Gabriel mostra como está sendo sua experiência na Antártica (Arquivo pessoal) Viver sob sol ininterrupto, enfrentar ventos que fazem a sensação térmica despencar para -60°C e depender de neve derretida até para cozinhar. Essa é a rotina do engenheiro ambiental Gabriel Estevam Domingos, que mora em São Paulo e se especializou na Baixada Santista, que integra uma expedição brasileira inédita no interior da Antártica. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A equipe está em uma das áreas mais isoladas do continente gelado para coletar dados essenciais sobre clima, radiação e presença de microplásticos, trabalho que pode ajudar a entender fenômenos que afetam diretamente o Brasil. O engenheiro ambiental Gabriel Estevam Domingos, de 38 anos, nascido em São Paulo e referência em inovação ambiental no País, participa da missão Criosfera 1 – 2025/26, a primeira expedição brasileira carbono neutro no continente gelado. O conceito significa que todas as emissões de gases de efeito estufa geradas pela logística da operação são compensadas ou removidas da atmosfera por meio de ações ambientais. A expedição começou em 6 de novembro e deve seguir até 23 de dezembro. Para chegar ao laboratório remoto Criosfera 1, instalado a cerca de 2.500 km do litoral, no “coração” da Antártica, foi necessária uma operação complexa envolvendo apoio da Marinha do Brasil e quatro voos, incluindo um avião com esquis para pouso no gelo. O último trecho foi o mais crítico. “Tivemos oito tentativas de pouso. Na oitava, se não desse certo, teríamos que voltar por falta de combustível. É tenso: pouso no gelo, no frio extremo. Nunca tinha vivido algo parecido”, afirma Gabriel. Segundo o engenheiro de Cubatão, avançar da costa até o local onde está o laboratório equivale, em distância, a viajar do Pará a São Paulo dentro da Antártica. Viver a -40°C: 'Tudo aqui congela' Com o companheiro de trabalho, Gabriel mostra como é dentro da cápsula na Antártica (Arquivo pessoal) Mesmo sendo verão no continente, único período em que é possível acessar a região, o ambiente da Antártica é extremo. “Hoje, estamos com -18°C e sensação de -40°C. Tudo aqui congela: óleo, azeite, molho, comida, água. Até o lenço umedecido congela. Para usar, a gente coloca dentro do macacão para aquecer com o calor do corpo”. A higiene também é limitada. “Não dá para tomar banho. Usamos álcool em gel e lenço umedecido. É tudo muito difícil: cozinhar, ir ao banheiro, manter o corpo aquecido”. Os pesquisadores sobrevivem à base de alimentos industrializados, enlatados, massas e sopas preparadas com neve derretida, que precisa ser mantida aquecida para não solidificar novamente. Buraco da camada de ozônio Além do frio extremo, outro desafio enfrentado pela equipe é a exposição solar. Segundo Gabriel, a base onde trabalham fica exatamente sob a região onde se concentra o buraco da camada de ozônio, o que exige cuidados redobrados com a radiação. “A intensidade dos raios UV é muito alta. Precisamos usar máscara, filtro solar o tempo todo e hidratar a pele constantemente, porque a umidade do ar aqui é mais baixa do que no deserto do Saara”, explica. O pesquisador descreve o ambiente como “quase marciano”, reunindo frio intenso e ar extremamente seco. Apesar das condições adversas, os dados coletados pela missão revelam uma notícia animadora: os instrumentos já indicam sinais de recuperação da camada de ozônio, que, segundo ele, “está finalmente começando a se fechar”. Importância da missão para a Ciência e para o Brasil O time é formado também por Heitor Evangelista, geofísico da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador do Criosfera 1, e Heber Passos, técnico sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A exposição constante à luz solar é outro desafio. Gabriel, que tem insônia, relata dificuldade para dormir. “Uso máscara de dormir e melatonina. Nosso corpo não entende que é noite”. Os três integrantes da missão participam de um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que monitora o sono em condições extremas com relógios especiais desenvolvidos exclusivamente para suportar temperaturas abaixo de -50 °C. A equipe instala e opera diversos instrumentos, muitos enviados por universidades brasileiras que não conseguem chegar à região. Entre eles: medidor de radiação solar enviado pela Nasa, equipamentos para monitoramento de microplásticos vindos das regiões costeiras do Brasil, sensores de ozônio, sistemas para análise de aerossóis, queimadas da Amazônia e carbono negro, além da primeira operação confirmada da Starlink naquela latitude, que permite comunicação global. “Estamos gerando dados preciosos: de clima, ozônio, partículas, radiação, microplásticos. Tudo isso ajuda o Brasil e a comunidade científica internacional”. A presença brasileira, destaca Gabriel, também é geopolítica. “A Antártica não tem dono, mas tem interesses. Há bases da Rússia, dos EUA, da China. O Brasil precisa marcar presença para defender seus interesses e contribuir para a preservação”. Brasileiros enfrentam sensação de -60°C e ficam dentro de uma cápsula na Antártica (Arquivo pessoal) Gabriel tem trajetória marcada por inovação. Criou o primeiro aplicativo de neutralização de carbono do Brasil, participou da restauração florestal pós-tragédia em São Sebastião usando drones e biocápsulas e fundou uma startup ambiental nascida em Cubatão. “Cubatão é minha origem. A Baixada sempre fez parte da minha história. A Tribuna me acompanha desde a época em que me chamavam de ‘jovem cientista’, já até brinquei que preciso aposentar esse título aos 38 anos”, conta. Ele destaca que os dados coletados ajudarão também a compreender impactos diretos para regiões costeiras como Santos, especialmente no monitoramento do aumento do nível do mar. Momentos mais tensos Entre os desafios já enfrentados, Gabriel enumera: o pouso após oito tentativas, sensação térmica de -60 °C, insônia causada pelo sol constante, alimentação congelando, e a logística desgastante de montar barracas, cozinhar e realizar higiene em temperaturas extremas. O que vem pela frente? Após o retorno, os dados coletados serão analisados e enviados para instituições brasileiras e internacionais. Gabriel já pensa no futuro: “Quero desenvolver um novo habitat para missões futuras, para que pesquisadores não precisem mais dormir em barracas. Um módulo com banho, aquecimento e estrutura adequada”. A ideia é criar o Criosfera Habitat, um contêiner-base que ofereça mais segurança e conforto às equipes, algo inédito no Brasil. Um marco na carreira Apesar de já ter acumulado mais de 60 prêmios, patentes e presença em projetos nacionais, Gabriel afirma que essa missão será um divisor de águas. “Poucas dezenas de brasileiros chegaram tão fundo na Antártica. Estar aqui é um marco na minha carreira e uma contribuição para o País”.