[[legacy_image_337934]] De cascas de frutas a bitucas de cigarro. De algas a cactos. Onde você menos imagina, aquilo que aparentemente não tem qualquer utilidade pode ser reinventado, gerando produtos que vão da construção civil à moda, duas das atividades humanas que mais impactos negativos causam ao meio ambiente. Roupas e tecidos usados, por exemplo. Com esse insumo, uma pesquisadora francesa desenvolveu tijolos resistentes ao fogo e à umidade. A Fabrik, como foi batizada a empresa, já produziu quase 50 mil unidades, que ainda possuem a característica de isolamento térmico e acústico. Por ano, estima-se que 5,5 bilhões de peças de vestuário são produzidas anualmente. No Brasil, no mesmo período, quase 10 milhões de itens chegam ao mercado. Menos de 5% têm algum tipo de reciclagem ou reaproveitamento. De acordo com um estudo do Parlamento Europeu, o setor têxtil foi a terceira maior fonte de degradação de água e uso de terra no mundo. Encontrar opções é uma necessidade e um dos caminhos é buscar opções ao algodão e às fibras sintéticas. Com essa realidade em mente, a brasileira Thamires Pontes criou uma fibra têxtil sustentável a partir de algas marinhas. Esses organismos possuem a maior taxa de reprodução no planeta. Ao demonstrar a viabilidade de transformar as algas em fibras para a indústria têxtil, Thamires ganhou o prêmio Global Change Award 2023, considerado o Nobel da moda. Hoje, apenas as roupas contribuem com mais de 30% do microplástico presente dos oceanos. Até mesmo o couro animal pode ser reinventado. Em Portugal, cascas de frutas dão origem a acessórios como carteiras e cintos. Quem olha, dificilmente imagina a origem do produto. Já no México, resíduos de cactos dão origem ao chamado couro verde. Produtos semelhantes já são produzidos a partir de cascas de maçã, amêndoas, arroz, folhas de abacaxi ou murumuru. Nunca ouviu falar? Pois trata-se de uma palmeira muito comum na região amazônica, empregada principalmente na indústria de cosméticos. Com ela, ou melhor, com as cascas do seu fruto, que eram descartadas como lixo, pesquisadores da Universidade Federal do Pará conseguiram desenvolver um produto que, agregado ao cimento, torna-o mais resistente e durável. Essas e outras alternativas são o que os cientistas chamam de bioeconomia. O princípio básico é até muito simples: assim como na Natureza, nada se desperdiça, tudo se reaproveita e se transforma em benefícios e qualidade de vida. Até as bitucas Um estudo recente, feito em vários países, inclusive no Brasil, identificou as bitucas de cigarro como o resíduo mais presente em praias e rios. Por ano, são produzidos quase 10 trilhões de cigarros e agora, graças a uma tecnologia australiana, todo esse descarte pode ser inteiramente incorporado na fabricação de tijolos. Detalhe: graças à fibra presente nos filtros, os tijolos com bitucas são mais leves que os tradicionais e ainda apresentam um melhor isolamento térmico, possibilitando reduzir os custos com aquecimento ou refrigeração. Por fim, de acordo com os cálculos, com apenas 1% de pontas de cigarro seria possível reduzir em até 10% a energia necessária para queimar os tijolos.