[[legacy_image_208837]] Maior, mas nem um pouco abandonado. Aos 40 anos, o Barão Vermelho brinda os fãs com uma celebração à altura de sua história – e de sua obra. A obra, aliás, é o ponto central da festa: um especial para a tevê (já em exibição no Canal Bis e no Globoplay) e quatro álbuns de coletâneas, que contemplam quatro eixos da carreira do Barão. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “A gente dividiu a carreira em Acústico, Clássicos, Sucessos e outro de Blues e Baladas. Acústico, nunca tínhamos lançado nada. O Blues e Baladas, porque o Barão tem muita ligação com essa temática, da dor de cotovelo. Cazuza gostava de Lupicínio (Rodrigues), Maisa, Ângela Ro Ro. foi uma forma de misturar a sonoridade do blues e do rock e fazer um rock brasileiro”, explica o baterista e fundador do Barão, Guto Goffi. E continua: “Os sucessos, o que seriam? Bete Balanço é um sucessaço, mas a gente colocou essa música no Acústico. Se fosse fazer um álbum de sucessos, seria insuficiente; essas divisões foram uma forma de acomodar tudo... pois como você pega um grupo de 40 anos, que gravou 150 músicas e coloca só 26?”. Mas, há 40 anos, antes desses números tão sólidos, havia apenas um sonho de menino: o de viver de música. DesbundeOs ingleses do Queen não sabem, mas o Barão Vermelho nasceu praticamente por causa deles. Em 1981, Guto e o tecladista Maurício Barros foram do Rio a São Paulo, de ônibus, para assistir ao histórico show de Freddie Mercury e cia. no Estádio do Morumbi. “Foi o primeiro show de estádio, com banda de rock, 100 mil pessoas... aquilo foi um desbunde pra gente”, recorda. Os dois voltaram para casa com duas certezas: seriam músicos e montariam uma banda que teria um vocalista de ofício – nos moldes do Queen. No Seminários de Música Pró Arte, onde ambos estudavam, encontraram o baixista Dé Palmeira e o guitarrista Roberto Frejat. Mas faltava o cantor. “Fui atrás do Léo Jaime, que eu já conhecia. Um dia, ele foi no ensaio, mas estava envolvido no Miquinhos Amestrados e queria tentar carreira solo. Aí, ele indicou um amigo, ator de teatro, que também cantava na peça em que estava encenando”. O ator chamava-se Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza. “Ele foi no primeiro ensaio. Depois daquilo, fechou a estrela de cinco pontas de forma espetacular”. ProteçãoO Barão cresceu e apareceu sob a asa protetora do jornalista e produtor musical Ezequiel Neves, à época já beirando os 50 anos. “A gente era muito menino. O Ezequiel colocava o nosso sonho juvenil nos trilhos”, analisa Guto. Na ocasião, Ezequiel trabalhava na Som Livre, sob a batuta de João Araújo, pai de Cazuza – que era o presidente da gravadora. Mas os parentescos pouco ou nada influíram quando Ezequiel ouviu o som do grupo. Assim, em setembro de 1982, via a luz Barão Vermelho, o primeiro álbum da banda, que já trazia uma pedrada sonora, Todo Amor que Houver nessa Vida, incluída por Caetano Veloso em seu show à época. O álbum foi gravado em apenas quatro dias, com produção de Ezequiel. “Era algo ainda muito verde, mas ele (Ezequiel) tinha capacidade de enxergar que daria pano pra manga. Pegar um artista pronto e falar ‘quero produzir você’, é uma coisa; pegar um grupo estreante é outra. Aquilo tinha seis meses de vida e ele apostou naquilo a sua grife, o seu prestígio”. Ezequiel seguiu produzindo o grupo. Vieram Barão Vermelho 2 (1983, que tinha Pro Dia Nascer Feliz) e Maior Abandonado (1984, que além da faixa-título, incluía ainda Bete Balanço) e alavancou o Barão de vez como um dos maiores nomes do novo rock Brasil que surgia. Mas também foi durante a turnê desse álbum que o grupo sofreu a primeira ruptura. E em Santos. CazuzaA turnê de Maior Abandonado visitou praticamente cada canto do País. Foi ela, por exemplo, que passou pelo primeiro Rock in Rio, em janeiro de 1985. Entre hotéis, ônibus e aviões, os planos de Cazuza em seguir carreira solo se precipitaram. Faltando uns cinco shows para terminar a turnê, Frejat e Cazuza saíram no tapa, conta Guto. O último show da turnê foi em Santos, no mítico Caiçara Clube. “No show anterior ao do Caiçara, quando acabou, o Cazuza não ficou para o bis, foi direto para o hotel”, relembra Guto. “Então, nós combinamos de, no Caiçara, quando acabasse o show e o Cazuza descesse, a gente faria o bis sozinho. O Frejat assumiu o vocal e anunciou: ‘infelizmente, o Cazuza tá saindo da banda’”. Frejat“Essas rupturas são cruéis”, ressente-se Guto. Trinta anos depois, foi a vez de Frejat anunciar a saída definitiva. O compositor e guitarrista já tinha um trabalho solo em paralelo e teve o desejo de se dedicar unicamente a ele. Foi em 2017. “Depois de uma turnê bem-sucedida em 2015, fui falar com ele (Frejat), que me disse, ‘Gutão, eu tô a fim de sair do Barão, quero dar mais importância à carreira solo, toda vez que eu volto com o Barão eu comprometo isso, o Barão é gigante”. Guto admite a tristeza com o desejo do amigo, mas se comprometeu a não deixar a peteca cair. “Me emociono com o tesão que nós temos ainda de subir no palco e incorporar aquele personagem do rock, que vai inspirar as pessoas a buscar uma vida mais livre, com mais respeito e oportunidades. Nossa geração cantou muito isso”. E encerra: “Os desconfortos são instigadores. Estou muito feliz, fiz 60 anos, ganhei essa série, Barão 40, de presente. Estou muito feliz de estar na estrada ainda, tocando bateria, com meus amigos”.