Ponto mais forte é o talento do elenco liderado por Fernanda Torres (Divulgação) Em um mundo fraturado, onde as pessoas só acreditam no que confirma o que já pensavam, e onde verdade ou mentira independem dos fatos, talvez o filme Ainda Estou Aqui não tenha o efeito transformador que teria em outros tempos. Ainda assim, a obra de Walter Salles, em cartaz nos cinemas da região e representante do Brasil no Oscar 2025, é mais do que necessária, especialmente em um momento em que se descobrem ecos da ditadura em quem trama contra nossa democracia. Baseado na obra de um de nossos grandes autores, Marcelo Rubens Paiva, o filme amplia uma história real que seus leitores conhecem desde seu primeiro livro, Feliz Ano Velho: o desaparecimento de seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar brasileira, em sua fase mais nefasta. O filme vai além, mostrando o antes (a vida aparentemente banal de uma família carioca de classe média alta) e o depois, com a mãe, Eunice, e uma das filhas sendo interrogadas em um lugar de pesadelos, em meio à tortura e à morte. Vêm, então, os dias seguintes, os meses e os muitos anos de luta de Eunice pela verdade sobre o desaparecimento — e morte — do marido, incluindo o reconhecimento oficial do governo de que ele morreu sob sua guarda, por meio da certidão de óbito. E termina com uma cena que justifica o título do filme e que tem em nossa maior estrela, Fernanda Montenegro, sua protagonista/coadjuvante de luxo em um momento de brilho máximo. Aliás, o título do filme, que se deve a uma frase da verdadeira Eunice, tem muitas interpretações possíveis. O ponto mais forte do filme são o carisma e o talento de seu elenco, liderado por uma Fernanda Torres a quem só cabem elogios e o reconhecimento da enorme atriz que ela é. Some a isso gente do calibre de Selton Mello, Daniel Dantas, Dan Stulbach e um elenco infantil surpreendente. E aí entramos na maior polêmica: o Oscar inédito, que nunca veio para o Brasil, seja na categoria de Filme Internacional, Atriz ou em qualquer uma das outras seis categorias nas quais a Sony, distribuidora internacional do filme, inscreveu a obra. Difícil dizer se a vitória do filme seria merecida sem assistir a todos os concorrentes. A pressão popular, com as impressionantes quase 3 milhões de curtidas na foto de Fernanda Torres publicada no Instagram da Academia, nunca fez diferença antes. Mas a Academia, desde 2020, é verdadeiramente outra, com a abertura para novos associados votantes de todo o mundo. Então, tudo pode acontecer. Um detalhe histórico: a última vez em que Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e Selton Mello estiveram juntos em um filme foi em 1997, em O Que é Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, que foi o último longa brasileiro a conquistar uma vaga entre os cinco finalistas do Oscar de Filme Internacional. Será que a mágica vai se repetir? Antes do Oscar, que só acontece em março de 2025, devemos ouvir muito sobre o filme, tanto na agenda dos festivais quanto em uma possível e bem provável exibição na TV Globo. A obra, uma das produções do Globoplay, pode ser remontada em formato de série, com novas cenas incluídas e dividida em capítulos. Seria ótimo ver um filme brasileiro levar o prêmio e, mais ainda, tornar realidade a jornada de "vingança" da filha que, décadas depois, toma o prêmio que foi “roubado” da mãe. Mas cabe a reflexão: embora uma vitória no Oscar seja um belo reconhecimento e também represente possíveis chances em Hollywood para todos os envolvidos, um Oscar — ganho ou perdido — não torna nem o filme nem as interpretações de nossas Fernandas melhores. A potência do filme é a mesma, com ou sem o prêmio. Se ainda não assistiu, não perca. Não é um tema fácil, mas é fundamental conhecer a história de um Brasil que não pode permitir retrocessos. Ainda Estou Aqui é estratégico no resgate de nossa história e, como obra de arte, digno do orgulho de qualquer brasileiro!