[[legacy_image_194270]] Minérios, ossos, insetos, conchas, cascas e carvão. Triturando esses e outros materiais, o ser humano começou, há 50 mil anos, a criar cores. Hoje, existem tantas tonalidades quanto os nossos olhos conseguem captar. Algumas, porém, sempre foram difíceis de obter, como o azul, oriundo de raras jazidas, isoladas e distantes. Um desses métodos mais antigos de que se tem notícia vem do Egito dos faraós. De lá, até o início do século 18, um grama de azul valia tanto quanto ouro. Foi quando uma sucessão de erros trouxe fama e fortuna a um teólogo alemão praticante de alquimia e a um suíço produtor de cores. Uma amostra esquecida em laboratório e inadvertidamente contaminada com sangue animal deu origem a uma reação que fez surgir um azul fácil e barato de se obter. Foi em Berlim, então capital da Prússia. Poucos anos depois, o exército prussiano foi o primeiro a usar um uniforme azul – daí seu nome para o mundo: azul da Prússia. O processo, melhorado, barateado e reproduzido desde então, ganhou a arquitetura, as telas de pintores famosos, tecidos, louças, livros e toda sorte de produtos que hoje cercam o nosso cotidiano. Com o tempo, a Ciência deu versatilidade à receita, que se desdobrou tanto em gases venenosos, utilizados na Segunda Guerra Mundial, quanto em drogas capazes de tratar pacientes contaminados por metais radioativos. E foi um processo semelhante ao usado pela Medicina que fez a história do azul da Prússia dar outra guinada; dessa vez para resolver um desafio bilionário. Essa proeza foi obtida recentemente por cientistas japoneses, que utilizaram a nanotecnologia para desvendar a fórmula em seu nível molecular. Para surpresa dos próprios pesquisadores, eles perceberam que os átomos desse pigmento formam uma espécie de rede, capaz de “arrastar” consigo ouro, prata e platina. Essa peculiaridade é ideal para capturar esses e outros metais preciosos, que se encontram tão incrustados nos microcircuitos eletrônicos, a ponto de tornar-se quase impossível o seu reaproveitamento. O novo método, todavia, é tão eficiente que aumenta em até 80 vezes a capacidade de retirar essas ligas dos aparelhos, um ganho que pode representar cerca de R\$ 300 bilhões ao ano. O feito, que já atrai a atenção da indústria, promete aumentar o interesse na reciclagem dos eletroeletrônicos, reduzindo, pelo menos em parte, a demanda pelos minérios. Mas não termina aqui. Um outro desafio, ainda mais difícil, também se mostrou possível. O mesmo método revelou-se capaz de reciclar os metais preciosos presentes em resíduos nucleares, um novo desdobramento nessa curiosa e milenar história. Curiosas origens Na Roma do imperador Nero, há pouco mais de 2 mil anos, a cor roxa só podia ser utilizada pelos nobres, sob pena de morte. O tom era obtido a partir de caramujos da espécie Murex, originários do Mar Mediterrâneo. Hoje, muitos pigmentos ainda são extraídos quase da mesma forma. O carmim, por exemplo, é feito com a maceração de cochonilhas, insetos encontrados em cactus nas Américas do Sul e Central. Esse corante entra na produção de alimentos como refrigerantes, iogurtes, biscoitos e sorvetes. Na natureza, o inseto usa o ácido carmínico, que compõe quase um quarto do peso da cochonilha (que tem de 3 a 5 milímetros de comprimento), para afugentar predadores.