Imagens de satélite registraram o desaparecimento da praia em Iguape, no litoral de São Paulo (Reprodução/ Google Earth) Antiga faixa de areia localizada em Iguape, no litoral sul de São Paulo, a Praia do Leste praticamente desapareceu. Monitorado por especialistas desde o início dos anos 1990, o processo de avanço do mar na região possui diversas causas e ainda não tem solução definitiva. Conforme noticiado por A Tribuna, moradores da região perderam casas e comércios devido ao fenômeno que vem redesenhando a costa paulista. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com a geóloga Celia Regina de Gouveia Souza, do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), ligada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), a faixa de areia tinha cerca de 50 metros de largura no início do monitoramento, em 1992. No entanto, essa estrutura começou a recuar ainda no verão de 1993. “Desde então, a praia foi perdendo sua faixa de areia e sofrendo alterações sistemáticas em sua forma, até desaparecer por completo entre os anos de 2006 e 2007”, explica. Formação da região explica o problema Localizada em um trecho dinâmico da costa de São Paulo, a Praia do Leste foi espremida ao longo dos anos pelo crescimento natural de dois extremos: ao norte, Ilha Comprida e, ao sul, a Praia da Juréia. De acordo com Célia, esse deslocamento de sedimentos pressionou a faixa de areia da Praia do Leste, que passou a perder volume até ser engolida pelo mar. Dinâmica das desembocaduras de Icapara e do Rio Ribeira de Iguape, nos anos de 1987, 1991, 1993, 1997, 2005 e 2010, conforme o artigo Cunha-Lignon et. Al., 2017 (Divulgação/ Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) - Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil)) Ação humana também interferiu Ainda que os fatores naturais sejam os principais responsáveis, intervenções humanas ajudaram a acelerar o processo. A principal delas, de acordo com a pesquisadora, foi a abertura do canal do Valo Grande, que passou a direcionar 75% do volume do Rio Ribeira de Iguape para o Mar Pequeno. Esse redirecionamento causou assoreamento na região, contribuindo para o avanço de Ilha Comprida em direção ao norte e influenciando também a erosão da costa da vila de Icapara. Os efeitos indiretos, todavia, se espalham por todo o sistema costeiro de Iguape. Mudanças climáticas aumentam o risco Desde 2002, a Praia do Leste consta entre as áreas classificadas com risco muito alto de erosão costeira no Mapa de Risco do Estado de São Paulo. A última atualização do estudo, feita em 2022, manteve a mesma classificação. Além da erosão, a região também apresenta risco elevado de inundação costeira. Mapa de Risco do Estado de São Paulo mostra regiões com risco de erosão costeira (Divulgação/ Instituto de Pesquisas Ambientais - Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo) As mudanças climáticas, segundo a pesquisadora, têm potencial de agravar ainda mais a situação, com a elevação do nível do mar e o aumento da frequência e intensidade de eventos extremos, como ressacas e tempestades. Reconstrução é difícil A pesquisadora conta que, diante da complexidade do cenário, qualquer tentativa de intervenção exigiria estudos aprofundados. Obras rígidas, como enrocamentos, muros de contenção, guias-corrente e espigões, não são recomendadas. Isso porque não solucionam o problema do balanço sedimentar negativo, ou seja, a perda constante de areia sem reposição natural. “A dinâmica da região envolve processos geológicos, geomorfológicos e oceanográficos em escalas de tempo muito longas”, aponta. “Qualquer ação precisa ser cuidadosamente avaliada para não gerar impactos ainda maiores”. Avanço do mar deixou rastros de destruição na praia Por décadas, a Praia do Leste foi um lugar de refúgio, descanso e vida simples à beira-mar. Entretanto, o avanço do mar foi responsável por derrubar casas e comércios na região. Estima-se que mais de 150 construções tenham sido levadas devido ao fenômeno. Imagens de satélite apontam que o mar avançou o equivalente a um quilômetro sobre a faixa de terra onde estavam as ruas. Erosão costeira A erosão costeira é um processo em que o mar avança sobre a terra firme, provocando o recuo da faixa de areia e afetando moradias, comércios e ecossistemas. Ela pode ocorrer de forma crônica — ao longo de anos ou décadas — ou de maneira aguda, em episódios rápidos e intensos, geralmente causados por tempestades e ressacas. Segundo o Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), ligado à Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo e responsável pelo Mapa de Risco de Erosão Costeira do Estado de São Paulo, 61 praias paulistas já apresentam risco alto ou muito alto de erosão e avanço do mar. As causas são diversas, incluindo a ocupação irregular da orla, a destruição de dunas e vegetação nativa, obras de contenção mal planejadas e os efeitos das mudanças climáticas, como o aumento do nível do mar e a intensificação de eventos extremos. Problema pode afetar outras cidades da Baixada Santista Recentemente, A Tribuna publicou que o avanço do mar no litoral de São Paulo tende a deixar partes de Santos e Guarujá inundadas até 2050. Além disso, outras regiões do litoral paulista também enfrentam os impactos da erosão costeira e do avanço do mar. Conforme informações do Mapa de Risco à Erosão Costeira do Estado de São Paulo, São Vicente segue um padrão, com praias que vão de risco baixo a muito alto. Em Praia Grande, o risco é médio. Já em Peruíbe e Itanhaém, o risco é classificado como muito alto.