Ser uma mulher madura e sem par ainda causa estranhamento (Adobe Stock) A associação da felicidade ao amor romântico estruturou todo o conto de fadas urbano que me foi contado, da infância à juventude. “Um dia você encontrará um homem que fará você feliz por toda a vida”. Foi isso que me disseram meus pais, minhas avós, avôs, tias, tios, primos, primas, as primas dos meus pais, os tios dos meus pais, as professoras, as amigas da minha mãe. “Quando casar passa” sempre foi uma frase recorrente para qualquer situação, como se o estado civil pudesse curar tudo. O sonho de ser par alimentou não só a minha, mas a vida de muitas mulheres, colocando o casamento como meio de realização pessoal, quase uma espécie de vocação inata, um destino social. Como uma reza, uma pregação, só a família seria capaz de nos salvar. Ser uma mulher madura e sem par ainda causa estranhamento, e a sociedade faz questão de lembrar que essas mulheres não se enquadram no modelo desenhado séculos atrás. Toda vez que encontro alguém que não vejo há algum tempo, em poucos segundos encaro a mesma pergunta: “Casou?”. O termo solteirona foi encontrado pela primeira vez na Europa do século 17. Mulheres não casadas ganharam essa classificação porque, com o desenvolvimento capitalista, passaram a ser consideradas um fardo, pois davam prejuízo ao “sistema”. O mesmo ocorreu no século seguinte nos Estados Unidos. Classificavam de spinsters as mulheres que nunca se casaram e que dependiam financeiramente de suas famílias. Mas foi no final do século 19 e começo do 20 que as mulheres solteiras foram consideradas um verdadeiro problema social na América e na Europa. Não só porque tinham que ser sustentadas, mas pelo fato de serem vistas como uma ameaça à família, pois traziam insegurança aos casamentos. No Brasil, a partir do final do século 19, “a solteirona” emergiu na literatura, e, no século seguinte, nas telenovelas. Mas, sinceramente, não preciso recorrer à literatura para sinalizar que uma mulher solteira sofre ainda grandes preconceitos. Uma mulher sem um homem tem “algum problema”, “falta algo”, “não foi escolhida”. Ainda sofremos hostilidade das próprias mulheres (veja só) receosas de que seus maridos “sejam roubados”. Hoje, porém, não damos prejuízo ao sistema, somos autônomas, escolhemos nossos pares, assim como decidimos nos manter solteiras se esses pares não nos satisfizeram suficientemente para decidirmos compartilhar uma vida a dois. Estamos em 2024, século 21. Até quando seremos consideradas um “problema” e o “solteirão” galanteador, tóxico, complicado emocionalmente, usurpador financeiramente e violento, um desejo nacional? Desse jeito, quando casar, talvez não passe.