(Imagem Ilustrativa/FreePik) Em 39 quilômetros quadrados, área da Santos insular, com um dos metros quadrados mais valorizados da região, não é difícil encontrar espaços subaproveitados, imóveis abandonados e áreas degradadas à espera de uma ocupação inteligente e harmoniosa. Quando algumas dessas áreas são bens tombados, de valor histórico e nada é feito por décadas, então a crítica pode ser ainda maior: de desprezo pelo passado e desconsideração pelo potencial que esses imóveis representam. Esse é o rótulo que cabe à Hospedaria dos Imigrantes, na esquina das ruas Silva Jardim e Luiza Macuco, na Vila Mathias. O mais novo capítulo de uma história de abandono e negligência que já dura anos é a exigência, por parte da Justiça, de um projeto de recuperação e ocupação daquele imóvel, construído no início do século 20, e que já se prestou a inúmeras funções antes de ser entregue ao mato, ao uso por moradores em situação de rua e ao risco – anos atrás, a queda de uma das paredes atingiu uma dessas pessoas, que morreu no local. Pertencente ao Estado, a antiga hospedaria já foi alvo de diversos projetos, inclusive a transformação em centro de convenções, museu da imigração, prédio da Unifesp-Baixada Santista e da Fatec. Nada disso saiu do papel e pior: além dos projetos terem sido abandonados, sequer a conservação do espaço limpo foi garantida pelo Estado, detentor da posse. Agora, pressionado pela Justiça, o Estado apresenta o projeto de construção, pela CDHU, de prédios com 286 apartamentos, 40 lojas, 87 salas comerciais, um cinema e uma quadra poliesportiva. Não há previsão de custos, prazos e licenças necessárias, já que se trata de bem tombado. Preservar bens históricos e conciliar novos usos sem destruir o patrimônio físico que marcou uma época são tarefas de toda sociedade que respeita seu passado e quer contá-lo às atuais e futuras gerações. Não fosse essa a linha de raciocínio e não se teria preservada, por exemplo, a história da antiga Santos-Railway no Valongo, o Museu Pelé instalado na antiga Câmara de Vereadores, a Bolsa Oficial do Café e tantos outros espaços bastante frequentados pela população. Ocorre que o tempo é inimigo da preservação quando se trata de imóvel abandonado, e quanto mais letargia na solução mais recursos demandará qualquer projeto de restauro. Para a Hospedaria dos Imigrantes, não se trata de desconsiderar seu valor histórico, mas talvez simplificar o projeto ora apresentado pela CDHU, talvez prevendo apenas habitação e espaço livre para lazer, sem tanta complexidade de itens, seja o melhor caminho. Aquela região carece de espaços livres para esporte, a exemplo do que representa o Parque Municipal Roberto Santini, então, por que não utilizá-lo dessa maneira? Ouvir a comunidade local pode ser um bom caminho no encontro de soluções simples e funcionais, que não onerem os cofres públicos e inviabilizem, novamente, o destino de um espaço nobre como aquele.