Djamila Ribeiro é uma das vozes mais influentes do pensamento contemporâneo brasileiro, destacando-se como filósofa, escritora e ativista antirracista. Nascida em Santos, de onde saiu em 2016, é formada em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e se tornou referência nos debates sobre feminismo negro, justiça social e equidade racial no Brasil. Seu trabalho se destaca por traduzir questões complexas da filosofia e das ciências sociais para o público amplo, tornando acessível o pensamento crítico sobre racismo estrutural e desigualdades históricas. Autora dos livros Lugar de Fala, Cartas para Minha Avó, Quem Tem Medo do Feminismo Negro? e Pequeno Manual Antirracista, Djamila propõe reflexões sobre como as estruturas de poder moldam a sociedade brasileira. Ontem, esteve em Santos a convite da secretária da Mulher, Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos, Nina Barbosa, e visitou a Casa da Mulher, espaço inaugurado pela Prefeitura de Santos em dezembro para acolher mulheres com atendimento psicológico, social e jurídico, especialmente as que são vítimas de violência. Confira os principais trechos da entrevista. Você é a primeira brasileira a ser convidada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) para lecionar no programa que homenageia o ativista Martin Luther King Jr. Qual será o foco da sua participação nesse que é um dos institutos de maior excelência acadêmica do mundo? Fiquei muito feliz por ser indicada para um programa que homenageia Martin Luther King e quero levar o nosso conhecimento enquanto brasileiros. Por conta do nosso idioma, acabamos ficando de fora de alguns debates, mas temos aqui uma produção intelectual riquíssima, de muitos intelectuais, de muitos pensadores brasileiros, e somos o único país na América que fala a língua portuguesa, então muitas pessoas não conhecem a nossa produção. Vou chegar ao MIT com a convicção de que preciso levar nosso conhecimento para a academia estadunidense, e levar isso com muita autoestima para um lugar de troca. Nossa produção é riquíssima e o mundo precisa conhecer. Você diria que o Brasil também poderia ou deveria criar espaços dentro da universidade em que pessoas com saberes distintos pudessem ter esse lugar de troca, independentemente de terem ou não terem toda sua trajetória acadêmica? É um recado interessante que o MIT proporciona. O programa Martin Luther King preza pela excelência acadêmica, sim, mas também pelo trabalho transformador que a pessoa faz, o que tem promovido de mudança na sociedade. Esse olhar é fundamental e no meu trabalho eu sempre trago essa fala: a área acadêmica é importante, claro, mas a prática social também, o que estamos fazendo para contribuir com a sociedade. Eu procuro escrever meus livros de forma didática justamente porque entendo que as pessoas precisam fazer parte dessa conversa, e não ficarem numa bolha. Era muito mais fácil eu ficar numa bolha acadêmica escrevendo ‘filosofês’. Quebrar isso não é fácil. Nada fácil. Na academia, no Brasil, há muitas críticas sobre isso, e quando as pessoas dizem que eu escrevo fácil, para todos entenderem, para mim é um grande elogio. Ficar em um cercadinho para mim não fazia sentido. Eu precisava incluir no debate o público sobre o qual escrevo e pesquiso. O programa de cotas aqui no Brasil já completou 20 anos e com números positivos de inclusão da população negra nas universidades. Que leitura você faz desse cenário? As cotas têm sido muito importantes, e os alunos cotistas tiveram médias acima ou iguais aos não cotistas. Então, o receio que havia sobre a inclusão das cotas colocar em risco a qualidade do ensino não se sustentou. Elas ainda são muito necessárias. Para além de servirem enquanto a educação básica não é de excelência para todos, as cotas também são uma política de reparação. Durante quase quatro séculos os negros foram escravizados. É uma forma de reparação necessária. Eu fiz parte da política de expansão do ensino público, não como cotista, mas como aluna de uma universidade que se expandiu, a Unifesp, para quebrar os ciclos de exclusão. Eu sou a primeira pessoa da minha família a ter acesso à universidade pública, venho de uma geração de mulheres trabalhadoras domésticas. O que separa a gente não é a capacidade, mas a oportunidade. Se não fosse isso, não sei onde estaria hoje. Você considera que a imprensa tem contribuído para esse debate sobre inclusão do negro? Eu acho que, às vezes, o debate fica muito mais centrado nas perspectivas negativas, não mostrando o impacto positivo de algumas políticas na vida das pessoas. Só existem a crítica e a afirmação de que o Brasil não dá certo. O próprio brasileiro acaba não valorizando o que temos de bom, de bonito, de diverso. E quando falamos de negritude, estamos falando de uma diversidade imensa, do Norte ao Sul, do Nordeste ao Sudeste. Às vezes, estamos mais preocupados em olhar para fora do que olhar para as coisas incríveis que temos aqui. Temos muita gente boa, fazendo coisas incríveis na base, e a gente não ‘visibiliza’ essas pessoas e esses trabalhos. Não existe só uma narrativa e se esquece que há uma narrativa muito mais plural que acaba não ganhando espaço. O jornalismo poderia contribuir muito com isso.