[[legacy_image_194222]] O Titãs surgiu em São Paulo em plena década de 1980, quando o País passava pelo processo de redemocratização e o rock nacional fervilhava. De lá para cá, a banda perdeu integrantes, encarou mudanças significativas não só na indústria da música como em suas vidas pessoais e continuou sendo relevante e inspirando gerações. Na próxima sexta-feira, estreia no catálogo do streaming Star+ episódio da série documental Bios. Vidas que Marcaram a Sua dedicado aos 40 anos do Titãs. Na entrevista, os atuais membros da banda – Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto – falam do documentário, do álbum que vão lançar em setembro e revisitam memórias da longa e bem-sucedida trajetória. Como foi revisitar, para o documentário, as memórias dos 40 anos de trajetória da banda? Tony Bellotto: Foi algo emocionante e, ao mesmo tempo, revelador, porque no documentário, além da gente, há ex-integrantes, jornalistas e produtores musicais falando dos mesmos fatos. Essas visões diferentes me fizeram, inclusive, rever certas opiniões e percepções. Sérgio Britto: Também tivemos a chance de visitar lugares aos quais não íamos há muito tempo, como o pátio do Equipe, colégio de São Paulo onde, de certa maneira, começamos a banda, e o teatro da Biblioteca Municipal e o Sesc Pompeia, locais onde fizemos os nossos primeiros shows. Branco Mello: Durante as gravações, acabei recordando coisas das quais não me lembrava mais. Sempre achei o Titãs uma banda única, diferente de todas as que conheço, devido à sua formação e ao fato de todos os integrantes serem compositores. Sem contar que já tivemos cinco cantores. Não é fácil encontrar algo igual. Como foi administrar tantas mudanças na formação da banda durante os anos e, ao mesmo tempo, as camadas novas que foram surgindo nas suas vidas: família, filhos, projetos individuais etc.? Britto: O segredo, na minha opinião, é ter a disposição para se manter em constante transformação e saber que as coisas não necessariamente devem permanecer as mesmas sempre, tanto na banda quanto na vida pessoal. Hoje, nós temos filhos, netos, casamentos desfeitos, refeitos e por aí vai. Uma lição que fica é tentar lidar com o imprevisível, com o improvável, e se adaptar a ele com alegria. Tony: A nossa relação no Titãs não deixa de ser um casamento, até mais antigo do que os relacionamentos com as nossas mulheres. Nós mantemos ligação intensa, sólida, mas estamos abertos e sujeitos a mudanças, como o Britto falou. E sentimos prazer em fazer música e viajar com os shows, mesmo com aspectos negativos como um voo atrasar e você perder o aniversário de um filho. Para mim, é claro que, nestes 40 anos, a essência da banda não se perdeu. Branco: Conseguimos superar as dificuldades com criatividade, cumplicidade e amizade. Você não aprende isso de repente, leva tempo, envolve um processo de amadurecimento. Mas tenho consciência de que a gente continua aprendendo a lidar com as adversidades que a vida e a carreira nos impõem. E a relação com os ex-integrantes, está como? Tony: Nós mantemos um relacionamento bem civilizado e afetivo. Até porque não começamos como um projeto profissional e, sim, como uma paixão compartilhada por amigos, que sempre se admiraram e respeitaram. A gente jamais faltou o respeito uns com os outros, ao passo que houve bandas que enfrentaram brigas terríveis. Mas é claro que já tivemos as nossas divergências e decepções uns com os outros. Mesmo assim, todos nós continuamos conversando e mantendo contato. A nossa convivência é muito boa. Alguns até chegaram a fazer parcerias e contribuíram com os trabalhos dos demais. Britto: A concorrência que existia e existe entre nós sempre foi algo saudável e fez com que evoluíssemos. Também há o seguinte ponto: ninguém nunca teve uma posição privilegiada na banda. Sempre vingou quem trouxe a melhor ideia, a mais sedutora. Como é a sensação de, hoje em dia, serem um trio? Tony: A cada membro que sai, a gente fica com a sensação de que talvez tudo vá acabar naquele momento, de que aquilo talvez seja o que faltava para o grupo ruir. Mas aí acontece uma coisa que não é racional, muito menos objetiva. Pinta um instinto de sobrevivência e decidimos seguir adiante. Acho que a banda tem uma força, uma entidade coletiva que se sobrepõe às nossas individualidades. Isso, às vezes, surpreende até a nós mesmos. Branco: A morte do Marcelo (Fromer, aos 39 anos, após ser atropelado por uma moto em 2001) é a parte mais terrível da nossa história. Foi muito difícil conseguir superar a perda dele. Se pudessem mandar um recado para vocês lá atrás, quando começaram a banda na adolescência, qual seria? Britto: Eu diria para a gente, em hipótese nenhuma, abrir mão de fazer a música que nos agrada, que nos satisfaz. Sempre nos mantivemos fiéis a isso, e as gravadoras e os produtores compreenderam essa nossa postura. Ok, temos trabalhos muito bem-sucedidos, só que outros também não fizeram tanto sucesso assim e alguns até foram ruins. Só que todos acabaram sendo erros e acertos nossos. É uma sensação maravilhosa, depois de 40 anos de estrada, saber que você se expressou como realmente quis. Branco: E é óbvio: uma coisa ou outra, nós poderíamos ter facilitado. Mas não existe arrependimentos entre nós, definitivamente faríamos tudo de novo. Tony: Até porque algo que aparentemente foi um erro, dependendo do caso, nos proporcionou coisas interessantes. Portanto, eu não mexeria em nada na nossa história. O que o público pode esperar do Titãs daqui para frente? Tony: Recentemente, disponibilizamos o single Caos, que foi escrito especialmente para nós pela Rita Lee, pelo Roberto de Carvalho e pelo Beto Lee, e que fala do nosso momento político atual. Vamos lançar um disco novo, em setembro, que terá essa faixa e mais outras 14 músicas inéditas. Essa foi a forma mais satisfatória que encontramos para comemorar os nossos 40 anos de carreira. Também queremos viajar com um show, reunindo o antigo com o novo repertório. A perspectiva de fazer coisas novas nos motiva. Branco: Vale dizer que Sonífera Ilha, a primeira música que lançamos, é algo que sempre tivemos prazer de tocar. Essa canção nunca saiu do nosso repertório e já passou por vários arranjos e cantores. Eu a considero um marco na nossa história.