Esposa relata invisibilidade e solidão ao apoiar marido em cuidados paliativos na Baixada Santista

Sem experiência, ela precisou aprender a lidar com as dificuldades e se privar de muita coisa para se dedicar ao marido

Por: Ravena Soares  -  25/11/23  -  07:04
Fabrício dos Santos Silva antes e depois da cirurgia
Fabrício dos Santos Silva antes e depois da cirurgia   Foto: Arquivo pessoal

“Tinha dias que eu chorava e achava que ia morrer “, esse é o relato de Adriana Cristina Freitas Silva, de 48 anos, que há pouco mais de seis anos acompanha a luta do marido, Fabrício dos Santos Silva, de 46 anos, com o câncer.


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Fabrício é um paciente paliativo, após um câncer maligno na glândula salivar em estágio avançado e metástase, com três tumores nos pulmões. Adriana, que hoje se dedica totalmente aos cuidados do marido, relata a solidão e a invisibilidade dos cuidadores. “Tinha dias que eu chorava e achava que eu ia morrer (...) o cuidador é muito importante, mas ninguém fala dele”.


Lidar com tudo e aceitar o processo, sem dúvidas foi extremamente difícil para Adriana. Hoje, sua maior dificuldade é passar por tudo isso e administrar todas as emoções, como mulher, mãe e esposa.


À Reportagem, ela detalhou o início do tratamento do marido, e que não tinha nenhuma experiência, por isso, precisou aprender ‘o básico’, como dar banho e fazer curativos, com uma enfermeira, amiga da família. “A minha história é de uma cuidadora. Eu não sou apenas a esposa. Eu sou a cuidadora dele. Eu sou alguém que precisa estar bem para cuidar dele”, explica.


Adriana conta que já foi menosprezada por seguir suas vontades como mulher e ser humano. Há quem acredite que alguém que tenha uma pessoa que amou em uma situação de vulnerabilidade, não possa dar atenção a si mesma. “Eu já ouvi dizerem ‘mas tá comprando para ele, né?’. Então quer dizer que eu não posso comer? Que eu não posso vestir? Dizem que a ajuda é só para ele, mas se eu não estiver alimentada, não consigo ajudá-lo (...) não consigo ir a uma consulta ouvir o que o médico está dizendo”.


Ela destaca que precisa estar bem para cuidar de Fabrício. ”Porque se eu não estiver bem, eu vou trocar a dieta do lado dele de mau humor, ele vai achar que eu estou de saco cheio de cuidar dele e isso vai piorar, vai dar uma depressão”.


E para ela, estar bem é ter uma conta paga, alguém para auxiliá-la e o tanque de amor sempre abastecido, essas e outras coisas tornam a jornada invisível ‘mais fácil’. “O que é um doente sem ter alguém que cuide?”


Adriana Cristina Freitas Silva e Fabrício dos Santos Silva posam para foto durante um momento em família
Adriana Cristina Freitas Silva e Fabrício dos Santos Silva posam para foto durante um momento em família   Foto: Arquivo pessoal

Casamento

A história de Adriana com Fabrício começou quando ela passou a frequentar a igreja onde o pai dele era pastor, no bairro Bolsão 8, em Cubatão, há mais de 24 anos.


Após se conhecerem, Adriana, que já era mãe de Mariana, engravidou do Fabrício, do seu segundo filho, Gabriel. Posteriormente, em janeiro de 1999, eles casaram. Seis anos depois, eles tiveram a Ester, a filha caçula.


O primeiro sintoma de que havia algo errado com o Fabrício foi em setembro de 2016. “A língua dele dobrou e dali para frente ele foi procurar o motivo do porquê de sua língua ter dobrado”,


Histórico

Na hora do almoço, no hábito de escovar os dentes, Fabrício percebeu que a língua estava dobrada. Levaram ele para o hospital com a suspeita de que ele teria tido um Acidente Vascular Cerebral (AVC), mas a tomografia não acusou nada.


“A língua dele dobrou e dali para frente ele foi procurar o motivo do porquê de sua língua ter dobrado. Depois de um ano, ele começou a ter dores e ter dificuldade para engolir. Ele estava no trabalho, engoliu a própria saliva e doeu”, lembra.


Ele foi em diversos médicos na Baixada Santista e na capital em busca de informações. Neste tempo, a língua dele foi murchando, a fala ficou embolada e ele parou de engolir. “Só comia coisas pastosas, líquidas e ovos”.


Até que um médico renomado em Cubatão, encaminhou ele para um outro médico, onde foi descoberto o câncer. “Nós chegamos em casa e contamos para os meninos, mas ainda era muito surreal o diagnóstico para nós. Ficamos com medo, mas ninguém tinha noção… A ficha foi cair depois”.


Os médicos disseram que ele tinha a opção de operar ou não, pois se não operasse, teria pouco tempo de vida. E ele aceitou essa opção e, apesar do procedimento de 18 horas ter preservado sua vida, Fabrício perdeu a língua, piso da boca, garganta, cordas vocais. “Ele perdeu tudo (...) foi muito difícil porque ele veio com muitos cortes. A coxa dele foi usada como enxerto para a boca”.


Uma enfermeira amiga da família, ensinou Adriana e o filho do meio, a cuidarem do homem recém-operado, que precisou passar a se alimentar via sonda. “No início, a gente tinha medo de comer na frente dele. Quando ele levantava e nos via, saíamos correndo com o prato na mão. Hoje, nós nos acostumamos com essa realidade, mas foi muito difícil”.


E depois de tantos anos lutando contra o câncer, hoje Fabrício construiu sua independência. “Ele se alimenta sozinho, coloca sua sonda, lava. Ele toma banho sozinho, mas ainda não tem muita força”.


Por isso, Adriana sempre está de olho e o ajudando a construir sua independência. “A psicóloga acha melhor que ele faça as coisas sozinho, para ter uma autonomia. Afinal, ele decidiu operar para ficar vivo”, explica.


Ele não irá mais operar ou enfrentar uma radioterapia, como em outras vezes. “Os médicos tem certeza que ele não irá aguentar passar por tudo isso de novo”, conta Adriana.


A mulher cristã ressalta que sua fé sempre foi essencial e tem sido sua base sólida para tudo. “A alegria do Senhor é a minha força. Eu fui uma ‘crente’ de fé, mas pé no chão. Eu fui uma ‘crente’, mas eu sabia que a qualquer momento, a roda da vida iria girar ", conta.


Ela diz que foi instruída a saber ter fé em momentos bons e ruins. “Eu tenho certeza, que durante todos esses anos, na maioria deles passando dificuldades ao lado do Fabrício, Deus me forjou”.


Adriana também conta sobre a culpa que teve ao ver os filhos passando por essa situação, mas que com diálogo compreendeu muitas coisas. “Deus decidiu (...) e eu me preparei para os dias maus. Eu só tô de pé por causa de Jesus”


Após a história de Fabrício e Adriana repercutir na internet, a família recebeu diversas doações, para os ajudar. Hoje, sem carro, pois precisou vender para custear o tratamento, seu maior medo é não ter um veículo para socorrer o marido em uma emergência.


Entretanto, a mulher segue crendo e trabalhando no trabalho invisível, ao lado de quem jurou em um altar permanecer ‘na saúde e na doença’.


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