(Alexsander Ferraz/ AT) Só na cidade de Santos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que há 174.666 pessoas com mais de 50 anos. E quem pensa que este público fica no sofá de casa está muito enganado. Se há alguma dúvida, olhe para as academias da Baixada Santista. As unidades estão repletas deste público em busca de qualidade de vida. Um exemplo é uma academia no Boqueirão, em Praia Grande, onde 20% dos 1,4 mil alunos já passaram dos 55 anos. Essa turma está no caminho certo para melhorar o corpo, a mente e até a alma, como explica a fisioterapeuta da Unicamp Luciana Campanatti Palhares. “Quanto antes a pessoa sair do sedentarismo, melhor para ela. E não tem idade certa”. A hora é agora Henrique Teixeira, 74 anos, se exercita regularmente em uma academia da Praia Grande com boa parte dos alunos acima dos 50. Ele começou a se exercitar há dez anos, aos 64, e nunca mais parou. “Notei melhorias na mente e fisicamente. Faço academia para tentar manter uma melhor qualidade de vida”, comenta. Figurinha carimbada nas manhãs da academia, de segunda a sexta, ele conta que é um pouco mais tímido. Apesar de gostar de sair todos os dias e dizer que só recebe simpatia dos colegas de academia, ele admite que não tem tantas amizades. Muito animada, Lina Berger, de 71 anos, chega na academia por volta das 7h e fica até as 10h. A aposentada emenda aula atrás de aula. “Gosto muito por conta também das amizades. Temos as aulas e o aconchego das pessoas, é superfamiliar”. Alegria diária Maria Conceição de Oliveira Souza Barceletti, de 57 anos, conhece todo mundo na academia. Chega cumprimentando um por um. Vinda de Porto Alegre (RS), pratica esporte desde adolescente, vai correndo — literalmente — para a academia todos os dias e se orgulha da boa qualidade de vida que conquistou. “Vou fazer 58 anos e não tenho nada: nem colesterol, nem diabetes, nem raiva de ninguém!”, brinca. Tudo melhorou A veterana da turma de ioga Neusa Yoshinaga, 77 anos, mora no mesmo prédio onde funciona a academia. Divide a vida entre Praia Grande e São Paulo, e desde o fim do ano, ela e o marido “abrem” o estabelecimento: é que por volta das 5h30 eles já começam as aulas e vão até As 9h; isso quando não voltam à noite. Segundo ela, tudo melhorou após começar a praticar exercícios físicos. “Todo mundo é uma família, nos acolheram com muito amor e isso faz toda a diferença”. Supervisão faz diferença Diante de tantos alunos mais velhos, a academia que essa turma frequenta resolveu adaptar algumas aulas para atender especificamente à faixa etária. Um exemplo é a aula de ioga ministrada pela professora Patrícia Gallen. “Conseguimos fazer uma prática que abraça e engloba todos os alunos nesta turma que tem pessoas com um pouco mais de idade. A gente consegue trazê-los e trabalhar dentro do limite do corpo deles”. O trabalho, segundo ela, é muito satisfatório e até um tanto surpreendente, porque essa galera faz bonito. “É muito gostoso e gratificante ver como eles se empenham para dar o melhor e consigo ver a evolução de cada um”. Esse direcionamento proporcionado pela academia é fundamental para prevenir lesões e acidentes, especialmente para aqueles que estão começando a sair do sedentarismo, como explica a fisioterapeuta da Unicamp. “Uma atividade física supervisionada consegue mostrar e corrigir possíveis movimentos que a pessoa pode estar adotando, correndo o risco de prejudicar tanto o músculo quanto a articulação”, afirma Luciana. Benefícios para o corpo e para mente Se nunca é tarde para começar, o importante é não perder tempo. Mas, antes, é preciso tomar uma precaução: realizar um exame médico é essencial para garantir que a saúde está em dia e começar a se exercitar de forma saudável. Afinal, após meses e até mesmo anos de sedentarismo, é possível que o organismo não esteja preparado para lidar com alguns impactos. “Normalmente, o idoso pode ter perda óssea ou desenvolver algum problema cardiovascular com o sedentarismo, ou com o próprio envelhecimento. Por isso que um exame médico prévio antes da atividade física é muito recomendado”. O que não quer dizer que os exercícios não possam trazer melhorias para vários dos sintomas. Pelo contrário: a prática é “muito indicada” para a faixa etária. “Pacientes que têm diabetes podem perder a musculatura ao longo do tempo. Quando voltam a fazer atividade física, principalmente direcionada para força muscular, há melhora progressiva. Quando tem hipertensão arterial e faz uma atividade física aeróbica, a tendência é que o quadro melhore”. “Você pode iniciar gradativamente. Às vezes ficamos com um pouco de preguiça porque o nosso organismo não foi feito para fazer exercício, e sim para ficar quieto, para não gastar energia. Mas tem que tentar, porque depois o bem-estar é enorme”. Esse bem-estar é tanto físico quanto mental, garante a especialista. Os exercícios ajudam a melhorar a oxigenação cerebral e também atuam na liberação de hormônios durante a prática, o que pode colaborar no tratamento de doenças como ansiedade e depressão. “Eles gostam de falar como melhorou o dia a dia deles, os movimentos, a socialização. Todos os dias a gente recebe um relato desses e se emociona porque lidamos com seres humanos. Transformar a vida deles nessa altura é muito satisfatório”. 150 minutos Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um adulto deve praticar, no mínimo, 150 minutos de atividade física por semana. A fisioterapeuta destaca que se for dividido de segunda a sexta, por exemplo, são apenas 30 minutos por dia e ainda sobra o fim de semana de folga.