(Adobe Stock) O poeta é um estranho entre os seus. Não por falta de pertencimento, mas por ver o mundo de um ângulo levemente torto, como quem desconfia das verdades que todos aceitam com naturalidade. A urbe segue seu curso – carros correm nas ruas, relógios apressam o tempo, pessoas atravessam a vida sem reparar muito ao redor. Mas ele vê, sente, descreve o que muitos preferem ignorar. Dá voz ao que não é dito, empresta palavras àquilo que escapa ao comum, e é justamente por isso que uma cidade sem poetas é uma cidade muda. Nas pequenas ou nas grandes metrópoles, eles se fazem ouvir, ainda que muitas vezes em silêncio. Poetas são cronistas da alma de suas comunidades, intérpretes da história e da vida que se desenrola nas esquinas e praças. Por meio de seus versos, escritos, falados ou cantados, revelam as sutilezas de um tempo, as dores de uma geração, as belezas ocultas nos detalhes banais. São como o fio invisível que conecta o passado ao presente, criando um espelho onde cada um pode se enxergar, refletido de maneira mais humana e profunda. É por isso que aquelas que valorizam seus poetas são cidades mais vivas. Quando morre um poeta, algo profundo se vai. As ruas perdem um pouco de sua cor, as esquinas ficam mais silenciosas, o céu parece mais opaco. A cidade que não os valoriza, que não lhes oferece espaço ou reconhecimento, está condenada a viver apenas na superfície de si mesma. Caminha sem rumo, sem profundidade, privada de sua própria alma. Na história do Rio de Janeiro, por exemplo, quando poetas do samba como Cartola e Nelson Cavaquinho se foram, a cidade sentiu. Suas músicas e versos são a memória viva de um tempo que não volta, mas que ecoa eternamente nas favelas e ruas. A Mangueira chorou quando perdeu esses gigantes, e o Brasil, ainda que por um momento, parou para ouvir aquele choro. São essas figuras que transformam a vida comum em arte, que nos ajudam a enxergar o extraordinário no cotidiano. Mas o reconhecimento dos poetas não pode vir apenas no luto. A verdadeira homenagem é vivê-los em vida, dar-lhes espaço, voz, ouvir seus versos quando ainda caminham entre nós. Na pressa das metrópoles, onde o tempo parece devorar tudo, eles nos lembram de parar, de sentir, de refletir. Oferecem uma nova perspectiva, uma visão mais sensível e profunda da vida urbana e de nós mesmos. Valorizar os poetas é encantar a própria cidade e seus habitantes. É reconhecer que, sem a voz desses intérpretes do real e do imaginário, corremos o risco de viver em lugares que produzem muito, mas que sentem pouco. Lugares onde se constroem prédios, mas não histórias, onde as ruas são largas, mas os corações, apertados. E quando um poeta morre, a cidade deveria chorar. Não de tristeza somente, mas de gratidão. Chorar por tudo o que ele nos deu em vida, por todas as vezes que nos fez pensar, sentir, rir ou chorar. É nesse momento que percebemos o quanto precisamos deles. Precisamos dos poetas para que nossas cidades respirem e, acima de tudo, para que nos lembremos de que somos, todos nós, feitos de versos ainda não escritos. Em tempos de mudanças rápidas e incertezas, o que resta de mais valioso é aquilo que o poeta eterniza. Porque, quando a última pedra for colocada e a última rua estiver pavimentada, serão os seus versos que continuarão a contar a história de quem fomos e, mais importante, de quem ainda podemos ser.