[[legacy_image_171121]] Há muito tempo, os cientistas se perguntam se as espécies que habitam as cidades, como fungos, insetos, aves, répteis, anfíbios e mamíferos, são iguais aos seus congêneres que vivem no campo. Seriam os centros urbanos capazes de produzir mudanças evolutivas, assim como ocorre, por exemplo, no ambiente natural de uma floresta? Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Até hoje, dados obtidos por estudos isolados demonstravam que sim. Insetos, por exemplo, acasalam com mais frequência e desenvolvem corpos maiores nas cidades. AbrangenteAgora, uma pesquisa que envolveu mais de 280 cientistas, em 160 cidades de 28 países, corrobora essa visão e vai além: as espécies citadinas não só evoluem de forma diferente nos centros urbanos como, aparentemente, desenvolvem um padrão semelhante. Isso é o que está surgindo dos dados coletados pelo Global Urban Evolution Project (Glue, ou Projeto de Evolução Urbana Global), criado por pesquisadores canadenses e norte-americanos. Para chegar a essa conclusão, eles analisaram a genética do trevo branco, uma espécie comum tanto nas cidades quanto no campo. A comparação do genoma entre as centenas de cidades participantes revelou-se surpreendente. Os trevos encontrados na área urbana de Santa Maria (RS), um dos municípios brasileiros participantes da pesquisa, possuem características genéticas mais próximas ao trevo de uma cidade tão distante como Melbourne, na Austrália, ou Tóquio, no Japão, do que quando comparados a um exemplar de sua própria área rural. Escala globalEm outras palavras, é como se as cidades possuíssem um padrão evolutivo próprio, que dita as mudanças e diferencia as espécies, com o objetivo de torná-las mais aptas a sobreviver na selva de pedra. As implicações dessa hipótese podem alterar a forma como planejamos nossas áreas urbanas, tanto no intuito de nos proteger de futuras mutações indesejadas quanto para garantir a sobrevivência daquelas espécies que integram o meio ambiente urbano. “Sabemos há muito tempo que alteramos drasticamente o meio ambiente e os ecossistemas. Mas acabamos de mostrar que isso acontece, muitas vezes, de maneira semelhante, em escala global”, afirma o pesquisador James Santangelo, um dos líderes do novo estudo. Parte do todoPor outro lado, se os desdobramentos dessas adaptações e mutações ainda são motivo de muita controvérsia, a visão antropocêntrica nas cidades também terá que evoluir. Hoje, nos preocupamos com a qualidade do ar, da água e do solo tendo como premissa "apenas" o ser humano. E o que o estudo evidencia é que não podemos mais viver como se fôssemos algo à parte e não pedaço do todo. “As cidades são onde as pessoas vivem e essa é a evidência mais convincente de que nós estamos alterando a evolução da vida nelas”, observa Rob Ness, biólogo e um dos autores do novo estudo. Entenda a pesquisaIntitulado Global Urban Evolution Project (Glue), o estudo, criado por cientistas canadenses e norte-americanos, analisou 110 mil amostras do trevo branco (Trifolium repens), sequenciando e comparando mais de 2.500 genomas da planta. Para isso, divididos em grupos de no mínimo dois pesquisadores, eles coletaram amostras em áreas rurais e em centros urbanos. Os dados foram enviados para o Glue, que possui um site colaborativo que possibilita, inclusive, a participação de outros pesquisadores. Números mundo aforaCerca de 60% da área urbana prevista para o planeta até 2030 ainda não foi construída. Essa previsão destaca a rapidez com que as pessoas do mundo todo estão se tornando urbanas. Até 2050, prevê-se que os assentamentos e cidades no planeta inteiro aumentem de dois a três milhões de quilômetros quadrados – cerca de metade do tamanho da Groenlândia. Até 2050, quase 70% da população mundial viverá em ambientes urbanos, segundo as Nações Unidas. As cidades agora ocupam cerca de 2% da área terrestre do mundo, mas abrigam mais de 55% da população mundial e geram quase 70% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Os municípios são responsáveis por mais de 70% das emissões de gases do efeito estufa. [[legacy_image_171122]] Corujas, abelhas, borboletas...Os dados obtidos pelo Global Urban Evolution Project (Glue) chamam a atenção pela sua abrangência, mas não que ele seja o primeiro a identificar a influência das cidades na evolução das espécies. O pesquisador alemão Jakob Mueller, por exemplo, identificou respostas genéticas semelhantes em corujas-buraqueiras de diferentes cidades sul-americanas. Já outro cientista alemão, Panagiotis Theodorou, analisou 1.800 abelhas de áreas metropolitanas, constatando que, para melhor se adaptarem às cidades, elas desenvolveram corpos maiores do que seus parentes do campo. “Abelhas maiores enxergam melhor, são menos propensas a serem atacadas por predadores e podem percorrer distâncias maiores, o que é uma vantagem em uma paisagem fragmentada como a de uma cidade”, afirma Theodorou. GeneralistasNas áreas urbanas da Finlândia, Bélgica e Suécia, por sua vez, cientistas apontam que duas espécies de borboletas amadurecem mais cedo do que no campo. Isso permite que se reproduzam mais de uma vez a cada estação, ampliando suas chances de sobrevivência em resposta às condições mais quentes encontradas nas áreas construídas. Os pesquisadores também descobriram que as borboletas generalistas, que se alimentam de diferentes plantas e suportam fortes variações de temperatura, adaptaram-se melhor ao habitat urbano. EstresseOutro grupo dedicou-se às aves e comparou os genes dos chapins, uma espécie muito comum nas cidades europeias de Malmö, Gotemburgo, Madrid, Munique, Paris, Barcelona, Glasgow, Lisboa e Milão. Nelas, o processo evolucionário parece ter privilegiado genes ligados a determinadas funções biológicas, que passaram a ser transmitidos de geração em geração, diferentemente do que ocorre com o chapim no campo. “Isso indica que esses comportamentos e a cognição são muito importantes para se viver em ambientes urbanos com muito estresse, como poluição sonora, luz à noite, poluição do ar e proximidade constante das pessoas”, diz Caroline Isaksson, da Universidade de Lund, na Suécia. Para o pesquisador Marc Johnson, diretor do Centro de Ambientes Urbanos, da Universidade de Toronto, durante anos, os biólogos ignoraram os centros urbanos, vendo-os como “antivida”. “Apenas recentemente começamos a perceber que as cidades são agentes de mudança, impulsionando a evolução dos organismos que vivem ao nosso redor e até de alguns que vivem em nós”. Bom ou ruim?A premissa de que as cidades poderiam ser consideradas um ecossistema traz boas e más notícias. “Entender o que torna algumas espécies mais capazes de tolerar as cidades ajudará os pesquisadores a prever como a biodiversidade responderá à medida que as cidades continuarem a se expandir”, afirma Ferran Sayol, da Universidade de Gotemburgo (Suécia). Segundo ele, “as espécies que podem tolerar as cidades são importantes, porque são aquelas com que a maioria dos humanos terá contato em suas vidas diárias”. Mas (e sempre há um mas) esse processo também pode favorecer insetos transmissores de doenças. Daí a importância desses estudos e da adaptação das cidades para que essa evolução não torne o ambiente urbano ainda mais insustentável.