O mais importante encontro mundial para debater o clima do planeta, a COP-30, começa oficialmente na segunda-feira (7), em Belém (Pará) - embora desde quinta-feira (6) estejam ocorrendo encontros entre líderes mundiais. A Baixada Santista estará representada, seja por autoridades públicas locais, seja por especialistas e pesquisadores do tema, como o professor do Instituto do Mar, da Unifesp-Baixada Santista, Ronaldo Christofoletti, que há anos dedica tempo e estudos para relacionar o clima às questões oceânicas. Abaixo, algumas das principais falas de Christofoletti, que defende uma linguagem simples para que o recado da Ciência chegue a todos. A conversa está dividida em tópicos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Avanços em relação à COP-29 Avançamos na sensibilização para a questão do financiamento climático. E o fato da COP estar sendo no Brasil, que é um país que compra essa luta do financiamento internacional, deve ter uma força maior. Nas duas últimas COPs, Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e em Baku, no Azerbaijão, foram em regiões que já eram dominadas pelo petróleo. Baku era esperado que fosse a COP do financiamento e foi uma catástrofe quando chegou ao final. Então, agora existe uma expectativa de que essa pauta possa avançar mais claramente. O fundo ainda não existe, ainda está na fase de negociação, por isso dizemos que esta deve ser a COP da ação. Não dá mais para ficar discutindo, precisamos ir para as ações, as cidades já estão sofrendo. A mudança do clima é um problema global, então, a ressaca acontece em Santos, mas também em outros lugares do mundo. E elas estão aumentando em frequência e intensidade por conta do clima. Nós estamos pagando uma conta de algo que não necessariamente provocamos. A gente fala de Santos e de Brasil, mas há muitas outras realidades bem piores em termos de recursos financeiros para enfrentar esses eventos, como Nigéria, Angola e vários outros da África. Como eles se reconstroem e se adaptam? A lógica do financiamento é: quem contribuiu mais para o aquecimento e lucrou com isso agora precisa ajudar a pagar essa conta. Papel dos oceanos Finalmente as pessoas começam a entender essa relação dos oceanos no equilíbrio climático. Apesar do oceano ser 70% do planeta, apesar do oceano regular o clima, ele sempre teve um espaço pequeno nas COPs. Desta vez parece que vai ser diferente, porque um dos eixos definidos pelo Brasil nesta COP será Florestas e Oceano, coisa que nunca aconteceu anteriormente. E isso ganha um papel especial porque a próxima COP será na Austrália, onde 85% da população vive na zona costeira. O Brasil, assim, ajuda a levantar esse tema do oceano para que tenha ainda mais importância em 2026. Estados Unidos fora da COP A saída dos Estados Unidos do debate do clima dificulta o processo, porque é um dos países que mais emitem carbono para a atmosfera. E não vai ajudar a pagar a conta, o que torna o desafio ainda maior. Desafio maior, mas não impossível porque eu acredito que o mundo se estabeleça de uma outra forma em relação aos Estados Unidos, para que ele entenda que as coisas vão acontecer com ou sem ele, tanto no clima como nas outras questões. Transição energética e fim da dependência do petróleo Os estudos mostram que se a gente investir agora em transição correta aceleramos o processo, entendendo que sim, precisa de um tempo para não mais depender do petróleo. A transição para uma fonte renovável precisa de investimento. Se você tira o dinheiro da exploração de novos poços de petróleo e investe na transição, você acelera o processo, e o Brasil tem condição de ser líder mundial nessa questão. O Brasil está perdendo a chance de ser esse líder. Cultura oceânica Pensar em cultura oceânica ou escolas azuis - que já estão em 70 países - não é falar sobre o oceano em si, mas sobre a nossa relação com o oceano. Agora está ficando claro, dentro da Educação, que o currículo azul é um movimento que pode favorecer esse debate sobre a resiliência climática e, assim, formar pessoas que consigam entender melhor o que está acontecendo. Ao se olhar com mais calma a origem do problema e sua solução todas as pessoas, daqui 20 ou 30 anos, vão entender melhor o planeta. Precisamos olhar em perspectiva e entender que algumas coisas precisam de tempo. Veja só: no final da década de 80, o grande problema era a camada de ozônio e os gases prejudiciais. Muitas mudanças foram feitas e, este ano, a Ciência mostrou que a camada de ozônio começou a fechar finalmente. Demorou mais de 30 anos, mas veio. Então, o princípio serve para outros exemplos: precisamos de ações agora para colher os frutos daqui 20 ou 30 anos. Resiliência e adaptação Esses são os pontos, justamente para responder a questão: o que eu faço agora enquanto espero resultados para 30 anos? Investimento em resiliência e adaptação. Mas o jogo de poder muitas vezes prejudica. Quem está em uma empresa quer o lucro agora, e para quem ocupa cargo público, a escala é de quatro anos. Quem vai se preocupar com daqui a 30 anos? Baixada Santista e mudanças climáticas A Baixada Santista é um mini-mundo. Se olharmos em termos de tamanho e população é o equivalente a países. Temos problemas e passivos ambientais, sim, mas também temos Mata Atlântica, as áreas de restinga e manguezais. Temos índices de bom desenvolvimento em determinados bairros e, sete quilômetros distante, áreas importantes de muita miséria. Isso é um mini-mundo com várias realidades e nenhum município é melhor ou pior que o outro na questão climática. E como a Baixada Santista pode dar o exemplo? Entendendo, sim, as suas fronteiras municipais mas que, juntas, podem encontrar respostas em comum. Por exemplo, criar um financiamento climático que seja equitativo, com a mesma lógica do financiamento climático da COP.