(Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) O olhar do Polo Industrial de Cubatão para a energia limpa, os investimentos e a união necessária para que isso seja concretizado compuseram os temas centrais desta entrevista com o diretor titular do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo-Cubatão (Ciesp), Américo Ferreira Neto. Como o Polo Industrial de Cubatão tem atuado no que envolve a energia limpa e investimentos nessa área? Em todo e qualquer investimento que a gente aprova hoje, a primeira questão que surge é o quanto ele carrega de selo verde, o quanto está alinhado à descarboni-zação ou a contribuição ao assunto. Na siderurgia, é imediato isso porque redução em alto-forno usa carbono, carvão, coque e o link é imediato. Com os fertilizantes é a mesma coisa, como é o caso da Yara, com a planta de amônia renovável para um fertilizante que tem uma pegada de carbono baixíssima. Ou seja, no Polo, é um tema que está sendo implementado. É um compromisso claro com o tema da sustentabilidade, dentro de um processo em que eles pretendem, ao longo do tempo, expandir, até pela necessidade do uso de energia. A Yara tem discutido e trazido a Usiminas a bordo dessa discussão para que a gente parta não só para a amônia renovável ou amônia verde, mas também para o hidrogênio verde. Por que o hidrogênio verde? É um combustível que estaria muito mais alinhado à descarbonização ou seria, vamos dizer, uma versão final para isso do que é o gás natural, que é o combustível da transição. Hoje, o recurso disponível ao Polo de Cubatão é o gás natural. Só que ele não é viável economicamente. Para se ter uma ideia, em um país de primeiro mundo, o milhão de BTU do gás natural custa de US\$ 3 a US\$ 5. No Brasil, custa de US\$ 13 a US\$ 16, uma diferença quase cinco vezes maior. Inclusive, recentemente passou pela planta de Cubatão uma tubulação de regaseificação. Ele vem liquefeito, vai ser regaseificado e é colocado dentro desse anel, ligando vários produtores de gás natural dentro dessa tubulação que atende o Polo de Cubatão. É mais volume, mais recurso disponível para o combustível da transição. Ou seja, o Polo tem dado passos importantes pela transição energética com o uso do gás natural. O próximo passo seria a gente ter um hub de energia limpa, com a produção do hidrogênio verde, alternativa que, inclusive, o Governo do Estado tem insistido muito com a Prefeitura de Cubatão no sentido de disponibilizarmos espaço para que esse projeto se viabilize e a gente, pelo lado da oferta, pudesse oferecer isso para Cubatão. Aí serão necessárias adequações que requerem investimento. Como seria? No caso da siderurgia, a gente tem forno de enriquecimento de placa que usa gás natural. Posso usar hidrogênio, mas tem que ser feita uma adequação desse forno que, hoje, trabalha com o diâmetro de tubulação com uma vazão, com uma pressão de gás e um poder calorífico que vai ser alterado de gás natural para hidrogênio. Esse investimento não é ciência espacial e tem aplicação no mundo. Só que eu preciso estar disponível a ter o dinheiro para fazer o investimento. O lado da oferta me disponibiliza o hidrogênio e, pelo lado da demanda, eu vou consumir esse hidrogênio. E quantos mais consigo colocar nisso? Aí é onde entra a estratégia como polo industrial. Tenho que ter um hub de energia. Existe a possibilidade pelo lado da oferta. Agora tenho que olhar o lado da demanda. Quantos são os players dentro do Polo de Cubatão que podem utilizar o hidrogênio em vez do gás natural? Aí você começa a ter uma discussão técnica, o que fez recentemente o Polo de Cubatão. Talvez a intensidade é que não esteja de acordo com as pretensões internacionais, mas o sentido está correto para que possamos chegar nesse hub de energia limpa que é, vamos dizer assim, o selo que condicionaria o Polo de Cubatão a reforçar a indústria de base e dar oportunidade às indústrias de transformação com