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Segunda-feira

13 de Julho de 2020

'A pandemia nos obrigou a acelerar a transformação digital', analisa Cláudia Sodero Salles

Professora universitária, graduada em Processamento de Dados. fala sobre como o coronavírus muitas empresas a acelerarem processos para continuarem vivas e produzindo

“Quem foi o responsável pela introdução da transformação digital em sua empresa? O CEO, o CIO, o CTO ou o coronavírus?” É com essa brincadeira que Cláudia Maria Sodero Salles, professora da Strong-Esags, UniSantos e Fatec, chefe do Departamento de Tecnologia e Informação da Prefeitura de Santos, começa o bate-papo. A pandemia do coronavírus obrigou muitas empresas a acelerarem processos digitais para continuarem vivas e produzindo. Para Cláudia, esse é um processo que não tem mais volta, e pode mudar a relação entre empresas, colaboradores e consumidores.

O que é transformação digital?

Muitas escolas, empresas acham que porque têm softwares bons e computadores são tecnologicamente avançados. Mas quando a gente fala em transformação digital, a gente fala em processos. Eu preciso trazer essa tecnologia para a metodologia do trabalho. Não adianta eu colocar o aluno pra ter aula no computador se eu continuo ensinando mal. Não adianta eu falar pro meu funcionário trabalhar em casa se vou exigir cumprimento de horário. Quando falo em transformação digital, falo em processo, falo em processos mais ágeis. Não adianta trabalhar oito horas por dia na frente do computador e ter uma produtividade de duas horas. A tecnologia é um meio e não um fim.

E como muda essa chave dentro da cabeça das pessoas, na cultura de uma organização?

Qualificar, qualificar, qualificar. É uma nova cultura mesmo. É uma nova forma de entender o colaborador dentro do processo. Quando a gente fala de um colaborador que trabalha com o intelecto, é porque ele não está lá na fábrica apertando parafuso. O intelecto não desliga, então, você precisa pensar em uma nova forma de se relacionar com o trabalho. Se eu vou colocar a transformação digital no meu processo, como eu posso melhorar a produtividade? Como eu posso conectar as ideias? Eu vou ficar fechado na minha organização ou vou me integrar com outras? Quando você está dentro do problema não consegue enxergá-lo como um todo.

E a transformação digital pode acontecer em qualquer tipo de negócio?

Veja, a pandemia nos obrigou a pensar nisso. Como o dono da padaria pode automatizar processos para diminuir a presença do funcionário lá dentro? Ele pode automatizar algum processo ou controlar digitalmente, de forma remota? Vender online?

Quando você fala que é preciso propor uma outra forma de pensar o trabalho, não se corre o risco de colocar o colaborador um pouco refém desse trabalho 24 horas por dia?

Não é algo simples. Tudo que é novo gera dúvida e insegurança. As empresas que são na essência digitais têm uma estrutura física que lembra um clube. E por quê? Para buscar um equilíbrio entre o trabalho e a descontração. É o ócio criativo. Nos anos 90, quando comecei a trabalhar com T.I., lembro de ir pra casa pensando na solução de um problema complicado e, às vezes, essa solução vinha quando eu estava na academia ou indo dormir. O cérebro precisa de um tempo para fazer as conexões.

E as conexões nem sempre acontecem no horário comercial...

Exatamente. Então, quando a gente fala que o funcionário não vai trabalhar das 8 às 18 não necessariamente vai trabalhar 24 horas. É que ele pode produzir fora do horário dito comercial e isso trazer valor pro resultado final. Ou seja, se ele entrega valor ao seu trabalho, não importa qual é o horário ou a forma. Estamos falando de produtividade e inovação. Esse pode ser um modelo dependendo do que ele faz.

Com tanta gente trabalhando em home office, de forma digital, como manter a unidade do time, a sinergia?

É um desafio, sim. E eu não consigo enxergar imediatamente um trabalho 100% feito a distância, como está sendo hoje. O modelo hoje está estressado porque foi feito do dia para a noite, de forma repentina mesmo.

Você acredita que esse tempo de pandemia, com tudo que ela trouxe, seja suficiente para mostrar às empresas que a transformação digital é necessária?

Eu acredito que as coisas mudarão, sim. Muitas pessoas estão perdendo emprego por força das empresas terem que reduzir despesas ou mesmo fecharem. Então, quando tudo isso acabar, não acredito que será como antes, não. A transformação digital pode estar sendo por força da situação, neste momento, mas com certeza ela será o caminho para que novas empresas surjam também e novos modelos de negócios. As soluções terão que ser mais ágeis, inclusive para a situação que vamos enfrentar.

Que tipo de empresa você acha que vai surgir?

Em um primeiro momento, acho que startups de soluções, que barateiem processos. As empresas vão ter que diminuir seus custos porque vai cair consumo. Então, elas vão ter que ser mais ágeis, eficientes e baratas.

Então, você acredita que as empresas podem ir buscar fora soluções que olhem para seus processos e reduzam custos, é isso?

Sim, porque, às vezes, sai muito caro mudar internamente. É mais barato contratar uma startup que desenvolva uma solução para aquela necessidade interna. Esse é um modelo que já existe, mas que deve ser acelerado daqui por diante. E eu não estou falando apenas em empresas de tecnologia, mas de qualquer tipo.

Nesse processo, será importante a participação das universidades, não?

Muito mesmo. Para oferecerem outros caminhos, novos produtos, novas metodologias.

Você acha que alguns setores podem ser mais impactados do que outros? Lojas de rua, por exemplo, podem encontrar caminhos digitais que hoje não têm?

Eu acredito que sim, porque quando você vai para o mundo digital, não tem necessariamente o físico. A loja física precisa de gente passando na porta para vender. Se tem menos gente, tem menos venda. Quando você está também em uma plataforma digital, precisa ser visto de uma outra forma. Não é uma placa que vai fazer você ser visto.

A transformação digital também depende do setor de RH das empresas, não?

Sim. A mudança não acontece espontaneamente. Ela precisa ser induzida muitas vezes. O coronavírus foi o indutor para chamar a atenção, mas se quem toma decisão não procurar entender, estudar e se apropriar desse processo para induzir essa transformação dentro da empresa, as garantias são menores. O gestor vai ter que se apropriar do assunto para continuar a mudança cujo indutor inicial foi o coronavírus.

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