[[legacy_image_305252]] Nunca vou esquecer o que me falou certa vez o amigo Xico Sá sobre a maneira para lá de original que ele sempre teve de encarar o futebol. Disse ele no fundo de uma madrugada: “Vladir, o que interessa é o homem por trás do jogo”. Definição tão precisa que já recorri a ela várias vezes no afã de tentar explicar em que ponto tento colocar o meu olhar também boa parte das vezes em que o ofício me exige decifrar o jogo. Mas interessante é notar como este viés costuma passar longe do mundo da bola. Ao longo da carreira, conheci profissionais no futebol que se mostraram muito humanos, mas muito poucos se mostravam preocupados com o homem. Cilinho foi um desses. Ficou até famoso por isso. Como alguém preocupado com o desenvolvimento intelectual dos jogadores que comandava. Tinha notadamente o olhar bem para lá das quatro linhas. Perfil que o fez entrar para a história com esse rótulo. Exibia também vocação para a boêmia. Mas isso é detalhe. Foi um dos melhores em seu tempo. Foi dele a criação do time do São Paulo que acabaria reconhecido como os Menudos do Morumbi, menção a uma jovem banda porto riquenha que fazia muito sucesso na época. Outro nessa rara linha é Fernando Diniz, sobre quem muito tem sido dito. Dias atrás mesmo, quando o time dele garantiu a classificação para a final da Libertadores batendo o Internacional de virada, dei de cara com uma matéria que enaltecia todo o cuidado que o treinador tinha dispensado ao jovem John Kennedy, um dos personagens centrais da histórica vitória no Beira-Rio. Diniz, visivelmente emocionado, falou sobre o camisa 9. E a matéria resgatava ainda uma bonita frase dele dita no ano passado, quando Kennedy andava às voltas com problemas extra-campo. Preciso acolher a pessoa como um todo, não só o jogador, afirmou então. Também é interessante notar que tanto em um caso quanto no outro há certa afinidade. Em uma rápida pesquisa sobre Cilinho, vejam só, acabei deparando com uma manchete que o definia como um “formador de homens”. E não pensem que a coisa para por aí. A maneira de encarar o futebol também guarda semelhanças. Cilinho fazia questão de dizer que tinha compromisso com o futebol ofensivo. E se o time dos Menudos entrou para a história pela conquista de um título paulista, entrou também pela forma como jogava. Cilinho, o homem que dava livros aos seus jogadores, gostava de dizer também que gostava de dar a eles liberdade. A impressão que tenho é que o pragmatismo de Diniz o impede de ser, digamos, liberal como Cilinho. Mas nos dois casos foi preciso que o caminho deles cruzasse com cartolas dispostos a lhes dar amparo. Sabemos todos, vimos nos últimos dias, que esse modo de pensar o jogo muitas vezes não acaba em vitórias. Outra diferença entre os dois é o fato de Diniz ter chegado ao comando da seleção brasileira e Cilinho não. Embora tenha estado quase lá. Dizem que foram oito encontros entre ele e a cúpula da CBF. Queriam testá-lo num Pré-Olímpico. Ele não aceitou. Tinha outras exigências, queria cuidar do trabalho de base. A coisa miou. Diniz, pelo visto, não fez tantas exigências e paga neste momento um preço altíssimo por ter topado comandar a seleção. Enfim, duas histórias que dão amparo a essa filosofia boleiro-humanista, ao mostrar que não é só do lado de fora das quatro linhas que existe quem considere o homem por trás do jogo uma grande questão.