EDIÇÃO DIGITAL

Segunda-feira

19 de Agosto de 2019

Automedicação pode criar problema de saúde pública

Pesquisa mostra que prática é comum no país e pode fortalecer algumas doenças

Quem nunca pediu a indicação de um medicamento para um amigo? Agora, uma pesquisa mostra em números o retrato da automedicação no país. No estudo, feito pelo Datafolha a pedido do Conselho Federal de Farmácia (CFF), 77% dos entrevistados admitiram utilizar remédios nos últimos seis meses e quase metade tomou algo por conta própria pelo menos uma vez por mês. Além disso, 25% fazem isso todo dia ou ao menos uma vez por semana.

E são as mulheres (53%) que mais adotam a prática. O estudo detectou ainda uma modalidade diferente de automedicação a partir de medicamentos prescritos. Nesse caso, a pessoa passou pelo médico, tem diagnóstico e receita, mas não usa o medicamento conforme orientado.

Esse comportamento foi relatado pela maioria dos entrevistados (57%), especialmente homens (60%) e jovens de 16 a 24 anos (69%).

O professor de Farmacologia do curso de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), Rubens Lodi, afirma que esse é um comportamento muito perigoso, não só para própria pessoa, mas à sociedade.

Ele cita o exemplo de uma pessoa com tuberculose, que precisa tomar o remédio por seis meses e não o faz. “Vai sobrar bacilo, que será resistente ao remédio, e acabará transmitido para filhos, vizinhos e colegas de trabalho. A medicação não vai mais funcionar da forma adequada e isso resulta em um efeito social”.

Dúvidas sobre o uso

Também foi observado que 22% tiveram dúvidas sobre ouso dos produtos, mas um terço dessas pessoas não buscou esclarecê-las.

De acordo com o coordenador do curso de Farmácia da Universidade Santa Cecília (Unisanta), Walber Toma, há trabalhos mostrando que, de tudo que é dito pelo médico ou farmacêutico sobre a medicação, as pessoas esquecem 80% do informado quando chegam em casa.

“Para piorar, têm dúvidas e ficam com receio de perguntar, achando que pode ser algo banal. Então, acabam não tomando a medicação e pedido conselho para o vizinho, por exemplo”.

Depois do médico e da internet, bula e farmacêuticos estão entre os líderes de consulta para tirar dúvidas.

Velho problema

Em nota, o presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP), Marcos Machado, diz que a pesquisa aponta a gravidade de um velho problema: a automedicação. “Não é por acaso que os medicamentos surgem como uma das principais causas de intoxicação no país. É uma cultura que necessita mudar”.

Segundo ele, é preciso alertar e orientar as pessoas. “Medicamento não é um produto qualquer. Seu uso implica em riscos à saúde”.