Filme, que traz pessoas com deficiências, foi dirigido pelo santista Gabriel Campina (à esq.) e John Dauvin (Divulgação) Uma jornada como processo de descoberta e aprendizado. Um percurso físico e emocional para vivenciar o cotidiano de pessoas com deficiência. Esse é documentário Regards Croisés (Olhares Cruzados, em livre tradução), que deu ao cineasta santista Gabriel Campina, o primeiro prêmio na mostra paralela ao Festival de Cannes, que celebra produções independentes e de caráter social, a Entre deux Cannes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No estilo road movie, o filme percorre diversas localidades, da Bélgica ao sul da França, onde Gabriel vive há mais de dez anos, sempre atuando na área audiovisual. Nessa jornada, a cada parada, eles foram retratando diferentes histórias, conseguindo, de acordo com a mídia especializada francesa, tecer um enredo que “emociona” pela “honestidade” e pela “sensibilidade” com que os personagens são apresentados. O documentário, realizado em parceria com o amigo John Dauvin, nascido na Índia, permite, dessa forma, um mergulho em um universo que envolve, hoje, um bilhão de pessoas no mundo. Seja por deficiências físicas, sensoriais, intelectuais ou mentais, essas pessoas vivenciam uma perspectiva diferente em relação ao que as cercam, se adaptando ao mesmo tempo em que convivem com a vacilante relação que a sociedade ainda tem com eles.</CW> Gabriel conta que a ideia do documentário surgiu de um reencontro com o amigo John Dauvin, que tem uma atrofia no braço. Ambos já atuavam com cinema, mas não se viam há vários anos. “Um dia estava trocando a fralda do meu filho e fiquei pensando como John fazia para cuidar dos filhos?”. No dia seguinte, Gabriel relatou o ocorrido ao amigo. “Ele foi se abrindo e nós percebemos que havia a possibilidade de contar essas histórias. Como é ter um pai com deficiência ou ser, por exemplo, pai ou mãe de um jovem com deficiência”, relembra. O documentário, produzido e financiado pela dupla, tem 1h10 de duração, levou um ano para ser concluído e contou com uma equipe de apoio com cerca de 20 pessoas. Regards Croisés contou com pré-estréia para 350 pessoas. Ao final, conta Gabriel, a plateia ficou em silêncio. “Aí percebemos como o filme tocou as pessoas. Foi uma surpresa e ao mesmo tempo um grande orgulho”. Filho da professora Nilva Campina, da rede pública santista, Gabriel sempre quis seguir a carreira cinematográfica. Graças à mãe, que mostrou opções de intercâmbio, ele decidiu mudar para França. Hoje, vive em Lyon, a cidade onde nasceram os irmãos Lumière, considerados por muitos os pais do cinema, por terem sido os pioneiros na exibição de imagens em movimento. “A minha visão de mundo é franco-brasileira e isso está presente nas minhas obras. É uma riqueza cultural que eu considero um diferencial e tento transmitir nos meus filmes”. O documentário estreia na próxima quarta-feira no circuito comercial francês e em 3 de dezembro, no Dia Mundial da Pessoa com Deficiência, será apresentado no Parlamento Europeu. Segundo Gabriel, o documentário foi escolhido para ser o porta-voz do movimento europeu para inclusão. “Vamos compartilhar a mensagem de respeito, resiliência e adaptação”. Não há, ainda, previsão de lançamento em português. A ideia, por enquanto, é mostrá-lo no Brasil por meio das escolas de francês. “Se tudo der certo, em 2025 o filme chegará ao público do meu País”, finaliza o santista premiado.