Arquitetura de Santos poderia ser mais valorizada, diz secretário estadual de Turismo

Vinicius Lummertz promete apoio do Governo do Estado para fortalecer setor na Baixada Santista

Após fazer uma comparação entre Santos e Miami, nos Estados Unidos, dizendo que a cidade americana teve uma decadência na década de 80 e ficou semelhante ao que Santos é hoje, “que já esteve por cima na época do café e caiu”, o secretário estadual de Turismo, Vinicius Lummertz, quis se explicar melhor. A afirmação dele, feita reunião online (live) organizada pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-SP), em 16 de junho, foi alvo de reportagem de A Tribuna

Segundo o secretário, o exemplo de Miami foi para mostrar como um projeto de revitalização urbanista pode fazer com que destinos importantes no passado, ou que tenha perdido protagonismo, podem ressurgir. Lummertz afirma que a possibilidade de um projeto inspirado em Miami para posicionar Santos como destino turístico vibrante já vinha sendo tratado com o prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB).

Lummertz tem 58 anos, é formado em Ciência Política, foi ministro do Turismo na gestão Michel Temer (MDB), em 2018, após passar três anos como presidente da Embratur. Leia a seguir trechos da entrevista dada para A Tribuna, por telefone.  

O senhor comparou Santos a Miami, na Flórida (Estados Unidos), na época da decadência da cidade americana. E disse que Santos e região precisam trabalhar a estética para atrair turistas. Após a reportagem sair o senhor quis se explicar. Qual o motivo? 

Houve um questionamento, por parte do prefeito (de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, PSDB). Ele entendeu o que eu falei, mas acha que não ficou claro o suficiente. Quando uma cidade, como Guarujá, Santos, Miami, Balneário Camboriú, tem uma expansão imobiliária, existe um grande ciclo de riqueza nessa fase (...). Voltando a Miami, quando ela chegou no seu topo, teve uma certa decadência e depois começou a voltar. Santos já está nesse retorno (da decadência). O esforço é nessa direção, como foi em Sevilha (Espanha), em Lisboa (Portugal), Puerto Madero, em Buenos Aires (Argentina).  

Mas como está Santos hoje, secretário? 

Em Miami, houve uma evolução que a colocou no topo da moda mundial como cidade no seu perfil. Em Santos, há uma discussão de fazer um Puerto Madero, essa ideia é correta. A ponte para Guarujá também é importante nesse sentido. A valorização arquitetônica de Miami foi feita em cima de uma arquitetura que Santos tem, do mesmo período. Não só o Art Déco, mas tem um grande conteúdo arquitetônico em Santos que poderia ser mais valorizado. Eu sei que o prefeito está trabalhando duro no Centro de Convenções, que faz diferença, e houve investimento em hotelaria. Mas poderíamos fazer uma parceria com Miami, ou pode ser Barcelona, uma discussão de cooperação internacional (...). A marca Santos, a marca Pelé, a história do café, tudo isso tem uma relevância muito grande.  

E como o senhor analisa Santos atualmente na área do Turismo? 

Não me cabe fazer essa avaliação. O prefeito e a comunidade querem desenvolver esse potencial, inclusive com o Porto de Santos. Me cabe dizer que estamos aptos e queremos trabalhar em cooperação internacional, buscar recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), além dos que dispomos, para um projeto que venha do Município para incrementar o Turismo.  

O senhor é contra usar 100% do dinheiro repassado pelo Estado aos municípios, por meio do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios Turísticos (Dadetur), para obras? 

Em obras, poderia ser refinado o uso para serem cada vez mais voltadas ao Turismo, já estamos fazendo isso. Mas os próprios municípios acham que uma parte poderia ser usada em projetos de marketing, em assessoria conceitual, consultorias. Quando eu cheguei na secretaria, já tinha um decreto direcionando 15% do Dadetur para isso. Mas não foi implementado porque era ilegal. Só lei modifica a lei. Mas essa é uma proposta. Até porque obras tem outras fontes, outras secretarias. Minha opinião é favorável, mas precisa mudar a lei.  