seus produtos de selo verde. E o que falta para haver mais intensidade nesse processo? É o viés político que a gente tem que conseguir consolidar em Cubatão, por intermédio do Estado de São Paulo, com incentivos ou benefícios. O que a China faz com o Brasil e o mundo no negócio do aço, a Rússia faz com o fertilizante. Hoje, o Brasil perderia 40% dessa capacidade de produção do agro se não tivesse fertilizante vindo da Rússia. A Yara está dando um exemplo de que podemos produzir fertilizante no Brasil, inclusive com o selo verde. Por que não expandir? Porque vamos ter que gerar consumo. E como ele funciona? Bem, se o russo está subsidiando essa produção e ele consegue colocar o fertilizante no Polo de Cubatão a custo e preço mais acessíveis do que eu gasto para produzir no Brasil, ele vai colocar. Se eu não faço uma transição que depende de investimento e eu tenho que ter o viés do incentivo para poder competir com esse russo que vai entrar, eu vou morrer: vou investir e não vou produzir. Então você defende o subsídio? Não. Eu quero isonomia, quero poder competir. Estamos muito no viés de colocar processo de dumping (prática comercial desleal que consiste em vender produtos abaixo do preço de custo para eliminar a concorrência) ou antidumping com a China, com a Rússia. Queremos fechar o mundo para não entrar no Brasil. Calma lá: o agronegócio é o carro-chefe no Brasil hoje e o agro é indústria. Se pretendemos continuar abastecendo o planeta com grãos, vamos ter que aceitar que o produto deles vai entrar aqui também. Se eu coloco sanção contra o chinês pelo aço ou contra o russo pelo fertilizante, eu mato o meu negócio do agro. Não é isso que queremos. Se o Polo de Cubatão emplaca um hub de energia limpa e que pode ter o hidrogênio como base, pelo lado da oferta e da demanda a gente vai ligar indústria de base e de transformação que podem vir. Tem muita área em Cubatão hoje com dono, mas que é subutilizada. E para essas áreas serem utilizadas, precisam dos investimentos. Você não vai ligar um equipamento de 30, 40 anos atrás e colocar hidrogênio. Não é como a tomada de energia, que eu tiro o aparelho e coloco no mesmo plugue. Em 2023, investidores alemães, trazidos pelo Governo do Estado, vieram a Cubatão tratar de investimentos ligados ao hidrogênio verde. Como ficou essa situação? O Governo de São Paulo também se movimentou para fora, buscando vender o Estado e os polos industriais que possui, incluindo Cubatão. Em algumas dessas incursões, eles receberam uma proposta de uma empresa alemã que estava interessada em produzir o hidrogênio verde. E Cubatão é uma cidade de recuperação ambiental, tem o Porto de Santos, tem rodovia, tem ferrovia, está a 70 quilômetros da Capital do Estado, com os principais aeroportos. Isso atraiu o investidor alemão, mas fica travado porque não tem o lado da demanda. De novo: para que você consiga ofertar o hidrogênio verde, você tem que ter alguém do outro lado que consuma. Precisa de um plano. Tem que ser tudo ao mesmo tempo... Exatamente. Não tem como olhar só pelo lado da oferta e pelo da demanda. Tem que haver algo conjunto. Esse trabalho estruturado é que vai definir o tamanho do investimento e o recurso necessário para isso, o quanto o Governo do Estado ou Federal terá que apoiar, obviamente dependendo do tamanho desse negócio para que se viabilize até em outras regiões. Estamos falando do Polo de Cubatão, mas não podemos esquecer da Baixada Santista. Temos Santos, São Vicente, Praia Grande... Guarujá e Bertioga têm empresas. Como levar esses recursos até eles? Como promover a transformação da indústria de base a partir desses players? Tem que ter um planejamento integrado. Isso não se viabilizou pela falta da demanda. Ou seja, eu preciso informar a todos os envolvidos que posso ter o hidrogênio e cada uma dessas empresas diga qual é a demanda delas. Aí, creio, que estamos mais próximos de definirmos essa oferta.