[[legacy_image_340311]] Necessidade é coisa séria, mas se não fosse pela fixação dos boletos com a data de vencimento, o Brasil talvez tivesse perdido um dos maiores humoristas da atualidade. Pois foi assim, porque “estava duro de grana”, que em 1998 Marcelo Médici participou – e ganhou – o Prêmio Multishow de Humor, franqueando a entrada em um panteão para ele, até aquele momento, intocável. “Nunca me imaginei na Escolinha do Professor Raimundo, nunca me imaginei sentando no banco de A Praça É Nossa. Não por nada, mas porque eu achava simplesmente deuses esses humoristas que eu cresci assistindo”. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Marcelo, que além de ter participado de A Praça Nossa entre 1999 e 2003, encarnou personagens memoráveis em novelas como Belíssima (Fladson Rodrigues), trará nesta sexta (8) e sábado (9) ao palco do Teatro Municipal Braz Cubas, em Santos, aquele que é o espetáculo mais emblemático dessa trajetória: Cada Um com Seus Pobrema, que completa 20 anos. Para A Tribuna, Marcelo comenta as dores e delícias da profissão de ator, além do panorama do humor atual. Você tem uma formação sólida como ator, incluindo passagem pelo Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), de Antunes Filho. Onde entra o humor nessa história? Foi uma descoberta. Participei do Prêmio Multishow de Humor, cuja regra era um comediante, sozinho no palco, fazendo humor. Você podia fazer uma versão, personagem, podia fazer stand up... A regra é que estivesse sozinho e em pé. Me inscrevi porque o prêmio era em dinheiro, eu estava duro na época. e tive o incentivo de alguns amigos, inclusive da Claudia Rodrigues, que fez A Diarista e é minha comadre, que tinha vencido o prêmio dois anos antes, em 1996. Como eu não era um ator conhecido, do chão não passa, pensei. Para minha surpresa, digo isso muito honestamente, acabei ganhando esse prêmio. Logo depois você chegou ao programa A Praça É Nossa. O Marcelo de Nóbrega me viu na reprise do Prêmio Multishow e me convidou para fazer A Praça. Nunca me imaginei na Escolinha do Professor Raimundo, nunca me imaginei sentando no banco de A Praça É Nossa. Não por nada, mas porque eu achava simplesmente deuses esses humoristas que eu cresci assistindo. Nunca me achei um cara engraçado, nunca me vi humorista. Fiquei na Praça com carteira assinada, ganhando salário. Para um ator de teatro que fazia peça infantil e ganhava R\$ 80,00 por semana, mudou minha vida. Antes desse feliz acidente do acaso, o que você almejava como ator? Também é uma história engraçada. Eu fui uma criança que não teve muito acesso a teatro. A única vez que fui ao teatro na infância, foi a uma peça que a Mara Manzan, que era filha de uma amiga da minha mãe, fazia. Saí de lá fascinado, com a sensação de ter visto adultos brincando, porque esse é um dos temores da criança: quando eu crescer, será que vou poder brincar? Ao mesmo tempo, eu queria fazer novela. Diferente de muitos amigos no teatro, que davam uma esnobada em tevê, eu não tinha esse preconceito. Mas a impressão que dá é que o teatro prevaleceu na sua vida e obra. Na época, gostei mais da televisão do que ela de mim... Demorou para acontecer. Nunca fui um galã – a gente sabe que isso conta, ou contava bastante – e peguei os anos 90, em que os modelos começaram a invadir. Bati com a cara na porta várias vezes. Já o teatro me recebeu muito bem. Não foi aquele namoro muito desejado, mas um amor que foi crescendo: o teatro virou meu grande casamento. Tenho consciência que, se tivesse ficado mais disponível para a tevê, talvez eu tivesse um espaço maior do que tenho hoje. Mas chegou um momento em que tive que fazer uma escolha e deixei claro para a tevê que não ia deixar de fazer teatro. Você está marcado pelo humor: impossível não associá-lo à comédia. Você se sente incomodado com isso? Eu me sinto um privilegiado. Mas tenho um pouco de síndrome do impostor, principalmente na Praça, porque não dá para você sentar ao lado do (Ronald) Golias para tomar um café e achar que está tudo bem... Golias é uma loucura. Como Chico Anysio também era... Então, nunca foi chato ser chamado de humorista. A única coisa chata é, se você quiser fazer alguma coisa diferente, as pessoas não te chamam. Eu, por exemplo, adoro filmes e séries