Os escorpiões são aracnídeos peçonhentos (Imagem ilustrativa / Reprodução / Unsplash) O crescimento acelerado dos casos de picadas de escorpiões venenosos no Brasil tem chamado a atenção da comunidade científica. Em um artigo publicado na revista Frontiers, no último dia 7, quarta-feira, pesquisadores brasileiros descrevem o cenário como uma ‘epidemia oculta’, agravada por fatores como a falta de saneamento básico, o avanço desordenado das áreas urbanas e a baixa conscientização da população sobre o risco desses animais. Em 2025, a Prefeitura de Praia Grande notificou dois casos de acidente causado por escorpião, sem registro de óbito, e Santos e Itanhaém tiveram uma ocorrência registrada em cada cidade neste ano. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os escorpiões são aracnídeos peçonhentos e não insetos como muitas pessoas acreditam, conforme explica o biólogo Ricardo Samelo. Esses animais desempenham um papel ecológico fundamental, pois são predadores de pragas, como as baratas. O especialista complementa que o problema surge quando o escorpião, por si só, se torna uma 'praga', o que é especialmente comum no caso do escorpião-amarelo (Tityus serrulatus). “Essa espécie é muito comum no Sudeste, principalmente em regiões do interior de São Paulo, onde causa muitos acidentes. No entanto, os escorpiões não são muito comuns no litoral do estado, sendo raros os acidentes com esses animais. Porém, desequilíbrios ambientais, como o desmatamento e mudanças climáticas, podem aumentar a população desses animais no litoral de São Paulo”, observa. No Brasil, entre 2014 e 2023, foram registrados 1.171.846 casos de picadas. A Região Sudeste foi a mais afetada, com 580.013 casos (49,5%), seguida pela Região Nordeste, com 439.033 casos (37,5%), de acordo com os dados divulgados pela pesquisa. Casos na Baixada Santista Em 2025, a Prefeitura de Praia Grande notificou dois casos de acidentes causados por escorpião, sem registro de óbito. Em Santos, houve um caso registrado. Em São Vicente, houve apenas uma ocorrência em 2024 e, até o momento, nenhum caso foi confirmado neste ano. Itanhaém registrou um caso em 2025, considerado leve, segundo a Prefeitura. As administrações municipais de Peruíbe e Guarujá informaram que, até agora, não houve registros de incidentes envolvendo escorpiões em 2025. A Tribuna entrou em contato com as outras prefeituras da Baixada Santista, mas até publicação desta matéria não obteve retorno. Como um escorpião se reproduz? Esses animais podem se reproduzir de maneira considerada inusitada pelo biólogo, através de um processo assexuado conhecido como partenogênese. Nesse tipo de reprodução, as fêmeas conseguem gerar descendentes sem a necessidade de fecundação por machos. Samelo aponta que, quando as condições ambientais são favoráveis - há umidade e temperatura, juntamente com locais favoráveis para abrigo e fartura de alimento -, as fêmeas produzem filhotes que, na maioria das vezes, são semelhantes a cópias delas mesmas. “Uma fêmea de escorpião-amarelo pode gerar até duas proles ao ano, produzindo de 20 a 50 filhotes nesse período. Esse tipo peculiar de reprodução, associado ao acúmulo de lixo e entulho, que promovem abrigo e alimento para os escorpiões, pode fazer com que o Tityus serrulatus se torne uma praga urbana”, esclarece. Acidentes envolvendo escorpiões da espécie Tityus Escorpiões do gênero Tityus são aracnídeos de interesse médico, pois os acidentes envolvendo esses animais podem evoluir para complicações sistêmicas. Ricardo Samelo esclarece que já foram registrados diversos casos de óbito relacionados a esse gênero. “Geralmente, pessoas com comorbidades, idosos e crianças podem evoluir para um quadro de empeçonhamento mais complexo, e óbitos são mais comuns neste grupo citado”, informa. Ainda segundo o biólogo, para manter as residências livres de escorpiões, é fundamental deixar o ambiente limpo, sem lixo acumulado, que pode servir de alimento para as baratas, principais presas dos escorpiões, além de evitar o acúmulo de entulho. “Os municípios também devem garantir a limpeza periódica de praças e demais locais públicos. A população tem que colaborar e descartar resíduos sólidos de maneira correta, pois é comum terrenos baldios virarem depósito de lixo e entulho em uma vizinhança, criando um ambiente perfeito para animais indesejados”, destaca. Como acontecem os acidentes com escorpiões? O biólogo esclarece que escorpiões não são agressivos ou defensivos, e na maioria dos casos os acidentes ocorrem quando pessoas pressionam o animal contra o corpo ao deitar-se sobre eles, caso estejam em colchões, por exemplo. “Esses animais são noturnos, e na escuridão vasculham o ambiente atrás de presas e acabam entrando nas residências. Ao amanhecer procuram um abrigo longe da luz, e um sapato, tênis ou bota podem ser abrigos perfeitos”, prossegue. Sendo assim, uma boa maneira de evitar acidentes é ‘sacudir’ lençóis e cobertores antes de se deitar, roupas e calçados antes de vestir. Em caso de acidente, o mais indicado é procurar imediatamente um serviço de saúde. A dor, presente na maioria dos casos, é o principal sintoma, esclarece Rodrigo Samelo. “Logo após, podem surgir vermelhidão, sensação de formigamento, eriçamento dos pelos e sudorese. Após absorvida na circulação sanguínea, a peçonha pode causar manifestações sistêmicas como agitação, hipersalivação, náuseas e vômitos. Com a evolução do quadro, pode haver hiper ou hipotensão arterial, arritmia cardíaca, edema agudo pulmonar e choque. O tratamento é feito com a administração de antiveneno, que pode ser o soro antiaracnídico ou, algo mais específico, utilizando o soro antiescorpiônico”, conclui.