O terceiro fórum da Agenda ESG deste ano teve a participação remota de André Ferreti, que estava na COP29, em Baku, no Azerbaijão (Sílvio Luiz/ AT) Os eventos climáticos extremos que vêm ocorrendo de forma frequente nos últimos anos estão impactando a vida de um número cada vez maior de pessoas. À medida que essas mudanças se tornam mais intensas, todos e todas terão que lidar com seus efeitos, em menor ou maior grau. Essa já é uma realidade e, longe de soar alarmista, situa a urgência de adaptações necessárias, como a transição energética para fontes mais limpas. Essa foi uma das constatações que marcaram o terceiro encontro da Agenda ESG do Grupo Tribuna, realizado na última terça-feira (19), no auditório do grupo. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas será que ainda há tempo de minimizar os graves impactos das mudanças climáticas que já se apresentam? Para o gerente sênior de economia da diversidade da Fundação Grupo Boticário, André Ferretti, a resposta é sim. Ele foi um dos painelistas do evento, que reuniu especialistas de diferentes áreas. Ferretti estava presente à Conferência das Partes sobre o Clima (COP29), importante fórum mundial realizado anualmente para debater as mudanças climáticas que termina hoje. Neste ano, a conferência ocorreu em Baku, no Azerbaijão, e ele participou de forma on-line do encontro da Agenda ESG. “É cada vez mais urgente a necessidade da gente tomar medidas. O prazo que o IPCC estabeleceu está se esgotando”, disse, referindo-se ao Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, formado por cientistas e criado pelas Nações Unidas para avaliar e monitorar as mudanças climáticas. Urgência De acordo com Ferretti, a organização recomenda que os países apresentem metas de redução de emissões de gases de efeito estufa mais ousadas até fevereiro de 2025. “O IPCC recomenda que essas emissões sejam reduzidas na ordem de 60% daquilo que era emitido em 2019, antes da pandemia, até 2035. Cada dia em que essas medidas são postergadas, as chances de sucesso diminuem”, comentou. Para Ferretti, ainda há esperança, mas é urgente a necessidade de investimentos também para a adaptação aos impactos das mudanças climáticas. “Há cenários previstos para o futuro que já acontecem agora, como foi no Rio Grande do Sul, com excesso de chuvas, e também em outras partes do mundo, com ocorrências de grandes incêndios, secas, inundações, furacões e eventos climáticos extremos como um todo”. 2024 será o ano mais quente da série histórica A compreensão do porque dessa urgência e da necessidade de ações imediatas foi detalhada no evento pelo professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) na Baixada Santista e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, Ronaldo Christofoletti. Para contextualizar, vale reforçar que nenhum país signatário do Acordo de Paris cumpriu suas metas. Entre os objetivos desse acordo está a redução da emissão dos gases de efeito estufa, o que deveria frear o aumento de 1,5° C de temperatura global quando comparada àquela que existia no período pré-industrial. O IPCC considera esse um limiar climático fundamental para o planeta. Os cientistas já alertam que 2024 pode terminar com aumento médio de temperatura acima de 1,5° C, ficando entre 1,54° C e 1,55° C. Christofoletti reforçou essa informação dada por Ferretti, afirmando que tudo indica que 2024 registrará o aumento de 1,5° C de temperatura global, batendo o recorde histórico de um estudo que considera uma série de 40 anos e, assim, será o ano mais quente, superando 2023. “A temperatura da água do oceano também aumentou em 0,6° C e essa taxa de aquecimento mais do que dobrou nos últimos 20 anos. Considerando que os oceanos cobrem 70% do nosso planeta, podemos dizer que a Terra está com febre. Numa comparação, se 70% do nosso corpo não estiver bem, o que isso significa?”, questiona. Antártida Ele explica que o aumento da temperatura do ar e da água dos oceanos já perdura por mais de 18 meses consecutivos e não se trata mais somente de picos, o que atesta a gravidade do problema. A essa questão, soma-se também o degelo da Antártida, que resulta no aumento do nível do mar, atingindo a costa. “Temos dados claros mostrando a urgência de discutir o impacto social que essas mudanças têm. O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) já aponta que possivelmente eventos climáticos extremos aumentem 60% nos próximos anos”, comenta. COP29 e boas práticas empresariais: entenda a relação Christofoletti também esteve presente na COP29 e comparou esse fórum ao universo empresarial, em particular às iniciativas adotadas pelas organizações e preconizadas pelo ESG. Traduzida do inglês Environmental, Social and Governance (em português, ambiental, social e ambiental), a abreviatura corresponde a um conjunto de padrões e boas práticas que deve ser adotado por uma empresa que quer estar alinhada aos três pilares: ambiental, social e governança. “Na prática, se a gente olhar a discussão sobre o ESG dentro de uma empresa, ela está tratando os seus pilares como ferramentas para alcançar uma meta melhor. Na COP, não é diferente: o mundo olha a partir de questões ambientais, sociais e de uma governança global para que haja um planeta melhor”. Ações locais De acordo com Christofoletti, nenhum dos eventos climáticos extremos que ocorreram neste ano, a exemplo do excesso de chuvas no Rio Grande do Sul, foi previsto com 24 horas de antecedência. “A gente precisa ajudar a reduzir crises como essa por meio de ações locais, com a adoção de pautas ESG no setor público e privado e discutindo com maturidade o que podemos fazer para minimizar esse processo. Isso passa pela nossa mudança de comportamento ao entendermos que não se trata de um problema do futuro, é a nossa realidade do agora e precisamos nos adaptar”. Um aspecto fundamental dessa adaptação é reduzir os impactos dos efeitos de gases de efeito estufa por meio da transição energética para fontes mais limpas. “Mesmo que a gente faça toda a transição energética necessária no próximo ano - o que é impossível - ainda haveria um rescaldo de uma ou duas décadas até o planeta se estabilizar novamente. Voltar para o que era não existe mais. Não haverá estações bem definidas e o que podemos fazer se aproxima desses ciclos, essenciais porque o nosso sistema econômico e a forma em que a sociedade foi estruturada é daquela maneira “, explica. “Se a dinâmica do planeta mudar, nós não saberemos lidar com esse novo processo, Por exemplo, o agronegócio, que é maior parte da balança brasileira, foi desenvolvido no seu máximo dentro de um sistema de época de chuva, época de seca e quando plantar. Quando isso é alterado, não funciona bem, significando, em última instância, uma queda do PIB brasileiro, refletindo no preço do mercado para o cidadão comum. A mudança do clima afeta a todos, mas não da mesma forma. Alguns serão mais afetados que outros e, por isso, temos essa responsabilidade”.