Munícipes tentavam desentupir bueiros para facilitar o escoamento da água: um dia de transtornos (Alexsander Ferraz/AT) Em seis horas, choveu mais em Santos do que o previsto para o mês inteiro. O temporal que atingiu a Baixada Santista entre a madrugada e a manhã desta quarta-feira (6) causou surpresa geral. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontou que o índice pluviométrico na Cidade chegou a 124 milímetros (mm) até as 16h — a média histórica para agosto é de 122,4 mm. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O diretor da Defesa Civil de Santos, Daniel Onias, confirmou que “essa chuva foi acima da prevista para todos os institutos. Não era habitual para agosto. (...) O fenômeno foi causado por uma concentração de umidade que ficou estacionada na região”. Onias acrescentou que não houve alerta de evacuação de áreas de risco porque o fenômeno não gerou perigo imediato nos morros da Cidade durante a chuva. O volume acumulado, porém, pode gerar problemas nos próximos dias. “Agora é o momento de intensificar as vistorias nas encostas e orientar os moradores. Se necessário, será feita evacuação preventiva”, adiantou. O diretor destacou que a Cidade ainda sofre os efeitos da ressaca da semana passada. “Foram retiradas 960 toneladas de areia do Canal 3 (até terça-feira). Isso (o assoreamento) comprometeu o escoamento da água da chuva. E já temos previsão de uma nova ressaca no fim de semana, com a maré podendo ultrapassar os dois metros.” Trânsito foi prejudicado e, em parte das vias da Cidade, bloqueado em decorrência dos alagamentos (Sílvio Luiz/AT) Portas fechadas A empresária Tatiane Lopes, dona de uma rede de pet shops, relatou transtornos. “Hoje (quarta, 6), por volta das 6 horas, já estava na rua, e vários pontos estavam alagados. Tentei chegar à loja do Canal 4, não consegui. Voltei para a loja do Canal 2, e a água já estava na porta. Nenhum dos funcionários conseguiu sair de casa: estavam todos ilhados”. E sua terceira loja também não abriu, pois o entorno estava comprometido. O chef Felipe Sanches Schmidt, dono de um restaurante, também decidiu não abrir. “Recebemos mensagens de colaboradores desde as 4h30. Casas cheias d’água, móveis sendo levantados. Das oito pessoas da equipe, apenas duas conseguiram chegar. Uma funcionária que mora a duas quadras do restaurante não conseguiu vir por causa do alagamento.” Chuva forte e enxurrada arrastaram e danificaram sacos de lixo em calçadas e no meio de ruas e avenidas (Rafael Motta/AT) Com lixo espalhado, ocorreu força-tarefa O lixo acumulado durante parte dos sete dias de greve dos trabalhadores da limpeza urbana na região, encerrada na tarde de terça-feira (5), se espalhou com enxurradas. A Terra Santos, empresa responsável pela limpeza urbana em Santos, disse que uma força-tarefa foi montada logo após o fim da greve, com 20 caminhões e 80 funcionários durante a madrugada e reforço de 25 caminhões e 120 profissionais pela manhã. Segundo o presidente do sindicato trabalhista (Siemaco), André Domingues, “a coleta já voltou ao normal desde terça-feira à noite”. A Prefeitura de Santos informou que mais de 500 trabalhadores reforçaram os trabalhos de drenagem e limpeza, com ações em canais, ruas e bocas de lobo obstruídas por areia e lixo. “Entre os principais pontos de alagamento, estavam os canais 1, 2, 3 e 4 e vias como as avenidas Nossa Senhora de Fátima, Francisco Manoel e Waldemar Leão”, disse, em nota. Trânsito O presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de Santos, Antonio Carlos Silva Gonçalves, explicou que, mesmo com a redução da chuva e da maré, pontos permaneceram alagados. “A culpa é do lixo. A água não tem para onde escoar quando as bocas de lobo estão tampadas. A água até passa entre o lixo, mas em velocidade muito menor”, declarou. Gonçalves também citou os efeitos da ressaca anterior. “Do Canal 3 para a Ponta da Praia, a areia é retirada. Já em direção a São Vicente, ela é depositada. Nesta quarta-feira (6), o nível da areia da praia está mais alto que o da calçada.” O presidente acrescentou que agentes da CET atuaram desde a madrugada para monitorar o trânsito e ajudar motoristas. “As imagens do Centro de Controle Operacional (CCO) ajudaram a identificar os pontos críticos. A orientação aos agentes foi usar o bom senso: veículos que subiram em calçadas ou usaram a contramão, por necessidade, não foram multados”, explicou. Efeitos do temporal variam cidades da Baixada Outras cidades da Baixada Santista sofreram com o temporal. Em Guarujá, registraram-se 86,9 mm de chuva em 12 horas, com vias alagadas, segundo a Defesa Civil do Município. Em São Vicente, choveu 23,2 mm, com pontos de alagamento intransitáveis em parte das avenidas, conforme informou a Prefeitura. A Coordenadoria de Defesa Civil de Praia Grande indicou que a Cidade registrou 62 mm de chuva em 24 horas, com acúmulo pontual de água que escoou rapidamente. Em Itanhaém, o índice foi de 61,17 mm, sem ocorrências. Bertioga contabilizou 25 mm e não registrou danos. Peruíbe informou 9,83 mm e nenhuma intercorrência. Em Mongaguá, foram 80,8 mm acumulados, com pontos localizados de alagamento em bairros como Balneário Jussara, Agenor de Campos, Barigui e Flórida Mirim, principalmente pela drenagem comprometida. A Defesa Civil local não registrou ocorrências graves nem vítimas. Em Cubatão, a Coordenadoria da Defesa Civil Municipal relatou 69,2 mm de chuva em 24 horas. O Viaduto Rubens Paiva, no acesso ao Jardim Casqueiro, ficou alagado, e três veículos caíram na vala central. A Ecovias Imigrantes, responsável pela estrutura, retirou os carros. Ninguém se feriu. Virá mais chuva Nova frente fria A Defesa Civil do Estado declarou que uma nova frente fria chegará ao Litoral amanhã, com possibilidade de pancadas de chuva, raios, granizo e rajadas de vento. No sábado, a previsão é de chuva o dia inteiro, com máxima de 15 graus. A maré poderá chegar a 2,2 metros no estuário de Santos. Na Cidade, um Plano Municipal de Contingência mantém a região da orla em estado de atenção e o estuário em alerta. A recomendação é para que moradores evitem áreas alagadas, acompanhem a previsão do tempo e se cadastrem para receber alertas pelo SMS 40199. Impermeabilização O climatologista e geólogo Rodolfo Bonafim disse que Santos sofre um processo acelerado de impermeabilização do solo. “A Cidade está muito cimentada, (com) muito asfalto, muito concreto. A água não consegue mais infiltrar no subsolo e, por isso, fica toda parada na superfície”. Ele acrescentou que o assoreamento dos canais, causado pela areia arrastada pelas ressacas, tem agravado o problema. “Foi um grande fator que fez com que as águas não escoassem.” Um idoso que andava sobre uma mureta do Canal 3 caiu na água. Arrastado, se segurou num cano, e munícipes o salvaram. Ele não ficou ferido (Reprodução/Redes Sociais)