Covid-19: Infectologista de Santos considera 'irresponsável' não endurecer restrições

Membros do Ministério da Saúde acreditam que medidas mais incisivas dependem de uma alta consistente do nº de mortes. O médico Evaldo Stanislau discorda e alerta para a necessidade de reforçar as testagens

O Ministério da Saúde não entende que seja hora de endurecer as restrições contra a Covid-19, apesar do aumento de casos e internações pela doença no País. Membros da pasta acreditam que medidas mais incisivas dependem de uma alta consistente do número de mortes. O médico infectologista Evaldo Stanislau considera “irresponsável” a postura do governo, principalmente em não reforçar as testagens. 

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A Baixada Santista tem seguido essa tendência, de acordo com o médico. “A demanda cresceu e, realmente, a coisa está se alastrando”. A opinião, segundo ele, se trata de uma “percepção” profissional, mas defende mais testes e resultados rápidos para mapear e controlar o avanço da doença. “Precisamos de números mais robustos para documentar”.

A ressalva do médico é pleito semelhante ao de secretários de estados e municípios, que aumentaram a pressão para que o ministério ajude a controlar a pandemia no País. Os gestores também reivindicam garantias de que o custeio de leitos exclusivos para tratar pacientes da doença será renovado – tem validade até 31 de dezembro. Para 2021, não há uma previsão de dinheiro extra. 
Represamento de dados

O comando do ministério diz acompanhar as curvas de casos e mortes. Nesta semana, o aumento de casos foi justificado como um represamento de dados. De acordo com a pasta, algumas notificações levaram dias para entrar no cálculo da doença, pois a rede da Saúde ficou fora do ar após ataque cibernético.

O ministério adotou postura reticente na pandemia. O discurso do Governo Bolsonaro é que não cabe à pasta impor medidas para restringir a circulação de pessoas, como o fechamento de comércios e escolas, mas, sim, aos estados e municípios. 

Stanislau aponta que o governo adota uma “postura negacionista”. Segundo ele, isso é “extremamente preocupante e irresponsável”. “(A testagem) nunca deveria ter deixado de existir”. 

Ele dá um exemplo: “A China, que foi o epicentro da covid-19, hoje tem uma doença controlada. Eles são implacáveis, testam muito. Se aparece um caso, todos os contatantes são rapidamente testados, mobilizados e isolados”. 

O ministério, porém, abandonou metas essenciais para o controle da pandemia, como realizar 24,2 milhões de testes PCR (do cotonete, considerado o mais eficiente) no SUS até dezembro. A rede pública fez até agora só 4,8 milhões desses exames, ou seja, cerca de 20% do previsto.

*com informações do Estadão Conteúdo

Entrevista

Os números da covid-19 voltaram a subir, mas, apesar disso, membros do Ministério da Saúde avaliam que não é hora de endurecer as restrições. Como o senhor observa essa postura? 

Irresponsável, no mínimo. Ninguém está falando em tomar nenhuma medida absurda. Estamos falando em seguir a única medida que é comprovadamente eficaz: a testagem. Temos que testar mais, e ter esse resultado o mais rápido possível. Só assim vamos conseguir dimensionar o tamanho do impacto desse aumento e conseguir fazer o isolamento. Um dado que chama muito a atenção é que o percentual de positividade dos testes tem aumentado nas últimas semanas. Isso significa que tem mais vírus circulando. Se negar a testar é um autoengano. Se essa tendência de elevação se consolidar, a única opção que temos é restringir atividades não essenciais. Tem que ter uma campanha maciça e continuada do uso de máscara e do distanciamento seguro. 

O senhor observa esse aumento no dia a dia nos hospitais e em conversas com colegas. É significativo?

Ontem, um feriado, fui ao consultório para atender covid-19. Meu telefone não para e a demanda de casos é enorme. O que parece ter mudado um pouco é o perfil dos pacientes. Temos visto alguns mais ambulatoriais, mas enfatizo: isso é uma percepção e acho que precisamos de números mais robustos para documentar... Mas sim: a demanda cresceu e realmente a coisa está se alastrando. 

Idosos e pessoas com comorbidades são classificadas como grupo de risco, mas se observa muitos jovens com complicações. Há um alerta? 

As pessoas não podem cometer o equívoco de pensar que estão aumentando (os casos) em jovens e (que eles) não sofrem tanto com a doença. É uma bobagem, porque o jovem também pode morrer e existem sequelas e incapacidades que podem durar de semanas a meses. 

O que o senhor tem a dizer sobre a imunidade de rebanho, tão apontada como um dos motivos para a queda de casos? 

É um conceito que surgiu e que pode até ter colaborado para esse repique que estamos tendo agora. As pessoas, de alguma maneira, podem ter ficado tranquilas, mas, do ponto de vista biológico, isso não se mostra verdadeiro. Se fosse, não teríamos esse recrudescimento (agravamento) que estamos tendo, ou isso não tem se mostrado sustentável, porque sempre alertamos as pessoas: a imunidade para a covid não é certa ou duradoura.

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