(Divulgação/Reprodução) Piscou, lá se foram 30 anos. Assim como há cremes para rugas e pés de galinha, os livros também pedem uma recauchutada – especialmente se o autor está vivo e bem. “Você vai lendo, seu gosto muda muito”, explica o escritor santista José Roberto Torero, que acaba de relançar a sua obra de estreia, O Chalaça. Publicado originalmente em 1994, é o único livro de um santista a vencer o Prêmio Jabuti de Melhor Romance e Livro do Ano. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “Eu pensei que faria poucas mudanças, só coisinhas, mas você vê piadas que não funcionam tão bem. Como o romance é grande, a piada que não funciona fica escondida ali, entre duas que funcionam, e você acaba deixando. Quando lê com atenção, dá para melhorar”, explica. É de se supor que uma obra com tais credenciais não precisasse de retoques. “A gente mudou bastante. (Mas foram) mudanças pequenas, palavrinhas, aquele enfeite desnecessário que atrasa a narrativa. Mas por outro lado, a gente colocou um capítulo a mais”. Esse trabalho extra foi ‘culpa’ do mendigo-filósofo: personagem que surgia na trama e disparava pérolas da sua chamada ‘besta filosofia’. Por exemplo, que cada pessoa deveria descobrir com qual animal se parece mais e imitá-lo na vida. “Esse personagem aparecia, mas ele não tinha um final. Ele reaparece, pra gente saber o que aconteceu com ele”. Mas do que se trata O Chalaça em si? A obra relata as supostas memórias do conselheiro Francisco Gomes da Silva – chamado Chalaça –, fiel secretário particular de D. Pedro I, que viveu momentos marcantes do início do império brasileiro, bem como guardou segredos de alcova – era ele quem intermediava os encontros amorosos do imperador. Como se trata de um romance histórico, as atualizações, feitas em parceria com Marcus Aurelius Pimenta, se resumem mesmo à forma, não ao conteúdo. Porém, a vida imita a arte... “Ele ganhou eco recente com o Cidinho (o tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro). Mas não vou mudar nada para ligar um ao outro, pois já já aparece outro Cidinho...”. direto do forno Pode-se dizer que o relançamento de O Chalaça saiu mesmo do forno: a nova edição é fruto da Padaria de Livros, pequena editora fundada por Torero. “É muito pequena: a minha mesa e os sócios, a Rita, minha mulher, o Marcus Aurelius Pimenta (também escritor) e o ilustrador Ivo Minkovicius”. A editora surgiu, literalmente, do clamor popular. A partir de 2019, Torero começou a publicar nas redes sociais pequenos textos, sob o nome Diário do Bolso – um suposto diário privado, e bem-humorado, do ex-presidente Jair Bolsonaro. A crítica ferina, sob a égide do humor, deu tão certo que as pessoas começaram a pedir em livro. Como a tiragem era pequena e havia a urgência do momento no projeto, Torero pôs a mão na massa e abriu a Padaria, que já tem 22 obras publicadas, seja em papel ou no meio digital, para adultos ou crianças. Mas a Padaria também foi porta de entrada para livros rejeitados por grandes editoras. É o caso de O Amor É Animal, minicontos para crianças, descrevendo como é o amor entre os animais. “É um amor bem criativo. O cisne negro da Austrália, por exemplo, são dois machos e uma fêmea; ou de um albatroz, quando o filhote nasce, ela procura outra fêmea para juntas criarem... nenhuma editora grande queria publicar isso”. Assim, um livro que não existiria viu a luz e já vendeu quase 3 mil exemplares. No caso de O Chalaça, a ‘volta pra casa’ se deu mesmo pela temporalidade: após três décadas, as vendas estavam em 100 exemplares ao ano na editora tradicional. A nova versão, de cara, já alcançou 200 leitores. “Todos os livros da editora, até aqui, se pagaram”, resume Torero mais essa grande aventura, que nasce das páginas e por elas. O novo O Chalaça terá sábado, em Santos, uma tarde de autógrafos com a presença do autor, às 16 horas, na Realejo Livros (Av. Marechal Deodoro, 2, Gonzaga).