Sérgio Dias não tem dúvidas: muita gente ainda busca a música para presentear, tanto que as vendas aumentam 30% nesta época (Alexsander Ferraz/AT) Dezembro, festas, amigo secreto. É tempo da corrida maluca aos presentes. Se estivéssemos em 1994, por exemplo, uma ótima pedida seria um CD ou um LP. Caso houvesse dúvida sobre o gosto alheio, um ‘cheque-disco’ resolvia: o presenteado que fosse na loja escolher. Hoje, na era do streaming, a pergunta se impõe: você ainda presenteia com música? “Como é que dá pra presentear com música?”, espanta-se João Ferreira, ao lado da esposa, Amanda. Ambos com 30 anos, é compreensível que não tenham, digamos, intimidade com o CD, muito menos com o LP. “Difícil usar esse tipo de mídia hoje em dia”, ponderam. Para ouvir música, usam o YouTube, que acomoda bem o seu gosto eclético: rock, sertanejo e pagode. De qualquer forma, o casal, que é de Avaré e passava férias em Santos, não precisaria se preocupar com presentes em ao menos uma das tradições de dezembro: “nós não participamos de amigo secreto”. Pronto. Não se sabe se a comerciante Janina Stamato, de 44 anos, participa ou não de amigo secreto. Mas é fato que ela já não ouve música nem no formato CD – que dirá em LP. “Meus filhos, de 10 e 12 anos, nem sabem o que é”, resume. Recentemente, se desfez da coleção de CDs da mãe, falecida. “Dei tudo para o sebo”. Ou quase tudo: “só guardei alguns queridinhos, pela recordação”. A nostalgia também se insinua no gosto dela: MPB clássica, samba ‘antigo’, ou de raiz, e música internacional. Ivo segura um laser disc, formato de vídeo que não pegou; mas LPs ainda são vendidos aos mais jovens (Alexsander Ferraz/AT) Combinação Estas entrevistas foram feitas na Avenida Ana Costa, em um dia de semana que não se decidia pelo sol ou pela chuva. Quando caíam uns pingos do céu, eis que passa Gilvânia Barros Vieira, 51 anos, vestindo uma camiseta da banda inglesa Pink Floyd. Você gosta de rock, Gilvânia? “Gosto mais de sertanejo”. Este repórter ficou sem ação: mas e a camiseta? “Um amigo me deu, porque achou que combinava comigo”. Pink Floyd, sertanejo, seja o que for, Gilvânia gostava de ganhar CDs de presente, quando a prática era mais comum. Hoje, ainda guarda umas duas dezenas deles. E até ouve de vez em quando, no aparelho de DVD. Mas disputam espaço com o pen drive recheado de músicas – e até esse também já parece datado diante do todo-poderoso streaming. Datado? O tempo só existe para propiciar redescobertas. Que o diga Ricardo Nogueira Santos, de 46 anos. Vestindo uma camiseta dos Beatles quando o entrevistamos, o designer de 46 anos presenteia, sim, com CDs – e até LPs. “Mas só se for amigo íntimo”, faz a ressalva. O mais recente presente musical que deu foi há dois anos, para uma ex-namorada. “Um CD do Coldplay”, relembra. Porém, para si, os presentes são constantes. “Toda semana levo um vinil. Ah, a Black Friday...”, sorri. Aliás, o LP de vinil foi uma redescoberta. Resultado: ele tem hoje uns 900 LPs de vinil e outros 300 CDs, de rock, jazz e blues, principalmente. “Meu pai diz: ‘abre uma loja!”. Mas isso está fora de cogitação. Está vivo Sérgio Dias, da Besouro Discos, especialista em CDs e LPs, é taxativo: as pessoas ainda presenteiam com música. Tanto que, nesta época, observa um aumento de 30% nas vendas. “É mais vinil. Muita molecada que dá LP, porque ficou fácil com as novas vitrolinhas”. Aliás, Sérgio considera que o equipamento é tudo, seja para CD ou LP. “Se escutar em um bom equipamento, os dois são bons. Mas o vinil é mais charmoso, até pra começar a gostar de música”. A procura, aponta Sérgio, é especialmente pelo vinil e vem de pessoas bem jovens. Quem procura, gosta: não há LP novo por menos de R\$ 100,00. Por isso, e pela variedade, a maior parte à venda é usada. Esse é o caso também na loja Iron Fist. Por lá, os CDs têm a preferência do público na faixa dos 40 anos e os mais jovem vão em busca dos LPs. “De 20 e poucos anos e gostam mais de MPB, Duran Duran, Sisters of Mercy, Smiths, Bauhaus”, enumera o atendente Ivo Smith. Ou seja, os mais jovens se interessam pela música relativamente mais antiga. E as vendas não se resumem à loja. “Já mandamos LP até para o Amazonas”. Aos 47 anos, Ivo prefere CD ou LP? “Só escuto no Spotify”, sorri. “Mas meu irmão ainda tem CDs e LPs”. Ah, bom.