O ator Luiz Bertazzo (Caio Lírio/Divulgação) Ator Luiz Bertazzo fala sobre o sucesso do filme Ainda Estou Aqui, a expectativa de indicação do longa ao Oscar e o desafio é que ser artista no Brasil Indicado na última semana ao prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa do tradicional Globo de Ouro, o longa Ainda Estou Aqui segue causando frisson entre o público e no mundo da sétima arte. Não à toa, o filme ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza, na Itália, e surge como a maior chance de indicação brasileira ao Oscar em mais de duas décadas. Interpretando o antagonista Schneider, que representa a ditadura, o ator Luiz Bertazzo comemora o sucesso do longa, que conta com nomes como Fernanda Torres e Selton Mello, e elogia a direção de Walter Salles, que o cativou pela relação criada com o elenco. Ao Domingo+, ele fala sobre a expectativa da indicação do filme ao Oscar 2025 e as dores e delícias da vida de ator. Quando você aceitou o convite para interpretar o Schneider, imaginava que o filme Ainda Estou Aqui fosse ter tamanha repercussão? Fiz um teste e a seleção de elenco foi da Letícia Naveira, com quem já tinha trabalhado nas Five, no Globoplay. Quando passei no teste, fiquei muito feliz, mas quando li o roteiro do Murilo Hauser e do Heitor Lorega, adaptado do livro do Marcelo Rubens Paiva, notei que havia muita força nas imagens e na história de Eunice Paiva, refletindo questões importantes de serem discutidas no Brasil de hoje. O filme é extremamente atual em suas abordagens políticas e emocionais. Creio que a repercussão ocorra por isso. Mas, apesar de ser um filme que evoca muitas memórias, ele não é um retrato do passado, ele tem um poder absurdo de sensibilizar pessoas no País, que recentemente viveu uma espécie de embrutecimento. Como foi trabalhar com Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello? Eu, que venho conquistando alguns espaços no cinema, vejo o fato de estar num time desses algo como flertar com o Olimpo. O Walter me fez descobrir o cinema brasileiro com 13 anos. Eu era obcecado pelo filme Central do Brasil na época, e quando o conheci e me deparei com sua profunda gentileza no set, propondo uma relação totalmente horizontal com o elenco, entendi que teria chance de mostrar meu trabalho, sem ficar nervoso ou intimidado com os grandes nomes com quem contracenaria. Mas é óbvio que quando a Fernanda chega, as pernas tremem, e não por nenhuma atitude dela, porque ela mesma não está preocupada em ocupar pedestal nenhum, o que só faz aumentar a admiração, mas pelo que vem antes, pelo respeito e pela admiração que tenho pela trajetória dela. Foi uma aula de atuação contracenar com a Fernanda. Quando ela olhou para o que eu estava criando e começou a jogar com isso, o Schneider nasceu. Foi ela quem me deu a personagem em cena. E o Selton, apesar de nossa cena ser muito rápida, também é sensacional. Como foi a composição do Schneider? Primeiro fiz uma leitura emocionante do livro Ainda Estou Aqui, do Marcelo Rubens Paiva. Isso já seria o suficiente, pois estava tudo ali, o filme, o estofo da história e a grandeza de Eunice. Quando se tem a dimensão da importância da história que vai ser contada, fica mais fácil atuar, pois isso lhe dá um objetivo, e a escuta do que direção propõe dá conta de instrumentalizar todo o processo. A preparação foi de Amanda Gabriel, uma artista muito sensível, que consegue te colocar no caminho certo, com a visão de todos os personagens. O tema da ditadura é muito presente na minha vida artística, já fiz e vi muito espetáculo sobre e escrevi um longa-metragem, Casa Izabel, que tem esse período como contexto histórico. É um tema meio caleidoscópio, que pode ser abordado de várias maneiras. Meu processo foi entender como seria feito no contexto do filme e o que entendi é que seria no âmbito da subtração, falando sobre aquilo que não era dito, sobre as lacunas e ausências que a ditadura deixou. Como sua família viveu a ditadura militar? Minha família felizmente não foi vítima do regime de maneira direta, porém cresci ouvindo sobre a barbárie. Meus pais são conscientes politicamente, minha mãe lia o Pasquim na