Há necessidade de toda a cadeira turística baixar os preços para a retomada do setor na pós-pandemia. A medida é essencial para incentivar as viagens? 

Saindo da pandemia vamos ter duas tendências. Uma será a perda de receita disponível para viagens por parte do consumidor. É preciso que os preços possam ser mais sedutores. E o Brasil é um país caro, por conta de muita intermediação, com taxas caras. Um turismo mais eficiente na saída da pandemia teria que considerar essa perda de renda da população. Não é uma ordem do Governo do Estado para o mercado (baixar os preços), é apenas uma constatação de quem lida com política pública. E outra (tendência) é a substituição de importações (em economia, é o processo que leva ao aumento da produção interna). Oferecer um produto dentro do Brasil que substitua as viagens internacionais. Da maneira como pandemia está acontecendo no Brasil, até por falta de coordenação no âmbito nacional, estamos vendo dificuldades de viajar pelo mundo. Não só por conta da renda ou pelo câmbio, mas pela limitação que brasileiros sejam aceitos em outros países. Estamos falando da retomada, dos próximos meses. O futuro, o novo normal, não sabemos como será.  

Quando, de fato, começará essa retomada do Turismo no Brasil? 

O turismo terrestre já começou, lentamente, a retomar. Vai continuar, em uma outra etapa, com a abertura dos restaurantes. Os hotéis podem abrir, mas não estão funcionais, porque os restaurantes não funcionam, as atrações estão fechadas. Então, a retomada iniciou timidamente. Para o Turismo, deve melhorar da fase amarela (do Plano São Paulo, do Estado) em diante. Porque aí você tem hotéis, bares e restaurantes começando a funcionar. Está em vias de acontecer. 

Qual a sua previsão para o turismo retomar o desempenho anterior ao da pandemia?  

Se retomarmos razoavelmente no segundo semestre (de 2020), vamos até o final do ano que vem e talvez entremos em 2022 (para voltarmos ao patamar antes da crise). Digo talvez, porque depende. Se o Governo Federal colocar mais dinheiro na economia, como fez os Estados Unidos (pode mudar). No que depende de São Paulo, vamos puxar isso. Somos quase a metade do turismo brasileiro. Queremos promover as regiões, estamos buscando parcerias de novo com o setor aéreo e com toda a iniciativa privada. Precisamos retomar a parte aérea e a terrestre, estamos conversando com fornecedores do campo do turismo para que nos ajudem nessa construção. O turismo vai crescer muito, até porque é uma evidência aritmética, já que está próximo de zero.  

O Governo o Estado fará campanhas para divulgar as regiões turísticas, como a Baixada Santista? 

É um compromisso do governador João Doria (PSDB), é nosso compromisso promover as regiões para o turismo interno. Já estamos gravando vídeos com os protocolos, para que as pessoas se conscientizem de viajar com segurança. Aliás, segurança será um item de viagem. Já estamos trabalhando para que os hotéis comuniquem o grau de segurança que estão oferecendo. Um pai de família que vai viajar com os filhos vai querer isso. Ainda mais se for levar os avós. Isso faz parte de um programa que está sendo desenhado e estamos construindo com as grandes companhias.  

As pessoas não terão mais receio em fazer viagens? 

O que as pessoas querem? Número um, voltar à vida normal. Número dois, voltar a viajar. Isso tem a ver com liberdade. O turismo vem crescendo mais do que a economia, no mundo, há nove anos. Vamos perder um pouco em um ano e meio, mas, dentro do novo normal, a expectativa é de que volte a crescer. Existe uma desmaterialização da sociedade. As gerações mais novas estão preferindo comprar experiências do que bens. Houve uma grande democratização das viagens e incentivos. As pessoas são compostas por memórias. Uma viagem, de uma semana, não é só o seu tempo. É o quanto você adquire para a sua existência.  

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