[[legacy_image_190606]] Um espetáculo de luzes e som está prestes a tomar conta do maior e mais importante sítio arqueológico de todo o continente americano. Após dois anos de pandemia, a Ópera da Serra da Capivara volta a ser encenada agora em julho. Lá, a cerca de 600 quilômetros de Teresina (PI), espalhados por uma área de 130 mil hectares (cerca de 190 mil campos de futebol), encontram-se mais de 1,3 mil registros pré-históricos da presença humana – alguns com mais de 50 mil anos –, que compõem o Parque Nacional da Serra da Capivara. A sua existência é o resultado da tenacidade da arqueóloga franco-brasileira Niéde Guidon. Perto de completar 90 anos, ela lutou praticamente sozinha, ao longo de décadas, para construir o Museu do Homem Americano. Amor Até hoje, os seus estudos atraem especialistas do mundo inteiro. Alguns deles desafiaram (e já derrubaram) determinadas teorias sobre como se deu a ocupação das Américas. Nos paredões dos cânions, grutas e cavernas do parque, os visitantes se deparam com milhares de pinturas rupestres que retratam desde cenas abstratas até instantâneos congelados no tempo. São desenhos de lagartos, emas, tatus e macacos, além de armadilhas de caça e figuras geométricas. Mas o destaque são as várias reproduções de humanos – dançando, lutando, brincando, caçando, dando à luz e fazendo amor. Pouco se sabe sobre esses habitantes. Estima-se que eles perambularam pela região ao longo de milhares de anos, dividindo o espaço, em certo período, com a chamada megafauna – animais como a gigantesca preguiça de quatro toneladas. Imperdível A Ópera, que consiste em um show musical acompanhado de canhões de luzes coloridas, é tanto uma homenagem a esses paleoíndios quanto uma forma de atrair o público e garantir a continuidade do trabalho científico no local. O lugar é tão emblemático que uma reportagem do The New York Times, publicada em janeiro deste ano, listou o parque como o único destino brasileiro entre 52 lugares no mundo para se conhecer, classificando-o como “imperdível”. Diferentemente da maioria dos sítios pré-históricos espalhados pelo mundo, no Parque Nacional da Serra da Capivara a maioria das pinturas encontra-se ao ar livre, sujeitas não só a intempéries como também ao vandalismo. Espírito Niéde, do alto dos seus 1,50 metro, soube enfrentar não só a falta de apoio e a destruição como, inclusive, a descrença de parte da comunidade científica internacional, que ainda hoje desafia os achados em prol de outras teses, muitas delas abrigadas em grandes e poderosas universidades estrangeiras. Por tudo isso, a Ópera da Serra da Capivara, que será encenada no último final de semana deste mês, é um alento para a combalida ciência nacional, que vê os seus já diminutos recursos serem carreados para toda sorte de fins nada nobres. Enquanto a internet nos brinda com sandices como a hipotética cidade perdida de Ratanabá, o show noturno no Parque Nacional da Serra da Capivara sintetiza o espírito da Ciência, encarnada na já mítica figura de uma mulher, cientista e brasileira. Megafauna Um estudo brasileiro propõe, pela primeira vez na América do Sul, que algumas pinturas na Serra da Capivara representam animais da extinta megafauna, como o gliptodonte, que lembra um tatu gigante com até 800 quilos, dois metros de comprimento e 1,5 metro de altura. O autor da teoria é o pesquisador Iderlan Souza, que nasceu próximo ao Parque Nacional da Serra da Capivara, mas só foi conhecê-lo aos 18 anos, pois a família não tinha dinheiro para pagar as excursões que a escola realizava ao local. Filho de uma lavradora, primeiro atuou como guia e depois como arqueólogo, hoje com especialização em Portugal. Niéde Guidon, que acompanhou as pesquisas, busca atrair outros jovens da região.