(Andy03/Pixabay) Teço estas linhas com um fio estranho, cuja matéria prima é de uma pureza que o mundo atual – e muitos dos que ainda seguem montados nele – acharão inapropriada e, por que não dizer, um tanto absurda. Foi-se o tempo em que o futebol era só um jogo. O ventre insaciável do mundo que a tudo traga não tardou em transformá-lo numa mina de ouro para alguns. E isso só foi possível porque para muitos, ou quase todos, ele continuou sendo o que sempre foi. Uma paixão, uma curtição, um modo eficaz de driblar as mazelas cotidianas. Mas como não quero que a ingenuidade contamine a matéria que compõe essa minha reflexão, não vou aqui dizer que o futebol nunca teve dono. Bastou se mostrar rentável para que fizesse nascer barões, oligarcas. Como sempre vimos nesses e em outros campos. Alguns muito populares, venerados, e outros tantos tomados por figuras folclóricas. Símbolos de um arcabouço que até outro dia resistia e dava aos clubes a ilusão de que seguiam sendo de todos. Clubes que durante anos tentaram nos convencer seriam salvos por refinanciamentos sem fim. Deixando no ar, ao mesmo tempo, uma espécie de absolvição a quem administrou mal, deixou de pagar impostos, de honrar contrapartidas. E como, ao contrário das jazidas que podem ter fim, os veios que exploram seguem fartos, era preciso encontrar uma saída para seguir viabilizando esse negócio vital que alimenta um segmento colossal. Mas um negócio que se visto por suas planilhas contábeis se revela financeiramente inviável, incapaz de seduzir mesmo o mais desavisado dos investidores. Diante dessa realidade aterradora, que mal poderia haver em aceitar que um clube de futebol passasse a ter dono? E dane-se que os clubes tenham nascido com ideais tão cheios de virtude, tão cheios de boa intenção, tão cheios de vontade de servir, de fazer do esporte um instrumento social. Clubes geridos por Conselhos, sem remuneração. Sugerindo a paixão como seu grande motor. Escrevo isso porque me parece muito óbvio que neste momento em que o Palmeiras se faz o único dos mais tradicionais times paulistas capaz de desafiar o que o tempo impôs, os outros, apequenados por tantos descaminhos, abalados por dívidas, andam fatalmente enxergando a redenção nessa fórmula recém-elaborada. Fórmula que, antes de qualquer outra coisa, se faz prova cabal da incapacidade dos clubes, e de todos aqueles que se encarregaram deles até aqui. Mas, sem que notem ou queiram notar, salvar o modelo que soa ultrapassado seria salvar um jeito de pensar o futebol, de lhe honrar a alma. Mas ninguém está preocupado com isso. Importa é que a roda siga girando. E aqui está a matéria prima que tece o fio destas linhas, uma sonhada resistência. Pois as SAFs, dito de maneira bruta, transformam os torcedores todos em torcedores de margarina. Faz cair sobre os clubes um quê de produto, desses que podem estar em gôndolas de supermercado. Um produto que a qualquer hora pode trocar de mãos. E reduz o torcedor a mero consumidor. Gostaria de acreditar na capacidade dos Conselhos Deliberativos. Na lição de presidentes eleitos de maneira teoricamente democrática. Mas não é fácil crer nessa fórmula se ao longo do tempo os Conselhos, os presidentes, mesmo tendo a chave dos cofres, acabaram nos trazendo até esta realidade lamentável em que a maior parte dos clubes se encontra. Virar SAF pode até ser a única saída, só não acho que será a salvação.