do professor para aprender. “E, de uma forma geral, o desenvolvimento de habilidades sociais, que é importante para a aprendizagem de conteúdo, só acontece de forma completa com o convívio presencial”. 

Para Maria Helena Guimarães de Castro, socióloga, professora e presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), o retorno às aulas presenciais é essencial para a saúde física, mental e emocional das crianças. 

“Acredito que é importante o retorno dos alunos respeitando protocolos sanitários, máscara, distanciamento, salas de aula com menos alunos alternando com ensino remoto. Além de todo cuidado também com a saúde de todos que trabalham nas escolas”, considera. 

Maria Helena avalia que será difícil e demorada a recuperação depois de quase um ano com escolas fechadas. Fora que a própria transição será muito desafiadora para os professores e estudantes. 
“Será preciso um grande esforço das escolas e das famílias. A maioria dos alunos só estará plenamente recuperada (pedagogicamente) no final de 2022. É preciso muito cuidado, foco e atenção redobrada a todos os alunos”.

Secretário: nada substitui a interação presencial

“Nós estamos sofrendo um massacre educacional”, resumiu o secretário de Educação, Rossieli Soares, em entrevista à TV Tribuna. Segundo ele, foi feito um grande esforço para minimizar os impactos provocados pela pandemia. Todo o uso de tecnologia tem ajudado, mas nada substitui o processo que acontece, presencialmente, na escola. 

“Hoje (a escola) é um ambiente seguro. As crianças não são os maiores transmissores (do novo coronavírus), pelo contrário. Muitos estudos no mundo apontam que elas podem ser uma barreira biológica. Ou seja, se elas pegam, elas não passam o vírus. E terceiro, está na hora de priorizar a Educação. Por que vamos ter bares abertos e escolas fechadas?”, questionou o secretário. 

Rossieli vem em uma batalha em defesa à volta às salas de aula, ainda que em fases. Tanto que o Governo do Estado já anunciou que manterá o retorno gradual às aulas presenciais para o ano letivo de 2021, mesmo em fases mais restritivas do Plano São Paulo. 

Plano 

Se uma área estiver nas fases vermelha ou laranja do Plano São Paulo, as escolas da educação básica, que atendem alunos da Educação Infantil até o Ensino Médio, poderão receber diariamente até 35% dos alunos matriculados e o restante assiste aula remotamente. 

Na fase amarela, elas ficam autorizadas a atender até 70% dos estudantes; e na fase verde, até 100%. Os protocolos sanitários devem ser cumpridos em todas as fases. 

Já as instituições de Ensino Superior poderão funcionar na fase amarela com até 35% das matrículas, e na fase verde, com até 70%. Nas etapas vermelha e laranja, elas não estão autorizadas a funcionar. Cursos superiores específicos da área médica têm o retorno presencial autorizado em todas as fases do Plano.

Profissionais da Educação temem pela saúde

Sindicatos que representam profissionais da Educação afirmam estar preocupados com a situação dos alunos, mas temem pela saúde da comunidade escolar diante do retorno presencial. 

Agora em janeiro, por exemplo, os estudantes da rede estadual que não realizaram as atividades mínimas para 2020 poderão participar do projeto de Recuperação Intensiva, que ocorrerá nas escolas da rede regular entre os dias 4 e 22. 

Segundo o Estado, serão priorizados para atendimento presencial os estudantes com menor frequência dos 5ºs e 9ºs anos do Ensino Fundamental e das 3ªs séries do Médio. 

“Na contramão de todos os alertas da comunidade científica e desafiando o bom senso, o secretário estadual da Educação volta a obrigar os professores, estudantes e funcionários a comparecer às unidades escolares em pleno recrudescimento da pandemia”, diz a Apeoesp, sindicato que representa professores da rede estadual.

Preocupação

A entidade afirma que isso acontece justamente quando autoridades de diferentes esferas cancelam atividades que possam gerar aglomerações e especialistas demonstram preocupação com a alta de casos em janeiro em função das festas. 

“Obviamente, também nos preocupamos e temos compromisso com a aprendizagem de nossos estudantes. Vivemos, porém, uma situação excepcional”. 

A Apeoesp se mostra ainda preocupada com o retorno em fevereiro sem uma imunização. Por isso, preparou um documento pedindo que os professores sejam vacinados logo na primeira fase da campanha.

Sem retorno

Em Santos, o diretor do Sindserv, Cassio Canhoto, afirma que a categoria defende que não haja o retorno presencial sem a vacinação. 

“O que deve ser feito pelos governos é a qualificação do ensino remoto com melhoria das condições de trabalho a todos os profissionais e a busca ativa dos estudantes que estão afastados desse ensino remoto”.

De forma gradual

Na Baixada Santista, a maioria das cidades já definiu ou está ajustando protocolos que preveem o início das aulas presenciais de forma gradual, utilizando o sistema híbrido de ensino. Em Guarujá, Cubatão, Santos e Bertioga, por exemplo, a expectativa é que isso aconteça a partir de fevereiro de 2021. “A retomada é necessária e estamos trabalhando por uma volta integralmente segura. Iniciaremos com um revezamento, amparado no Plano São Paulo. Quem não estiver na escola naquele dia, vai estudar on-line”, explica o secretário de Educação, Esporte e Lazer de Guarujá, José Roberto Galvão.

Em Santos, a previsão também é de retorno em fevereiro, com ensino híbrido, de acordo com as orientações do Estado. A Seduc informa que para isso já foram distribuídos para as escolas diversos itens de proteção individual e material de higienização. 

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