[[legacy_image_356142]] Que me perdoem os grandes atores e personagens animados icônicos presentes em nossas vidas há tanto tempo, mas a tal ‘versão brasileira’ de suas vozes é especial demais. A morte de um dos grandes da área, José Santa Cruz, no último dia 26, jogou, mais uma vez, luzes sobre um trabalho extremamente profissional e de excelência. É uma escola que, geração após geração, empresta voz a um país de espectadores. “A gente tem uma gama de atores inacreditavelmente boa desde os primórdios da dublagem. Vem de gerações de dubladores de uma qualidade absurda, como o Isaac Bardavid (Wolverine), Orlando Drummond (Popeye, Scooby-Doo), José Santa Cruz (Dino da Silva Sauro, Magneto). Já começamos com muita força. O brasileiro tem o costume de, ainda em crescimento, ver muita coisa dublada na TV aberta, por exemplo. Então, a dublagem já faz parte da nossa vida”, afirma Erick Bougleux, que interpreta o Greg, personagem de Vicent Martella na série Todo Mundo Odeia o Chris. Ele esteve no Anime Santos Geek Fest, realizado no final de abril. O evento é conhecido pelos diversos encontros entre dubladores e o público, reforçando um laço que é criado à distância. “Eu acho que faz a diferença a nossa ‘malemolência’, a nossa linguagem. A gente faz o produto ficar próximo do público graças à nossa diferença linguística, que não tem em nenhum outro lugar. Trazemos coisas nossas de diversas regiões do País para a dublagem, para incorporar na interpretação. E é isso que faz o molho. As pessoas se identificam com aquilo”, acrescenta a dubladora Sylvia Salusti, dona da voz de personagens como a Phoebe Buffay, da série Friends, e que também esteve em Santos. Comparações Raphael Rossatto, dublador de personagens que aturam em filmes como Enrolados e Guardiões da Galáxia e que marcou presença no evento santista, lembra das comparações inglês/português que dominam a internet. “A gente vê de vez em quando, até nos memes, mostrando como é em inglês, como é na legenda e como é na dublagem. Eu acho que a gente consegue passar muito bem a ideia do que precisa ser passado na nossa tradução, na nossa adaptação. É o grande diferencial”. IA, um desafioRecentemente, um grupo de dubladores iniciou uma campanha nas redes sociais contra a utilização indiscriminada da inteligência artificial na dublagem, o que colocaria em risco a originalidade das versões dos profissionais. A expectativa é de que a mobilização ajude a regulamentar a nova tecnologia. “É uma nova tecnologia que precisa ser regulamentada de alguma forma. Não podem pegar minha voz sem minha autorização e fazer coisas. Mas a dublagem em si já está se movimentando, para que tudo fique conforme a lei. Como toda nova tecnologia, ela surge com muita força, mas sem muito rumo”, resume Erick Bougleux. Pois o bom dublador é de carne, osso e uma voz inigualável. Erick Bougleux é exemplo de sucesso na nova geraçãoVincent Martella tem 6,6 milhões de seguidores. Possivelmente, esse número seria bem menor se não houvesse uma adoração do público brasileiro pela série Todo Mundo Odeia o Chris. Com exibições em TV aberta, cabo e streaming, as aventuras do pequeno Chris Rock em Nova Iorque viraram um fenômeno à brasileira. E o dublador Erick Bougleux é um dos ‘culpados’.Ele empresta a voz a Greg, o melhor amigo de Chris, interpretado pelo ator Tyler James. Como ele, aparentemente, não entendeu o amor brasileiro por Chris, houve uma ‘campanha’ para trazer Martella ao Brasil e, de quebra, passar James no número de seguidores no Instagram. E Bougleux (lê-se Buglê) ficou em evidência mais uma vez. “Quando vou dublar Jujutsu Kaisen (anime que lida com elementos sobrenaturais), a gente já sabe que é uma obra incrível, que tem um mangá, uma base de fãs, todo um histórico, e chega preparado para o tamanho que aquilo vai ter. Na época em que a gente dublou o Todo Mundo, não existia isso. Mal existia internet (risos). Foi há 18 anos, antes do boom das redes sociais. A gente dublava sem a ideia da proporção que aquilo iria tomar”. Ele não chegou a encontrar Martella em sua recente – e rápida – passagem pelo Brasil. Mas garante que o ator da série conhece seu trabalho. “Não nos encontramos, por conta de uma questão de agenda. A visita dele foi muito corrida. Mas seria ótimo. O encontro do Isaac Bardavid (já falecido) com o Hugh Jackman (ator que interpreta o Wolverine), por exemplo, foi lindo e histórico. No nosso caso, quem sabe ainda não aconteça? Seria maravilhoso”, sonha. Razões do sucesso Erick Bougleux acredita que a chave para o sucesso de Todo Mundo Odeia o Chris está na simplicidade e na conexão com o público brasileiro. “A série é muito boa. Mas talvez seja por conta do tipo de humor, que conversa muito com o brasileiro, do tipo que a gente gosta muito por aqui. Os personagens são todos muito carismáticos”, define Bougleux, que ainda tem um sonho, mesmo com 34 anos e algum tempo de trabalho: dublar um personagem da série animada Os Cavaleiros do Zodíaco. “Eu queria dublar qualquer personagem de Os Cavaleiros do Zodíaco. Ficaria muito feliz. Pode ser o ‘soldado 3’ (personagem sem nome). Sou muito fã desde pequeno”, finaliza. Erick Bougleux é exemplo de sucesso da nova geração