Estudo apontou que, entre causas dos encerramentos de empresas, também pesou a pandemia de covid-19, que mudou hábitos (Flavio Hopp) A maior taxa de mortalidade de empresas, no Brasil, é verificada no comércio. Pouco mais de três em cada dez empreendimentos que encerram suas atividades são do setor. A maior fatia dos negócios que falem é dirigida por pessoas sem capacitação. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! As informações são do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Elas fazem parte das conclusões apresentadas em um estudo publicado pelo órgão no ano passado, que utilizou dados da Receita Federal e de pesquisas realizadas entre 2018 e 2021. O levantamento apontou dados referentes a empresas fechadas em 2020. Conforme os indicadores, 30,2% de todas as companhias que fecharam em até cinco anos de atuação eram do comércio. O segmento foi seguido por indústria de transformação (27,3%). O menor índice foi obtido pela indústria extrativa (14,3%). Além disso, o Sebrae constatou que, entre os pequenos negócios, os microempreendedores individuais (MEIs) possuem a maior taxa de mortalidade. Eles correspondem a 29% do total, 8% a mais do que Microempresas (MEs). O estudo revelou, também, quais estados registraram os números mais elevados. Assim, averiguou-se que 30% das empresas que deixaram de existir estavam sediadas em Minas Gerais. A unidade da Federação citada foi seguida, de perto, por Distrito Federal, Rondônia, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, todos com 29%. Os números mais baixos foram vistos no Amazonas e em Piauí, ambos como 22%. Causas apontadas De acordo com o Sebrae, quatro motivos principais levaram ao fechamento de negócios. Um deles foi a falta de preparo. Esta afirmação parte de dados como este: em média, 42% dos entrevistados fizeram treinamentos, mas, como aponta o artigo, “no grupo das empresas fechadas, foi maior a proporção de quem não fez nenhuma capacitação”. Outra razão acabou sendo planejamento deficiente. A pesquisa citou que 17% dos empreendedores não traçaram nenhum plano, enquanto 59% só projetaram seis meses. Por fim, o estudo apontou como causas de insucessos problemas de gestão e de ambiente. Neste último, pesou a pandemia da covid-19, vista por mais de 40% como culpada pelo fim de suas atividades. “Lucro não é pecado. Ele é uma recompensa pelo risco” O presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado de São Paulo, Maurício Stainoff, destacou um dos pontos levantados pela pesquisa realizada pelo Sebrae. Para o especialista, de fato, a falta de gestão é um problema sério, que leva empresas, principalmente as menores, ao fechamento. Participante do fórum A Região em Pauta, ele afirmou que, “de forma geral, no pequeno varejo, falta conhecimento, profissionalismo. Muitos acreditam que abrir loja é só pensar em ponto, prateleira, balcão e mercadoria, mas não é o que acontece”. Segundo o painelista, esta ideia incorreta causa distorções, inclusive de caixa. Isso porque muitos dos gestores não sabem precificar seus produtos e serviços, comprometendo as finanças e elevando o risco de falência. “O empresário não sabe calcular os custos embutidos e isso causa descompasso, porque acha que o tributo é o que o impede de vender, mas é a falta de preparo para que o preço seja adequado e que, além dos custos, incluindo contas de luz e água, ele tenha algum lucro no final”, salientou, reforçando: “Lucro não é pecado. Ele é uma recompensa pelo risco e pelo trabalho que se tem”. Consequência Stainoff finalizou sua fala, ressaltando que, caso o comerciante não aprenda a definir os valores que cobra, vai acabar integrando o grupo de negócios que morrem. “Se não souber fazer isso, vai entrar para os 30% que fecham”. Atração de clientes deve ser o foco Embora o capital de giro seja considerado uma dificuldade enfrentada por empreendedores de vários portes, os empresários devem se preocupar, de forma imediata, em encontrar soluções para outro problema: a atração de clientes. Chamar a atenção dos consumidores e trazê-los aos estabelecimentos é fundamental. Para isso, é necessário conhecer bem o público-alvo. O consultor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), Alexandre Giraldi Moreira, foi quem tocou no assunto. Ao ser questionado sobre o desafio de manter o caixa da empresa equilibrado, o especialista minimizou o tema. “O capital de giro é uma dificuldade não só de negócios que estão começando, mas também de um que está terminando. A maior parte dos empreendimentos inicia sem dinheiro. São raros os empresários com recursos sobrando para montar um comércio”, afirmou. Depois desta declaração, ele pontuou o que, em sua opinião, tem de ocupar a mente daqueles que estão no mercado. “A primeira coisa é atração do cliente para dentro da loja. Como o atraio?” Na sequência, o painelista disse que a resposta para tal questionamento é esta: “Precisa-se seguir regras, como recência, frequência e intensidade. Você precisa ter sido a última a aparecer na vida da pessoa”. Girandi deu um exemplo: “Cachorro urina em todo lugar, para marcar território. Faz isso na ida e na volta, porque sabe que tem de ser o último a urinar e que precisa fazer isso várias vezes, para criar uma memória olfativa. Ele entende que necessita ser recente e frequente”. Segundo o especialista, só se atinge tais objetivos por meio de planejamento e investimento em comunicação. Concordando com o representante do Sebrae, o CEO da Kallan Calçados, Rogério Shimizu, frisou que, neste ponto, conhecer, detalhadamente, o público é essencial, a fim de que as campanhas sejam bem-sucedidas. “Tem de ter consistência e entender quem é seu cliente. Não dá para querer atender todo mundo, isso deve estar claro. É necessário entender o mercado e se adaptar”, asseverou. Problemas variados Além dos problemas citados acima, existem outros obstáculos, como os apontados por alguns participantes do fórum A Região em Pauta que estiveram na plateia. “Meu maior desafio é o capital de giro. Eu recebi um dinheiro quando pedi para me mandarem embora (do emprego antigo), para construir um negócio, mas meu pecado foi este: peguei todo o recurso e paguei tudo no débito. Talvez, se eu tivesse feito no crédito, a loja se pagaria. Fiquei sem o capital de giro e tenho um pouco de dificuldade para captar cliente”. Amanda Amaro, empreendedora. “Vieram a pandemia e, agora, as obras no Centro de Santos. Mas estou otimista com o futuro. Creio que o setor será revitalizado. Já temos o Parque Valongo, que foi entregue e é uma atração muito boa”. Gian Carlo Fortmuller, comerciante. “Nosso desafio é contratar e manter colaboradores. Questões políticas à parte, temos uma política assistencialista, que inviabiliza, às vezes, a contratação, pois o candidato a uma vaga que já recebe auxílios teria uma diferença pequena em relação ao que já ganha em casa. Sentimos dificuldade”. Adelaide Amaral, empresária.