[[legacy_image_17341]] Marco Ricca mergulhou de cabeça na interpretação do empresário Lélio Ravagnani (1921-2000) na série Hebe, exibida pela Globo às quintas-feiras, após Fina Estampa. Apesar das poucas referências que tinha do segundo marido de Hebe Camargo (1929-2012), o ator se apoiou no texto de Carolina Kotscho para construir a figura apaixonada, ciumenta, e, por vezes, agressiva do personagem. De acordo com o intérprete, a parceria com Andrea Beltrão e com o diretor artístico Maurício Farias foi fundamental para que contassem essa história. Na entrevista a seguir, o paulistano de 57 anos fala sobre uma passagem polêmica como convidado no programa de Hebe no SBT, em 1994, em que se negou a cumprimentar Paulo Maluf, e a importância de ter a trajetória da apresentadora com suas controvérsias na televisão aberta. Além disso, o ator conta como foi a preparação para dar vida a Lélio, que traços do personagem têm a ver com ele e qual cena mais gostou de gravar na série. Qual a importância da figura pública da Hebe para você? Eu sou de uma geração que julgava a Hebe. Era um militante político como grande parte da minha geração e ou a gente estava de um lado ou do outro. É difícil não julgar pessoas que tomam determinados partidos num momento tão crítico e doloroso. Quando fui ao programa da Hebe, eu estava fazendo uma novela no SBT (Éramos Seis, de 1994) e, de repente, aparece o Paulo Maluf (político) na minha frente e da Bete Coelho (atriz). A gente não deu a mão a ele. Foi de uma indelicadeza terrível. Reconheço que errei. Hoje faria de uma maneira mais educada. A Hebe fazia você passar por essas coisas. E, ao mesmo tempo, depois ela foi lá e se desculpou por tê-lo apoiado, quando percebeu que aquele homem não correspondia exatamente à expectativa dela. Isso é muito legal de passar na televisão hoje. A gente pode errar, por balas a mais no nosso cartucho, mas temos que saber reconhecer os nossos erros. Que a gente possa ver um personagem tão complexo e contraditório como ela saber se desculpar e virar para o lado correto da história. O que você acha das contradições da Hebe? Essas contradições da personagem que fazem com que ela seja grande. Não tem vilania, não é uma heroína clássica, mas um ser vivo que está lá. Essa geração da Valentina (Herszage, que faz a fase jovem de Hebe) pra frente, que não viu e não conheceu, não tem referência dessa mulher e, consequentemente, desse momento histórico que ela viveu. O que sobra é o lado humano. Você não teve tantas referências como a Andrea Beltrão para compor o personagem. Como foi a sua preparação para interpretar o Lélio? Tem uma coisa muito clássica na vida da gente que é partir do papel. Sou paulistano, eu conhecia a Hebe, fui ao programa dela duas vezes. Eu achei um máximo a Andrea fazê-la. Se a gente vai interpretar uma personagem que já existiu, tem que ter a energia. O Maurício (Farias, diretor artístico) tem a capacidade de proporcionar uma atmosfera no set de gravação que nos dá um espaço amplo de criação. Para a composição, eu fui em cima dos paulistanos da Rua Augusta. Não frequentava, mas conhecia esses burgueses de lá. Encontrei com o Luis Gustavo (ator), que é meu amigo e foi do Lélio também. Ele era esse playboy paulistano. Eu tinha pouco material, mas sugava. Havia informações do texto e sabia que o personagem tinha ciúme e paixão pela mulher. Como foi filmar a série depois do filme? Tenho mais presente na minha cabeça o filme do que a série, pois gravei muito para o longa-metragem e só tive algumas cenas na série e meses depois. Após assistir, eu falei que me surpreendi demais. Vi que teria um resultado sensacional, mas passou as minhas expectativas. Por ser uma personagem que existiu e está na cabeça de todo mundo é facilmente deturpável com comparações inexistentes. Para mim, a Andrea é a Hebe, não tem jeito. Acho que ela não sabia mais quem era durante as gravações, pois já tinha até o sotaque. Tem algum aspecto do personagem que se parece com você? Lélio tem um jeito meio carcamano e eu sou também assim, pois minha mão mexe muito, falo alto, essa coisa de italiano. É a mesma origem do personagem. Já passei por momentos de ciúme, mas acho que nunca tive esse tipo de relação doentia. Quando fui conversar num lugar em que muita gente o conheceu, as pessoas me falavam que ele era sem-vergonha, agressivo e isso marca uma geração. Os homens melhoraram na questão de respeito, compreensão, porém, naquele tempo, parecia que podia tudo, o machismo era exacerbado A dor do outro não importava e a Hebe conviveu com um homem como esse. Ele comemorou quando ela foi demitida, porque a teria só para si. Qual cena mais gostou de fazer? É difícil escolher, mas, como sempre quis ser o Bruce Willis, tem uma cena dramática que é muito violenta. É aquela do carro (em que Lélio quebra o vidro do automóvel de Hebe durante uma briga por ciúme, no oitavo episódio). Sempre há o risco de não dar certo e tinha que dar pancada. A gente teve que filmar de dois jeitos, pois eu tinha que acertar num lugar certinho para quebrar. Esse momento agressivo do cara e ver a Andrea assustada foram impactantes. Me senti o Bruce Willis. Foi maravilhoso! E não gastamos tanto dinheiro quanto parece.