Renata (dentro do carro) é acompanhada de perto por Amanda (do lado de fora) com aulas de direção e dicas para a retomada da confiança ao dirigir: uma amizade nasceu (Sílvio Luiz/ AT) Dirigir um automóvel, para muitas pessoas, é sinal de algo prazeroso. Porém, para outras, sentar no banco do motorista traz medo, insegurança, e um “travamento” quase irreversível. Poderia ser chamada de “volantefobia”, embora o nome correto seja amaxofobia. Mas, no caso das mulheres, há profissionais que tentam mudar esse quadro, com a eficiência de um atacante na pequena área. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! É o caso de Amanda Paola Honório, de 43 anos. Professora particular de direção, ela é filha de Antônio Wilson Honório, o Coutinho, um dos maiores jogadores da história do Santos, morto em 2019. Ela ajuda, desde 2018, mulheres que desejam se “empoderar” ao volante. Seu perfil no Instagram (@mulheres_independentes_013) tem quase 9 mil seguidores. “Eu tinha uma amiga que era gerente de uma escola que ensinava mulheres a perder o medo de dirigir. Lembro que o carro tinha pedal no lado do passageiro, Vi algumas coisas desse trabalho na escola e me apaixonei pelo processo”. Segundo ela, essa presença do pedal fazia com que muitas mulheres não adquirissem confiança necessária para dirigir um carro “real”. “A mulher precisa se sentir segura no carro que ela vai guiar. E as aulas lá naquela escola eram realizadas no carro deles. Ou seja, a aluna tinha que acabar comprando mais aula. Eu via que aquilo não daria certo daquele jeito às alunas”. Amanda calcula já ter acompanhado, pelo menos, 400 mulheres dispostas a vencer o medo de dirigir. “Meu trabalho é extremamente emocional, Porque não existe o medo de dirigir um carro, mas sim o risco envolvendo a minha vida”, explica. Método A professora de direção conta que criou um método próprio de trabalho, incluindo a escolha dos locais para a prática da direção. “Eu sempre vou até a casa da aluna, deixo meu veículo e saímos no dela. A partir daí, eu a levo a um lugar bem tranquilo, longe do fluxo de carros e pessoas. Dali, a gente vai iniciar, tanto para câmbio manual quanto automático. Fico com essa aluna numa área restrita, como o Morro Nova Cintra”. Sobre o perfil das clientes, há alunas que não dirigiam há 40 anos e outras que acabaram de sair da autoescola. Uma cliente merece especial menção de Amanda: uma idosa de 74 anos, cujo sonho dela era buscar o neto na natação. “Também queria levá-lo ao futebol e, depois, para casa. Converso com ela todos os dias”. Os pacotes oferecidos são de seis ou dez aulas. “Mas sou uma pessoa muito transparente. Se ela fala que quer seis aulas, mas sei que isso pode não ser suficiente, converso com a cliente. Não trabalho enganando as pessoas. Agora tem mulheres que vêm e compram pacote de 10 aulas. Tem alunas que precisam de mais aula, mas são minoria. Além disso, a duração da aula é de 50 minutos”. Amanda resume seu trabalho em uma palavra: compromisso. “Aqui o trabalho é sério. Quando a mulher me contrata, pergunto: ‘É o teu sonho? Então eu só preciso que você tenha comprometimento. O resto você deixa comigo, porque o seu sonho vai virar meu’. E aí, acabou. E aí eu vou para cima, estamos juntos”. A cumplicidade entre professora e aluna é digna de Coutinho e Pelé. Renata progride e “vira o jogo” A autônoma Renata de Souza Silva, de 41 anos, quer voltar a dirigir e procurou os serviços de Amanda para ajudá-la na missão. Ambas viraram amigas e, enquanto não termina as aulas, ambas colecionam histórias nesse processo de empoderamento. “Quando ela iniciou comigo, ficava 20 minutos dentro do carro. Fomos aumentando pra 25, por quê? Porque eu trabalho emocional. Já começou a fazer uma aula completa, depois duas. Hoje, ainda está no processo, mas já anda sozinha”, descreve Amanda. Renata é só elogios. “A minha relação com a Amanda se tornou uma linda amizade. Desde o meu primeiro contato, eu fui muito bem recebida. Ela me atendeu com um carinho enorme, uma atenção. Ela é uma excelente profissional, que vibra com você”, aponta. Ela é habilitada há 20 anos e chegou a andar poucas vezes, de contar nos dedos. E o fator principal era o medo de causar algum acidente. “Como tenho uma família muito presente, acabei me acomodando. Meu pai sempre estava fazendo as coisas por mim, meu esposo também. Depois de um tempo, engravidei, meu filho nasceu e eu continuava com medo, a insegurança me travava, eu não conseguia andar e aí, por causa do meu filho, cheguei a gastar R\$ 250,00 por mês em transporte por aplicativo. Até que meu filho deu o ‘clique’, lembrando que eu tinha um carro na garagem. Foi a gota d'água”. Então, Renata e Amanda se encontraram. “Ela realmente transformou a minha vida. Hoje eu consigo levá-lo para a natação, a escola. Mas há uma grande evolução”, avalia. Se na primeira aula Renata só chorava, hoje o jogo virou. “Era um sonho meu poder tirar o carro da garagem e levar meu filho para passear. É libertador”, complementa. Ter alguém de confiança é saída contra o bloqueio Sócio-proprietário da Auto Escola Detroit, Renan Alvares usa a experiência para aconselhar quem tem “volantefobia”. “A pessoa tem que dirigir ao lado de alguém que passe confiança, para que se sinta mais solto. Além disso, começar num trânsito ameno, como num domingo de manhã e, aos poucos, ir mudando”. Ele lembra que, nas aulas ao candidato à primeira habilitação, repete um mantra que também vale para quem deseja voltar a dirigir: tranquilidade e nada de pressa. “Você tem todo o tempo, ainda mais como é carro de autoescola, Mas, no trânsito, quando a pessoa está com um carro particular, sem nenhuma identificação de que ela tem fobia no trânsito, é bem complicado. Zero paciência. Por isso, é melhor começar em ambientes mais calmos”. Ele ressalta que, para quem aprende em carros particulares, a atmosfera é outra. “As pessoas não vão entender que é um recém-habitado ou tem fobia. Vai muito da cultura do condutor, de querer se esquivar, entender o que o motorista à sua frente está sentindo”, sinaliza. Outras dicas Qual a origem do medo? Ele pode vir de uma experiência ruim, falta de prática ou até pressão externa. Entender os motivos desse bloqueio ajudam a enfrentá-lo de modo mais certeiro. Adote técnicas de relaxamento O nervosismo pode provocar tensão muscular e ansiedade. A sugestão é adotar técnicas de respiração profunda antes e durante a direção para manter a calma. Busque domínio sobre o carro Pratique arrancar, frear suavemente e fazer curvas para se sentir confortável com o veículo antes de enfrentar situações mais desafiadoras. Planeje sua rota Use o GPS ou revise o caminho antes de sair de casa, para não ter surpresas e se sentir mais preparado. Não se cobre demais Vencer o medo leva tempo. Celebre cada progresso, por menor que seja, e lembre-se de que dirigir se tornará mais fácil com a prática.