Para Fernanda Gouveia, no Brasil, a maior mudança, de 2008 para cá, é que o debate sobre a utilização da planta para fins medicinais “está mais em alta” (Alexsander Ferraz/AT) O uso da planta de maconha para fins medicinais pode até parecer um assunto recente, mas não é. No Brasil, a utilização da Cannabis está liberada desde 2008. No entanto, o debate a respeito do tema engatinha, e a grande maioria dos pacientes que busca medicamentos precisa importar os produtos. Por que este quadro dura quase 20 anos? Há muitas respostas para essa questão. Segundo a diretora-presidente do Instituto Articulação de Tecnologias Sociais e Ações Formativas (Adesaf), Fernanda Gouveia, uma das razões é o preconceito. Ela foi uma das participantes do oitavo fórum deste ano do projeto A Região em Pauta, que chegou a 80 encontros realizados. Este último evento ocorreu na segunda-feira passada, no auditório do Grupo Tribuna, no Paquetá, em Santos. A especialista disse que muitos doentes que poderiam ser beneficiados pelos efeitos do canabidiol (CBD) e de outras substâncias presentes na planta pagam por causa de uma visão fechada da sociedade. “O preconceito faz o debate não avançar, principalmente pelo efeito psicotrópico de um dos compostos, que é o THC (tetra-hidrocarbinol). Mas, a diferença entre isso fazer mal (ou bem) é a dose e o acompanhamento médico, assim como acontece com muitos outros medicamentos, que têm esta mesma ação no organismo da gente, principalmente os psiquiátricos”. Fernanda Gouveia fez algumas ponderações sobre a postura da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que é vinculada ao Ministério da Saúde. “Este órgão federal, que não regulamenta o uso da Cannabis, autoriza comprar produto importado (feito com planta de maconha)... Quanto, de verdade, das restrições tem a ver com a substância? Até porque a gente sabe que, se houvesse uma lei para substância, talvez o mais proibido seria o álcool”, disse. Ela ainda citou a abordagem de parte da mídia como mais uma prova de que existe um olhar negativo para o tema. “Em alguns veículos de comunicação, observamos que quando a matéria é negativa, é possível ler, de forma pejorativa, o nome maconha. Quando é positivo, é canabidiol ou Cannabis medicinal. Só que falamos da mesma planta”. Mão na consciência Finalizando seu discurso, em que defendeu o cultivo controlado e para fins específicos da planta, a diretora-presidente da Adesafi fez um apelo. A especialista pediu para que a população se envolva nas discussões e não fique alheia em relação ao assunto. “Gostaria de pedir e fazer com que reflitam. ‘Ah, a pauta da maconha… Não tenho nada a ver com isso…’ É porque não tem ninguém doente na família ou um parente sem dinheiro para comprar o remédio. Todo mundo tem alguma coisa a ver com isso. Estamos em um País em que a substância foi proibida por questão de preconceito, de política, de economia. Não é pela substância. Isso atinge muitas pessoas, que foram alvo da demonização da planta”, concluiu a convidada do fórum.