[[legacy_image_217056]] Há poucas semanas, um grupo de cientistas alemães anunciou que a Terra possui 20 quatrilhões de formigas (20.000.000.000.000.000), algo em torno de 3 milhões delas para cada um de nós. O meu primeiro pensamento diante desse dado teve a ver com a complexidade do trabalho realizado. Pela última contagem, foram 13.379 espécies, de um total estimado em mais de 30 mil. A desafiadora tarefa remeteu a um texto oriental muito antigo. Nele, o personagem, um mercador, decide contar até o fim dos números. Com o foco em acumular riquezas, a sua ambição é submeter o infinito ao domínio humano. Só quando a razão o deixa humilde, a ponto de aceitar a impossibilidade da empreitada, o mercador tem uma súbita visão. Ele enxerga além do óbvio e acaba vendo a alma dos números. Comparações, perspectivas, correlações, previsões e inúmeras possibilidades, sem as quais imperava apenas o exercício de um raciocínio excludente. Portanto, vale ponderar: as formigas, apesar de quatrilionárias, não são a maior biomassa do planeta. Já nós, humanos, equivalemos a uma ínfima parte de tudo que vive na Terra. Mas, atenção: isso se considerarmos só a massa corporal. Quando somamos todos os bens produzidos, incluindo resíduos, superamos plantas, fungos, répteis, crustáceos, moluscos, aves, mamíferos, as formigas e demais matérias orgânicas. Ou seja, tudo. Curiosamente, os números, em sua essência, são representação da diversidade e demonstram isso em sua infinitude sem igual. Mais curiosamente ainda, quando o ser humano faz suas análises matemático-econômicas, invariavelmente exclui todo o resto e, em muitos casos, a si mesmo. É o que percebe o mercador do antigo texto oriental. A estatística da formiga, diria ele, não tem relação apenas com números, assim como a missão do mercador não se resume a contar. Ela faz parte da equação humana, que, por sua vez, não está apartada da natureza. Sem essa plenitude, ficaremos relegados às armadilhas dos números sem alma. De modo que o que resta é tão somente contar. IncalculávelAs plantas dominam a biomassa planetária. Respondem por 82% dela, bem à frente das bactérias, com 13%. Só aí vem o reino animal, com os fungos (5%). E o ser humano? A massa da humanidade é menor do que a dos insetos e também a dos crustáceos. É inferior aos aracnídeos, perde para os peixes e até para as minhocas – e as formigas, lógico, que, aliás, não são as mais numerosas. Sim, os cientistas fizeram essa conta e o posto caberia às minúsculas pulgas de jardim (foto). Nenhuma dessas criaturas, obviamente, contabiliza nada disso. Mas, se o fizesse, saberia que desde o aparecimento do sapiens 80% das espécies de mamíferos marinhos, 15% no caso dos peixes e 50% das plantas desapareceram. Essa conta, diferentemente dos números, não é infinita, mas o custo, incalculável.