policiais, filme de ação, o Brasil também começou a produzir esse tipo de conteúdo, mas é difícil que pensem em mim. Isso é um perigo: pois se você for chamado apenas para fazer coisas muito parecidas, acaba se repetindo. Como você vê o humor em tempos de redes sociais? Quando faz sucesso, tem um porquê. A gente pode não concordar, mas tem que observar. Agora, eu fico pensando: quantas pessoas já ficaram muito famosas com o advento das redes sociais e também já sumiram? Porque precisa ter base também. Se não tem, não continua. Como você vê os desafios do humor em 2024? Como estamos polarizados em tudo, está muito difícil buscar o equilíbrio. O humor precisa refletir o tempo dele. A gente andou para frente, algumas questões foram esclarecidas. Se um jovem de hoje assistir um programa humorístico dos anos 70, dos 80, e até dos 90 e 2000, ele desmaia: como é possível aquilo ter sido colocado na tevê? Mas era a época. Acho bobagem virem, por exemplo, falar dos Trapalhões para mostrar o que era errado: era mesmo, mas era da época. Hoje, a abordagem do Renato Aragão, muito certamente, seria outra. Agora, não dá pra atender todas as demandas, agradar a absolutamente todo mundo, porque o humor tem a característica de provocar, de debochar, de criticar. O stand up é a grande forma do humor, hoje, no Brasil? Como surgiu por aqui? Quem começa com esse estilo, acredito que por ter viajado e visto o que os americanos faziam, é o José Vasconcelos (nos anos 70), o próprio Jô (Soares), o Chico Anysio, Agildo Ribeiro também, o Miéle. Essa galera é cara limpa, não pode ter personagem. A diferença é que nos Estados Unidos o stand up é realizado em bares. Aqui, foi para o teatro. Cada Um com Seus Pobrema chega aos 20 anos. Como começou e qual o segredo da longevidade? Fui obrigado a fazer (risos), por insistência de amigos: ‘você tem personagens muito bons, tem que montar um espetáculo seu’. Quando fechei o teatro, queria fazer dois meses, mas só alugavam três... E se não for ninguém? Tinha acabado de sair de A Praça, tinha medo de ficar endividado. Logo depois, fui fazer minha primeira novela na Globo, Belíssima, que dava 55 pontos no Ibope. Fiquei conhecido, tinha espaço de mídia em revistas, fiz Fantástico, Videoshow... a peça foi um baita sucesso. Mas eu sou meio desconfiado, o artista não pode contar com esse ovo, o Brasil dá as rasteiras mais inacreditáveis, não dá para prever continuidade na profissão. A peça trata um pouco disso... Sim. A história de um ator que é cobrado a fazer sucesso. Meu pai demorou muito para entender que eu fazia teatro. Chegava tarde em casa, acordava tarde e ganhava pouco: era quase um carimbo de vagabundo. Depois que você faz televisão, a cobrança é outra: ‘tá sumido das novelas’. Se você fica longe da tevê, parece que a sua vida acabou e não é assim: às vezes, você está bem, está feliz. Qual a maior atualização do espetáculo? É a do ator, hoje em dia, ser mais dependente de seguidores (nas redes sociais). Dos anos 70 até os 2000, o ápice do sucesso era fazer novela na Globo. Hoje, o ator tem que fazer série, talvez ir para uma carreira internacional, e bombar na internet, o que eu me recuso: não vou ficar de micagem no TikTok nem fazer meus personagens sentado no sofá. Sou da última geração que teve infância sem celular, sou de um tempo em que a gente ia ao restaurante e conversava! Você tem uma estreita relação com Santos, não? Tenho uma história incrível com a Cidade. Uma tia-avó tinha um apartamento na Divisa, no José Menino, em frente ao parque dos golfinhos (o antigo Oceanório, na Praia do Itararé, fechado em 1993, que tinha um golfinho chamado Flipper). Eram as melhores férias do ano, meu sonho era morar aí. Ia à praia às 7 horas e só saía às 17 horas. Brinco que comia queijadinha, camarão com casca, aquela raspadinha cheia de abelhas: estou imunizado para sempre! Fui para o Rio de Janeiro quando comecei na tevê, mas eu não troco minha praia na Divisa. Serviço: Cada Um com Seus Pobrema, com Marcelo Médici interpretando oito personagens, em cartaz nesta sexta (8), às 21h30 e sábado (9), às 21h, no Teatro Municipal Braz Cubas (Av. Pinheiro Machado, 48, Vila Mathias). Ingressos entre R\$ 50,00 e R\$ 100, à venda na internet. Assinantes de A Tribuna, com acompanhante, têm 50% de desconto.