juventude e passou para a gente essas ideias de liberdade. Também estudei numa escola onde esses valores eram amplamente difundidos. Para mim, foi chocante quando nos últimos anos eu me deparei com pessoas negando a ditadura, pois eu tinha esse período histórico como algo concreto. Qual a expectativa em relação à divulgação da lista dos indicados ao Oscar? O que tem acontecido com o filme é uma conquista enorme, pois no momento já passamos de 2 milhões de espectadores. Isso é motivo para celebrar muito. Ver esse movimento das pessoas indo ao cinema, depois de uma pandemia que nos enclausurou, em que nós artistas ouvimos que não faríamos mais nossa arte de forma presencial. O reconhecimento do cinema nacional é maior que qualquer prêmio, mas não vou negar que estou torcendo e muito pelas indicações, porque o filme merece e sou brasileiro. Sinto que temos algumas contas a acertar com a Academia (risos). Como foi seu início na carreira de ator? Eu nasci em Corumbá (MS), onde não há teatro nem cinema até hoje. Mas eu sabia desde criança que queria ser ator. Tenho memórias minhas fazendo cenas no chuveiro, reproduzindo aquilo que eu via na TV, que era o que me chegava como registro de atuação. Na adolescência, entrei num grupo de teatro e foi minha confirmação. Ser ator de teatro virou meu ofício, fui fazer a Faculdade de Artes Cênicas em Curitiba (PR) e fiquei 18 anos dentro de uma mesma companhia de teatro que me formou como artista. O cinema é algo recente na minha vida, que tem me despertado paixão também. No começo, era muito estranho não ter a plateia “in loco”, mas eu sou muito curioso pelo ofício e estou descobrindo como jogar com ela, ainda que a meses de distância do ‘encontro’. O que você projeta para sua carreira nos próximos anos? Desde que me mudei para São Paulo, há três anos, me afastei um pouco dos palcos para me dedicar ao audiovisual e sinto falta do dia a dia da montagem de um espetáculo. Do ensaio contínuo, das descobertas que só o teatro oferece. Tenho feito essa projeção de voltar aos palcos, mas acho que vai acontecer naturalmente, pois é a base do meu trabalho. Tenho muitas vontades, pois além de atuar, eu escrevi alguns roteiros. Fortalecer esse meu lado é algo em que tenho investido, quem sabe um dia eu possa assinar uma série em que atue também. Fora isso, tenho um roteiro que se passa na minha cidade em Corumbá, que está em desenvolvimento e que vou dirigir. O desafio é não criar expectativas, pois já estou cheio delas. Como é ser um profissional do mundo artístico no Brasil? É clichê dizer isso, mas é um trabalho árduo e nem sempre gratificante, pois o artista no Brasil vive uma dicotomia: ao mesmo tempo em que é exaltado, acaba desmerecido em termos de políticas públicas, orçamento, continuidade do trabalho. É difícil traçar um plano de carreira quando você depende de projetos sazonais, não é como entrar numa empresa e ser promovido até a aposentadoria. Para você ter uma ideia, o trabalho de ator nem existe no Microempreendedor Individual (MEI). Quando eu era MEI, tinha que emitir nota como humorista ou contador de história, pois não havia nem o reconhecimento da profissão. Em âmbito geral, as pessoas gostam de ver um artista prosperando, sentem empatia. A gente se mobilizou para bombar a postagem da Academia de Hollywood na foto da Fernanda Torres porque sentimos orgulho dos nossos talentos. Qual a fórmula que você usa para desconectar quando está de folga? Não sei muito diferenciar um dia de folga de um dia comum, pois quando estou um tempo parado, já começo a ter um comichão, uma vontade de escrever alguma coisa, e acabo nos meus dias de folga consumindo cinema, show, teatro. Acho que vivo um pouco isso em tempo integral, então quando desconecto, na verdade, é quando eu durmo. Mas lugares que me fazem bem são o mato, a praia, o mar. Sou muito feliz ao ar livre. Sempre que dá, procuro caminhar no parque, pisar um pouco na areia. É um papo meio bicho-grilo, mas realmente me faz bem. Beirando os 40 anos, descobri um hobby, que é a fotografia analógica. Todo o processo me encanta, escolher o que fotografar, aguardar a revelação. Isso tem liberado minha endorfina.