A busca por liberdade, autonomia e individualidade no próprio espaço é fator muito comum para este passo (FreePik) Morar sozinho é uma etapa importante na vida de qualquer jovem. O divisor de águas acontece geralmente por motivos de estudo ou de trabalho. E está demorando mais para que isso aconteça, em uma média de 25 a 34 anos, segundo a psicóloga Amanda Costa Bispo. “Muitos dos motivos causadores dessa demora, frequentemente sinalizados pelos jovens, envolvem a dificuldade em ter estabilidade/autonomia financeira, a necessidade em lidar com as responsabilidades domésticas e o desamparo que essa mudança pode causar. Porém, pode-se considerar que muitas vezes a casa dos pais/responsáveis acaba virando uma zona de conforto para os jovens e, por mais que haja o desejo intrínseco e até mesmo a necessidade de que isso ocorra, o medo da mudança se torna um obstáculo e os planos para ter um espaço só seu acabam sendo postergados com frequência”, analisa. O momento, lembra a psicóloga, é encarado como um desafio, com responsabilidades, crescimento pessoal e autoconhecimento a tira-colo. “Caso contrário, se este momento for visto de um cenário diferente, ou seja, não ter responsabilidades, rotina e/ou autocuidados, a vida do jovem pode se tornar uma verdadeira máquina de improdutividade e ansiedade. Por isso é imperioso que, principalmente no início, se tenham dias produtivos planejados, a fim de criar uma rotina que facilite essa sua nova jornada”, recomenda. Fatores A busca por liberdade, autonomia e individualidade no próprio espaço é fator muito comum para este passo, analisa Amanda. “Ter o controle sobre suas escolhas e criar sua própria rotina a partir dos seus próprios desejos e necessidades também é algo muito considerado nesse desejo. Podemos pensar que somos como um casulo, ou seja, conforme crescemos vamos precisando de mais espaço, e não só do espaço físico nesse caso. A partir da minha experiência como psicóloga, vejo que muitos jovens consideram essa etapa da vida algo de grande crescimento pessoal e autoconhecimento”, define. O desenvolvedor de inteligência artificial (IA) Lincoln Costa Cruz dos Santos, de 22 anos, mora sozinho há um ano. Ele residia com os pais na Cidade Náutica, em São Vicente, e agora está no Jardim Casqueiro, em Cubatão. “Tomei essa decisão para poder me desenvolver como adulto. Existe uma série de responsabilidades e contas que você não fazia a menor ideia que existiam. E dali a uma hora ou outra, você vai precisar lidar com elas na sua vida”, afirma. A experiência tem sido considerada ótima por Lincoln. “Tenho liberdade total para fazer o que eu quiser e sei que isso traz muita responsabilidade sobre cada compra ou coisa que faço na vida, fazendo eu pensar melhor financeiramente. A vida te educa como nenhum outro professor. O principal fator positivo é a liberdade de ter suas coisas de verdade, conquistadas com seu próprio suor”, conta. Pesares e diferenças Os pesares, naturalmente, também existem e estão ligados ao lado financeiro. “Como tudo na vida tem seu lado ruim, você ganha novas contas, como aluguel, prestações e alimentação. Isso te faz juntar menos dinheiro em relação a quando você morava com seus pais”. Lincoln se considera uma pessoa completamente diferente do que no passado. “Hoje, entendo o valor de cada centavo e conheço muito melhor as burocracias e serviços existentes. Morar sozinho obriga a gente a planejar o futuro à medida que você quer melhorar sua vida adulta, e te faz entender que, no fim do dia, você só tem a si mesmo para ajudar a resolver seus problemas”, analisa. A estudante de Comunicação Organizacional na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTF-PR), Luiza Lira Fordelone Linhares, de 21 anos, mora em Curitiba (PR) com amigos há três anos, desde o início de 2022, após dois semestres on-line do curso. Antes, ela residia em São Vicente com pais e irmãos. O incentivo veio justamente da família, cumprindo uma espécie de tradição. “Meus pais sempre quiseram que meus irmãos e eu estudassem em universidade pública. Minha mãe foi para o Interior de São Paulo, na Unicamp, e meu irmão para São Paulo, na USP. E eu para Curitiba. Fui para mais longe”, comentou Luiza, que é estagiária de Comunicação Social na Casa Civil do Governo do Paraná. Apesar de gostar muito de Curitiba, por considerar uma capital bem menos caótica do que São Paulo, a estudante sente falta da praia e dos amigos da Baixada Santista. Tanto que, quando foi feita a entrevista, ela estava de férias na região. “Sinto muita falta de ir para a praia com meus amigos e, felizmente, tenho esse privilégio de conseguir pagar as passagens e voltar pelo menos uma vez por mês ou, no máximo, uma vez a cada dois meses, justamente porque eu sinto muita falta. Fico até pensando em, talvez, voltar, apesar da experiência”, revela. Independência Para Luiza, a saída da casa dos pais ajudou em termos de independência e amadurecimento, além de ter conhecido pessoas do Brasil inteiro. “Quando tem algum tipo de perrengue, estou triste por alguma razão ou algo deu errado no meu dia, posso fazer uma ligação e meus pais e amigos sempre vão me salvar. Mas, no final das contas, estou sozinha e tenho que resolver. Passar por isso muda muito a gente. Amo conhecer gente. Aqui tem do Sul ao Norte do País. E também posso criar minhas próprias regras porque, quando a gente está na casa dos pais, tem que seguir as regras deles. Na nossa casa, percebemos o que a gente gosta ou não na nossa rotina”, analisa.