(Adobe Stock) Embora o conceito de felicidade seja, por definição, oposto ao que implica a palavra tóxica, especialistas apontam que essas duas ideias podem frequentemente caminhar juntas. “A felicidade tóxica é essa cobrança e expectativa de que temos que estar sempre felizes, ignorando as emoções negativas e as possíveis complexidades do nosso dia a dia”, explicou o psicólogo e doutor em neurociência Daniel Gontijo. De acordo com uma pesquisa realizada em 40 países e publicada na revista científica Nature, a pressão social para ser feliz está associada a uma queda do bem-estar individual, especialmente nos países com índices elevados de felicidade coletiva. Essa “felicidade tóxica” costuma funcionar na base do discurso motivacional. Ao expressar sentimentos negativos, as pessoas são frequentemente confrontadas com “vai ficar tudo bem”, “nada é por acaso”, “vejo o lado bom disso” e outros tipos de discursos ligados à “positividade” que colocam o sofrimento no lugar de escolha, e não como algo que deve ser sentido e enfrentado. Em um mundo cada vez mais conectado, as redes sociais exacerbam essa pressão para ser feliz e ignorar os sentimentos que fogem do ideal de felicidade. Postagens de momentos felizes e vidas ‘perfeitas’, dentro daquele famoso lifestyle, acabam contribuindo com uma dificuldade para admitir e administrar sentimentos comuns como tristeza, raiva ou frustração. De acordo com Gontijo, que também é fundador do Instituto Ponto Azul (IPA), isso cria uma armadilha perigosa, pois as redes sociais apresentam apenas um recorte da realidade, onde as pessoas só mostram momentos felizes, ocultando suas vulnerabilidades. “As pessoas começam a se culpabilizar e culpabilizar o outro por algo completamente natural, que é sentir. Além disso, começam a se questionar: ‘e se eu vivesse como fulano ou sicrano?’”, disse Gontijo. “Nós somos uma espécie social, e as emoções, inclusive as negativas, têm uma função. A tristeza, por exemplo, sinaliza que algo não vai bem e que talvez precisemos de ajuda ou de um tempo para refletirmos melhor sobre aquele momento”, completou o psicólogo. Outro problema comum associado à felicidade tóxica é a influência de fórmulas mágicas espalhadas pelas redes sociais, com motivações muitas vezes comerciais. “Há muita pseudociência e mitos perigosos disseminados na internet. Essas pessoas se colocam como gurus, prometendo uma felicidade inabalável, riqueza, sucesso profissional, mas não mostram suas fragilidades por trás das câmeras”, destacou Gontijo. De acordo com os especialistas, ao invés de ignorarmos os sentimentos classificados como ‘ruins’, precisamos olhar para eles de forma mais cuidadosa. Apesar da felicidade não ter um ‘script’, colocar essas emoções negativas debaixo do tapete implica em um falso bem-estar. Em alguns casos, inclusive, pode ser necessário buscar ajuda médica. “Se essa tristeza está muito frequente, intensa, impactando nos nossos papéis sociais, no trabalho, no relacionamento amoroso ou até coisas básicas como se divertir, se alimentar, ou dormir, nós precisamos buscar ajuda profissional. Isso não deve ser encarado como fraqueza, mas como algo que todos nós estamos sujeitos”, destacou Gontijo. 4 sinais para identificar 1. Comparações As comparações são muito comuns por servirem como tentativa de amenizar a dor. Citam exemplos que, numa “escala de sofrimento”, podem ser classificados como piores que seus problemas, algo que, na teoria, deveria te deixar mais contente. 2. Sugestões para pensar positivamente Outra prática comum da positividade tóxica é insistir que é possível ser feliz o tempo todo. Basta sorrir, mostrar alegria, pensar nas coisas boas e praticar algum autocuidado como forma de acabar com a tristeza. 3. Frases prontas Frases como “não desista”, “vai ficar tudo bem” e “você vai conseguir”, mesmo sendo muito comuns quando queremos torcer por alguém, costumam ter efeitos negativos se usadas num contexto em que não há empatia. Tudo depende da situação, claro, mas vale se questionar: o quanto sua frase pode ajudar naquele momento? Se ela não provocar efeito, talvez não seja necessária. 4. Invalidação A expressão “pelo menos” costuma estar atrelada à invalidação. Sabe quando você diz que não aguenta mais seu resfriado e vem uma pessoa com o “pelo menos você está viva”? Isso tende a gerar culpa por não ter praticado a gratidão e valorizar as coisas boas da vida, mas, na verdade, você só estaria reprimindo suas emoções e suas dores. Praticar a gratidão é importante e é positivo lembrar das situações boas que aconteceram no dia para estimular seu bem-estar, desde que isso não apague outras emoções que você sentiu. Fonte: Gupy (Guia de Profissões)