Célia Regina: “Não existem praias sem risco. E quanto maior o risco, maior é a chance de ocorrer inundação costeira na orla” (Sílvio Luiz/ AT/ Arquivo) Um terço das praias do litoral paulista está ameaçado. Em decorrência do aumento do nível do mar, uma das consequências das mudanças climáticas e do aquecimento global, além de outros fatores, a erosão costeira avança, colocando em risco áreas de diversas cidades. O perigo existente é de que muitas áreas desapareçam. O assunto foi debatido no fórum A Região em Pauta, sobre as mudanças climátias, que ocorreu no auditório do Grupo Tribuna na última segunda-feira (24). Segundo a pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Ambientais da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), Celia Regina de Gouveia Souza, isso pode acontecer por causa da elevação do oceano, que já é notada há mais de 30 anos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “No nosso litoral, temos a projeção de 1993 a 2021. A taxa média, aqui, foi de elevação de 26 centímetros por século. Isso dá 2,6 milímetros por ano”, frisou, citando a consequência do fenômeno. “Quando o mar sobe, ele vai empurrando o perfil da praia para cima do continente. Se tenho espaço de acomodação, ele está erodindo dunas antigas. Quando sobe em cidade que tem muro e sem espaço de acomodação, a praia some, desaparece. Este é um efeito já visto na Baixada Santista”, disse. Este problema não é o único que atinge as cidades litorâneas. Há, ainda, ressacas, provocadas por ventos ou por outros fatores. Tudo isso contribui para “erosão costeira e inundação continental, que acontece em planícies e é causada quando a maré está alta”. Tais elementos costumam mover a areia, tirando-a de seu lugar e a levando para outros locais. Este movimento não é anormal, mas pode ter efeitos prolongados e duradouros. Por sinal, algo assim já acontece em Santos. “Aqui, a areia vai embora e não retorna”. Apesar disso, Santos não é o município que corre mais perigo. “Sessenta e sete por cento das praias estão em risco alto ou muito alto de erosão costeira. Na Baixada Santista, toda a parte sul tem risco muito alto, como o Gonzaguinha (em São Vicente). Em Santos, o nível é médio. Também existem no litoral sul, como Ilha Comprida, em que o nível está subindo”. Célia Regina destacou que “não existem praias sem risco. E quanto maior o risco, maior é a chance de ocorrer inundação costeira na orla”. Falta de dados prejudica avaliação No fim do ano passado, um estudo chamado Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) projetou que partes de Santos e do Rio de Janeiro estarão submersas até 2100. A razão seria o aumento do nível do mar. Porém, apesar de somente estas duas cidades terem sido citadas na pesquisa, outras localidades podem correr risco. O professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) na Baixada Santista e representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para o Brasil em mudanças climáticas, Ronaldo Christofoletti, explicou por que outros municípios não foram mencionados. “A gente só é capaz de responder e fazer previsões com segurança tendo dados em mãos. Então, por que, no estudo, emergem Santos e Rio de Janeiro, as únicas cidades brasileiras sob risco neste momento? É porque elas têm dados. Isso não significa que outros municípios não serão impactados. Acontece que Santos e o Rio tinham informações suficientes para a gente entender o impacto”, afirmou. Segundo o pesquisador, não faltam apenas estatísticas voltadas ao mar, mas também às temperaturas. Este problema seria responsável por impedir uma previsão mais acertada sobre ondas de calor. “No litoral de São Paulo, fui fazer uma avaliação, a fim de saber em quanto estava aumentando a frequência dos eventos extremos de temperaturas. Eu precisava de 40 anos de dados diários, sem interrupções. Só Iguape tinha essa base”, contou. Diante disso, Christofoletti pediu que haja investimentos no setor. “Temos de monitorar e investir em monitoramento, porque, senão, não conseguimos prever quando vem a chuva”. Umidade das florestas Devido ao calor, além de outros fatores climáticos, incêndios costumam acontecer em florestas e demais áreas verdes. Este fenômeno, no entanto, não deve ser visto por aqui. É o que garantem dois participantes do fórum do projeto A Região em Pauta. A primeira pessoa a falar sobre isto foi a pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Ambientais da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), Celia Regina de Gouveia Souza. Ela disse que a Mata Atlântica presente na Baixada Santista tende a não pegar fogo. “Acho que é pouco provável nesta vertente atlântica. No planalto, podemos ter situações assim. Mas, incêndio espontâneo, acho bem difícil, porque a vertente daqui é bem úmida”, afirmou. O subsecretário estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura, Jonatas Trindade, concordou. “A região não é propícia para isso. A chance de incêndio acontecer é menor pelas condições da vegetação e climática da Mata Atlântica”. Riscos na Baixada Enxurradas como a que atingiu o litoral norte, mais precisamente São Sebastião, no Carnaval de 2023, podem se repetir. E existe a chance de que tal fenômeno ocorra na Baixada Santista. Quem garante isto é Pedro Ivo Camarinha, especialista em Geodinâmica/Geologia dos Desastres do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). “Temos indicativos de que pode acontecer no futuro”, afirmou o convidado do fórum durante sua participação no quinto evento do ano do projeto A Região em Pauta. Por sinal, o painelista disse que aquele evento já poderia ter atingido cidades da região. “Foi por pouco que não acertou Santos em cheio. O município estava na borda do evento de 2023. Havia chance de acontecer um pouco mais para oeste”. Segundo Camarinha, a chuva que caiu sobre o litoral norte foi muito forte. “Entre Bertioga e São Sebastião, choveu 400, 500 milímetros em um dia”. Ele afirmou que tal índice equivale a “furacões superfortes”. No total, 65 pessoas morreram em decorrência da enxurrada. À época, a destruição provocada pela quantidade de água chegou a isolar a região. Além de apontar a possibilidade de novos fenômenos extremos, o especialista do Cemaden assegurou que grandes precipitações tendem a ocorrer mais vezes. “Sobre eventos que ultrapassam 200 milímetros em 72 horas, tivemos duas ocorrências entre 1980 a 2010. Ou seja, dois em 15 anos. Fizemos projeção e vimos a tendência de duplicar, com chances de aumentar ainda mais, com seis episódios em 30 anos”. Por fim, o convidado do fórum ressaltou que tal situação é resultado do aquecimento global. “As ondas de calor, ao longo do tempo, principalmente em estações de transição, podem configurar chuvas muito acima do normal”.