(S. Hermann & F. Richter/Pixabay) Nunca o Campeonato Brasileiro se viu na situação em que está. Talvez seja um exagero dizer que perdeu prestígio, mas isso não deixa de ser verdade. A sombra dos torneios continentais, se não lhe ofusca, no mínimo se traduz em considerável concorrência. Foi-se o tempo em que as escalações soavam previsíveis. O torcedor aos poucos vai se acostumando a enxergar nelas não só o time possível diante de tantos detalhes científicos que deduram cansaços e afins, mas também o modo como o time dito do coração encara o torneio que terá pela frente. É fato que o Brasileirão soa como algo possível para um seleto grupo de candidatos, enquanto as Copas sempre se revelaram um tipo de conquista mais propícia a aventureiros. Como é fato também que o discurso lamentoso sobre o nosso calendário, com seu desumano número de jogos, praticamente impõe estabelecer prioridades. Mas isso é coisa que exige boa dose de coragem para se confessar. O que explica muito o papel das escalações atuais para elucidar escolhas. Há no meio dessa questão toda a grana. Mas quero crer que ainda não são exatamente as premiações que balizam as escolhas, ou não apenas elas, vá lá. Mesmo porque em outros tempos a diferença entre os torneios nacionais e os continentais era proporcionalmente maior. E, além do mais, gosto de alimentar o sonho de que a grana jamais derrotará a veia imprevisível do futebol. Jamais conseguirá domar plenamente o jogo. Uma crença nonsense que a derrota do Flamengo em pleno Maracanã para o estreante Central Córdoba, da Argentina, dias atrás, ajudou revigorar. E não pensemos só em conquistas continentais porque vem aí a Copa do Brasil com seus milhões e seu caminho diferentão para dividir atenções com o cultuado Brasileirão e lhe turbinar a concorrência. Se nessa nova realidade a prioridade não é pecado, errar na dose pode levar um clube a cometer algum, e do tipo capital. Vejam o caso do Atlético-MG na temporada passada. Corria o mês de outubro, o time mineiro estava nas semifinais da Libertadores e da Copa do Brasil, e as manchetes davam conta de que ele mirava a premiação mas alta da história do clube. O horizonte era mesmo encantador. Ganhando os dois títulos, o Atlético colocaria no cofre uma soma mais de 100 milhões maior do que a que tinha amealhado na temporada 2021, a mais bem sucedida de todas até ali. Mas não nos esqueçamos como terminou essa aposta. Para quem não lembra, o Galo ficou sem os títulos e escapou de ser rebaixado no Brasileirão com requintes de crueldade. Foi na última rodada, e se tivesse sofrido um gol teria caído. O quadro que se desenha me faz lembrar que desde sempre se fez barulho pra que esse ou aquele jogador fosse escalado e que os treinadores não devem deixar de ouvir o clamor da torcida. E se hoje os dados secretos que evidenciam a condição de cada atleta servem quase como um álibi para as vontades do treinador, é possível que o torcedor cada vez mais queira influir também no que será a prioridade do clube. E estou longe de cair no conto da Conmebol, ao alardear que a final da última Libertadores foi o jogo único com a maior premiação do mundo. É daquelas questões relativas porque ao dizer que pagou ao campeão sul-americano alguns milhões a mais do que recebeu o Real Madrid ao vencer a última edição do torneio de clubes da Uefa, deixou de dizer que a premiação total da Champions supera a da Libertadores em consideráveis R\$ 14 bilhões. Mas, abismos monetários à parte, o que sei é que o Brasileirão está na cena atual como um osso duro de roer, enquanto as Copas se revelam um caminho bem mais curto e sedutor, com ares de filé.